| Neide Carlos |
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| O carteiro João Antônio Honorato: "Estou nos Correios desde 1978 e ainda encontro dificuldades em ruas sem placas" |
Para confundir e não para explicar. O ditado do “velho guerreiro” cai como uma luva para o já saturado trânsito de Bauru. Além dos problemas inerentes à sobrecarga de veículos nas ruas e avenidas, a sinalização existente apresenta falhas.
Placas escondidas por vegetação, vandalismo ou sinais dúbios, que confundem o motorista, são as maiores reclamações de usuários, sejam eles acostumados à rotina viária local ou visitantes, que, desnorteados, recorrem ao GPS ou às informações de transeuntes, abordados em momentos de indecisão.
Não faltam exemplos de sinais confusos, descontínuos ou mesmo irreverentes, desde rotatórias sinalizadas com a placa “Pare” em ambos os lados até o desabafo de um proprietário de terreno na região central que, cansado de sua propriedade servir de “estacionamento alheio” cunhou no muro: “estacionar só por R$ 45” (leia abaixo).
Ironias à parte, sinalização é assunto sério. A polícia, apesar das viaturas dotadas de GPS, não pode confiar cegamente nas placas indicativas que, sem continuidade, podem levar o motorista a lugar algum e dar todo o tempo necessário para a eventual fuga de um infrator.
As ruas de Bauru, observa o tenente-coronel Nelson Garcia Filho, comandante do 4º Batalhão de Polícia Militar do Interior (BPM/I), abrigam o que ele denomina “zonas de silêncio” pela falta de sequência das placas indicativas.
Além de informarem pela metade, salienta, elas também afetam o tráfego. Motorista com dúvida, lembra ele, compromete a fluidez do trânsito, pois dividirá sua atenção entre a localização de pontos esquecidos pela sinalização e o volante.
Até mesmo para quem é de Bauru e está acostumado, vale o teste. Estipule um ponto de referência e siga as placas indicativas, sejam aquelas fixadas tradicionalmente ao lado das vias ou em postes, acima, bem como as tarjetas nas cores marrom e azul específicas para pontos turísticos.
“Às cegas”, desconsiderando conhecer a região, andará em círculos ou chegará a lugares diferentes, na maioria dos casos.
Num dos exemplos, ao seguir a seta à direita, no cruzamento das avenidas Nações Unidas com Rodrigues Alves, em direção ao estádio Alfredo de Castilho, como indicado, o visitante desavisado corre o sério risco de se perder pelo centro ou imediações da avenida Pedro de Toledo antes de adentrar rumo à Vila Falcão e chegar ao campo do Noroeste.
Mais rua
Em casos mais urgentes, porém, a falta de precisão e continuidade pode acarretar em consequências sérias. Acessos a hospitais também estão às sombras da falta de sinalização específica e contínua.
“Eu tinha uma cirurgia marcada para o hospital da Unimed e saímos de casa às seis da manhã. Estava escuro e minha mulher dirigia seguindo as instruções das placas. Fomos parar no Lauro de Souza Lima (outro hospital)”, relata José Schubert, um dos leitores que entraram em contato com a redação do JC nesta semana para narrar as dificuldades ocasionadas pela sinalização falha.
A sinalização existente na pista marginal ao lado da rodovia Comandante João Ribeiro de Barros (SP-225), a Bauru-Jaú, no caso, de acordo com a assessoria de Empresa Municipal de Desenvolvimento Urbano e Rural de Bauru (Emdurb), autarquia responsável pela sinalização no município é de alçada da concessionária Centrovias, que administra a estrada.
A empresa, por sua vez, também por meio de assessoria, informa que sinaliza suas rodovias de acordo com padrão estabelecido por manual oficial regido pelo Departamento de Estradas de Rodagem (DER). Conforme a carta que as concessionárias devem seguir para a instalação de placas ao longo das rodovias, não é permitido nomear hospitais ou qualquer outro estabelecimento particular.
Sinal da ironia
Se por um lado falta sinalização “séria”, por outro, as placas vistas pela cidade refletem a ironia de alguns moradores que as usam como instrumento de protesto. É o caso do comerciante Cláudio César Vertiano.
Cansado de ver seu terreno servir de “estacionamento particular” alheio, ele, que é dono de uma floricultura na rua XV de Novembro, região central, resolveu taxar de sarcasmo a área, com uma placa: “Estacione R$ 45,00 - Hora ou Fração”.
Ele explica que o terreno permanecia com o portão aberto em virtude das entregas de flores e arranjos (o terreno é utilizado como garagem do estabelecimento comercial) e encontrou na placa uma forma de protestar contra as constantes insistências e desobediências.
