Mundo digital reinventa economia
O meio digital e, sobretudo, a Internet têm estimulado releituras de conceitos considerados pilares da economia. Modelos de negócios consagrados no século passado são cada vez mais adaptados a um cenário em que novas fórmulas de lucro, competição e posse convivem com compartilhamento e colaboração. “Isso está constituindo outra economia e talvez até uma nova era”, afirma o economista William Brian Arthur, do Instituto para o Novo Pensamento Econômico (INET, na sigla em inglês), fundação norte-americana de pesquisa.
A cultura de compartilhar provavelmente não seria possível sem as facilidades oferecidas pela rede. É por meio da ferramenta que esse movimento da economia está se desenvolvendo e colocando em xeque, por exemplo, a forma tradicional de obter lucro. Hoje, uma companhia pode ganhar de outras maneiras, além da venda. O empresário pode transformar o aluguel e a troca em negócios rentáveis ou lançar um projeto na internet que será financiado por doações.
Em uma relação colaborativa, é possível faturar mesmo que produtos e serviços sejam gratuitos para o consumidor final. O financiamento (e o lucro), nesse caso, é provido por outras fontes. “É provável que haja muitas inovações sociais para trocar serviços gratuitamente, assim como inovações conexas que vão garantir dinheiro para mantê-las”, aposta a economista Carlota Pérez, da London School of Economics.
O consumo também deixou de ser representado apenas pela compra e o conceito de posse está sendo questionado. Poupar, trocar e tomar emprestado se apresentam como outras possibilidades, muito estimuladas por meio da rede. Algumas pessoas deixam de pagar para ter e passam a desembolsar dinheiro para acessar um serviço ou utilizar alguma ferramenta só pelo tempo necessário, como no uso compartilhado de carros.
Dinâmica
A dinâmica é a base da sharing economy, ou economia do compartilhamento, em que a colaboração ganha mais espaço do que a simples aquisição de um bem. “Mais pessoas se beneficiam e têm acesso às coisas de que necessitam, em vez de haver uma discriminação por quanto você ganha e o que você tem”, explica a consultora australiana Lauren Anderson, referência no tema.
O modelo já foi adotado por diversos setores e movimenta, no mínimo, R$ 100 bilhões de dólares (0,14% do Produto Interno Bruto mundial em 2012), segundo a consultora Rachel Botsman, uma das autoras do livro O que é meu é seu. A estimativa não é exata, segundo ela, porque é difícil reunir dados precisos de alguns mercados.
Mas o compartilhamento só é viável porque há uma multidão de colaboradores que interage e se encarrega dessa releitura. O crowd (multidão em inglês) se impôs, apesar dos limites econômicos e financeiros fixados por grandes companhias, e se tornou mais ativo. Boa parte dessa multidão é jovem.
“A nova geração está chocando todos os processos de negócios”, afirma Gil Giardelli, professor do Centro de Inovação e Criatividade da Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM).
A velocidade com que os países se adaptam a essas mudanças é bastante variável. As economias em desenvolvimento, apesar de enfrentarem mais obstáculos para colocar inovações em prática, têm grande potencial para desenvolver essas iniciativas. A economista Dora Kaufman, do Centro de Pesquisa em Redes Digitais da Universidade de São Paulo (USP), vê necessidade de reinventar os modelos de empresa, concorrência e consumo, pois os atuais não respondem aos novos desafios. “Talvez o Brasil tenha uma posição privilegiada em relação a outros países, em função da forte presença nas redes digitais.”
O poder da tecnologia
Por outro lado, a dificuldade em mexer na estrutura corporativa tradicional do Brasil impede que o poder da tecnologia seja exercido a pleno vapor. O professor Gil Giardelli entende que o País está atrasado e falta desenvolver espírito empreendedor e inovador para transformar criatividade em inovação. “Estamos engatinhando nesse processo. É preciso que o usuário veja a internet como um meio para ter novas ideias e executá-las”, diz.
Mesmo assim, os brasileiros já assistem ao nascimento de algumas iniciativas. Uma delas é a mobilização coletiva para financiar o mapeamento do genoma do mexilhão dourado, liderado pelo Laboratório de Biologia Molecular Ambiental do Instituto de Biofísica, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). O projeto arrecadou mais de R$ 40 mil entre abril e junho deste ano pelo site de financiamento coletivo Catarse.
Apesar de considerar que o Brasil não tem tradição de doação financeira, o professor Mauro Rebelo afirma que o laboratório pretende financiar pelo menos dez projetos, pela plataforma, no prazo de um ano. “Esse foi o primeiro, mas agora seremos curadores de um canal de biotecnologia no Catarse e lançaremos outros projetos.”
Internet muda conceito de competitividade
Além do lucro, a competitividade é outro conceito afetado pela influência da internet nos negócios. A convivência com diversas possibilidades de consumo interfere na maneira como as empresas mapeiam a concorrência. Grandes companhias podem ter de competir, por exemplo, com startups (pequena empresa em período inicial) de um país do outro lado do mundo, em vez de se preocuparem apenas com o mercado local. “As inovações vão enfrentar as grandes empresas”, afirma Giardelli.
A produção e a prestação de serviços também são influenciadas pelo fluxo de informação digital, cada vez mais necessário para quem quer continuar no mercado. Na rede, o conhecimento pode funcionar como uma moeda de troca. Por isso, o compartilhamento de ideias já é visto por empresas como uma chance de aumentar eficiência.
Na criação colaborativa (ou crowdsourcing), cérebros de vários países trabalham para solucionar problemas e desenvolver projetos.
A plataforma InnoCentive é uma das que permitem a interação entre colaboradores e empresas. A Nasa, por exemplo, já lançou nove desafios na plataforma desde 2009. Um deles pedia o desenvolvimento de uma máquina de lavar para ser usada no espaço e obteve 598 propostas. O mais recente quer descobrir um método não invasivo para medir a pressão intracraniana e já conta com 636 projetos. A melhor ideia receberá US$ 15 mil.
Neste ano, o Brasil ainda vai assistir ao surgimento de outra forma para o coletivo financiar iniciativas. As mudanças são tão dinâmicas que até os economistas estão perdidos com a novidade, acredita Carlota Pérez.






