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Bauru e grande região - Quarta-feira, 19 de junho de 2013
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09/06/12 03:00 - Bairros

Calor humano afasta frio na periferia

Cidade possui mais de 2 mil moradias precárias; famílias se aquecem cobrindo cômodos e usando calor humano

Marcele Tonelli
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Se para alguns o frio é um convite perfeito para comer mais e dormir bem aquecido em meio às cobertas, para outros é sinônimo de preocupação. É exatamente deste modo que centenas de habitantes dos 19 bairros de Bauru que vivem em moradias precárias, mais conhecidas como ‘barracos’, veem o inverno em Bauru. Sobrevivendo com menos de R$ 3,00 por dia, mais de 1.400 famílias lutam contra a baixa temperatura cobrindo cômodos com lençóis e usando o calor humano como alternativa para se esquentar.
A 12 dias para o anúncio oficial do inverno, o frio de 11 graus da madrugada de ontem fez com que moradores das regiões periféricas da cidade começassem a improvisar. Na pequena casa de madeira de Aparecida de Fátima Vicente, 53 anos, todos os vãos existentes entre as tábuas estão sendo tapados com cobertas. A medida, segundo ela, garantirá aos outros 10 moradores a proteção contra o frio no barraco localizado na quadra 1 da rua Luiz Ferrari, às margens do córrego Água da Ressaca, no bairro Parque das Nações.
Assim como Aparecida, a moradora Fabiane Santos Bernardo, 26 anos, também improvisa para combater o frio. Morando com a mãe, os oito irmãos e o filho de apenas 3 meses na casa - que recebeu o reforço de alguns cômodos em alvenaria, mas ainda não possui janelas -, ela diz que o calor humano do quarto onde dorme com seus quatro irmãos é o que tem ‘salvo’ suas noites de sono.
“Aqui é uma coberta para cada um. Fico abraçada com ele (filho), me agasalho e dormimos todos cedo para o quarto esquentar”, ressalta a moradora do Parque União.
Para solucionar o problema da falta de janelas na casa, ela e sua mãe, a pensionista Zilda Bernardo, cobriram os buracos das paredes com lençóis e papelão: “Não dá para brincar, aqui faz muito frio”, completa Zilda.
De acordo com levantamentos da Secretaria do Bem-Estar Social (Sebes), somente neste bairro existiriam 80 moradias abrigando dezenas de famílias em condições precárias.
Em toda a cidade, o número atingiria 2.174 casas, distribuídas entre as regiões do Parque Jaraguá, Ferradura Mirim, São Manuel, Pousada da Esperança, Vila Santista e outros 13 bairros.
O número não inclui as ocupações irregulares como o caso das tubulações denunciado pelo JC no dia 6 de junho, quando dependentes químicos afirmaram utilizar as peças de concreto, às margens do viaduto inacabado e da ponte da rua 13 de Maio, como “moradia”, usando cobertas e pedaços de pau como barreiras para o vento, o frio e a chuva.

R$ 800,00 para 10
 
Na casa de Aparecida de Fátima Vicente tudo é dividido, ainda mais em épocas de frio, quando a família consome mais alimentos. A sopa de macarrão simples que era preparada em um fogão à lenha improvisado do lado de fora da casa, na manhã de ontem, serviria um total de dez pessoas entre marido, filhos e netos.
Morando há mais de 10 anos no pequeno barraco com três cômodos, sendo dois quartos e uma sala/cozinha, ela e sua filha, Eliana Araújo, 26 anos, relatam as dificuldades da família, inclusive financeiras. Eles sobrevivem com o recolhimento de materiais recicláveis que são separados pelo companheiro de Aparecida, Vanderlei Barreto, e com os R$ 600,00 recebidos pelo marido de Eliana, Valdemar Barreto, que trabalha como servente.
“O que se ganha é o que se gasta, e ainda falta. Nossa alimentação é na base do arroz e feijão. De vez em quando conseguimos comprar um curancho ou retalho de carne, mas é difícil”, frisa a moradora, que também receberia uma ajuda de custo de quase R$ 200,00 do programa federal Bolsa Família.
Somada, a renda básica diária da família Barreto por pessoa totalizaria menos R$ 3,00.
Apesar da precariedade, na casa é possível encontrar pequenas plantações de mandioca, xuxu, quiabo, cana e maracujá, que auxiliam no reforço alimentício das seis crianças.
Para afastar o frio, outra alternativa arriscada, mas comum entre a família é a permanência próxima ao fogão à lenha no lado externo da casa. 

Riscos

Conforme o coordenador da Defesa Civil, Álvaro de Brito, em regiões de baixada e de muita umidade, como na área do Parque das Nações, próximo a um córrego, as temperaturas mínimas costumam apresentar uma diferenças que vão de 2 a 4 graus a menos. Além da umidade, os ventos e as chuvas também são preponderantes para o aumento da sensação de frio.
Sobre os improvisos realizados pelos moradores para afugentar o frio nesta época do ano, Brito ressalta uma série de cuidados que devem ser observados. “Uma brasa pode ser levada pelo vento de 15m a 20 m de distância. Se cair em capim ou madeira, pode provocar um incêndio”, alerta.
O coordenador da Defesa Civil também aponta que o uso de latas com brasas e o abafamento de saídas de ar com cobertas em cômodos fechados podem ser fatais. “O fogo absorve o oxigênio e a pessoa pode morrer asfixiada em questão de minutos”, enfatiza Brito, ressaltando que a letargia, provocada pela ingestão de gás carbônico, deixa a pessoa sem força para agir.
Ainda de acordo com a Defesa Civil, a aprovação para a retirada das famílias em moradias precárias no Parque das Nações já teria sido dada pela Prefeitura Municipal, que deverá agir nos próximos meses.

Sebes faz campanha para doação de agasalhos e cobertores com a meta de beneficiar 43 bairros

A Sebes realiza uma campanha para arrecadação de agasalhos, cobertores e até móveis em toda a cidade. Segundo Darlene Têndolo, 43 bairros devem ser beneficiados. Neste ano, a campanha conseguiu arrecadar 55 mil peças entre roupas e cobertores que já estão em distribuição, mas a quantidade ainda é considerada pouca diante da demanda na cidade.
“O que não serve mais para uma família e esteja em bom estado com certeza ajudará essas pessoas. O frio é um período muito difícil para os que estão em vulnerabilidade, por isso, temos que nos esforçar ao máximo”, salienta a secretária.
As arrecadações são realizadas em toda a cidade e entregues às unidades do Cras para fazer a distribuição.

Serviço

Onde doar: Nas unidades do Centro de Referência em Assistência Social (Cras) em cada Bairro ou na sede da Secretaria do Bem Estar Social, que fica na quadra 1 da rua Alfredo Maia.
Telefone da Sebes: (14) 3227-8624
Nas doações de móveis ou de grandes quantidades de peças de roupa ou cobertores a Sebes realiza o transporte.





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