Além de fechar o portão, colocou a placa. “O incrível é que as pessoas querem é parar de graça mesmo. Está cheio de estacionamento aqui em volta que custa R$ 2,00 a hora e estão vazios”, argumenta.
Outra forma “alternativa” de sinalização, contudo nada hilária é a vista há pelo menos três semanas no cruzamento das ruas São Luiz e Manoel Bento Cruz, no Higienópolis.
Um buraco, que cresce a cada semana, engole, literalmente, o entulho que serve como sinalização improvisada por moradores, na ausência de cones ou qualquer outro indicador do perigo iminente ocasionado pela cratera no meio do asfalto, que obriga motoristas desavisados a desviarem bruscamente.
Sinalização pode prejudicar polícia
O comandante da Polícia Militar em Bauru, coronel Nelson Garcia, garante: a polícia conhece as áreas de patrulhamento como a palma da mão. Contudo, novos integrantes, caso não disponham do GPS e dependam exclusivamente das placas indicativas, podem ter problemas.
A questão é o ponto cego, ou situações conflitantes. A cada ingresso de um novo policial na corporação, o treinamento tem de ser repetido. “Os policiais conhecem a área de trabalho”, assegura. “Alguém muito novo (na corporação) pode ter algum tipo de dificuldade”, admite Garcia.
Porém, pondera Garcia, a desorientação ocorre mesmo entre a população “a paisana”. “As placas indicativas, mesmo não relacionadas diretamente à orientação de trânsito, influenciam também (no tráfego)”, aponta o policial militar. “Um motorista que procura, eventualmente, um determinado local, vai andar mais devagar e desviar a atenção da direção”, ilustra.
Mas não é apenas na busca por hospitais ou no trabalho policial que a falha na sinalização pode eventualmente causar prejuízos. No caso de quem lida diariamente com os endereços, a procura por alguma localidade pode se tornar tarefa árdua.
É o caso de Antônio João Honorato. Funcionário dos Correios há mais de trinta anos em Bauru, ele conta que até hoje tem dores de cabeça quando não encontra placas indicativas ou informativas com nomenclaturas de ruas. “Trabalhei de carteiro e hoje sou motorista. Na verdade sou ‘carteirista’”, descontrai. “Estou nos Correios desde 1978 e ainda encontro dificuldades em ruas sem placas”, reclama.
Mas não é preciso ir longe, no caso de Honorato, para observar falhas no quesito sinalização. Na rua onde o carteiro mora, na Vila Pacífico, uma placa de proibido estacionar é camuflada por árvores. Além da sinalização escondida, a proibição ocorre em quadra sem a pintura amarela no meio-fio.
Profissionais que também dependem muito do senso de localização para realizarem o trabalho com rapidez, os taxistas também reclamam bastante.
“Temos semáforos onde não precisa e falta onde são essenciais. Na Ezequiel Ramos com a Virgílio Malta, por exemplo, o sinaleiro prejudicou. Diariamente o cruzamento é fechado pela fila provocada”, contesta Astor Villani, chofer há mais de quarenta anos.
O colega José Limeira Garcia, que trabalha na cidade há mais de trinta anos, usa do bom humor: “sugerimos à Emdurb que colocasse o ponto para ônibus intermunicipais em frente aqui ao ponto (na Rodrigues Alves, entre a Vila Cardia e o Higienópolis). Em resposta colocaram uma placa de ‘proibido buzinar’ na frente do cemitério, para os mortos não acordarem”, brinca.
Alheio à “polêmica da placa”, que é perfeitamente justificada pela ausência de área de luto na região, com um velório municipal instalado a poucos metros, ambos os motoristas chamam a atenção para a necessidade de semáforo no cruzamento da rua Antônio dos Reis com a Rodrigues Alves, palco de constantes acidentes e até de abaixo assinado do comércio local por medidas para equacionar o problema. A Emdurb confirma planos de implantar sinaleiro.
Trânsito local já comporta ‘CET’
A falta de um sentido único nas discussões sobre a sinalização na cidade têm ao menos um destino semelhante: a necessidade de planos mais aprofundados para organização do trânsito em Bauru, incluindo a sinalização.
Nesse ponto, tanto entre especialistas no setor, população e até mesmo representantes do Poder Público consideram que a cidade, em virtude de seu alto fluxo, já acomodaria um departamento ou até mesmo autarquia direcionada exclusivamente para a cuidar do trânsito, semelhante, respeitadas as devidas proporções, à paulistana Companhia de Engenharia de Tráfego (CET).
Entre as pessoas que ao menos semanalmente recebem reclamações de moradores sobre problemas no setor na cidade é o vereador Roque Ferreira (PT). O parlamentar é um dos que defendem a ideia.
Para ele, apesar da capacidade humana que a Emdurb tem, especificamente quanto à engenharia, o excesso de atribuições da empresa impediria um estudo mais aprofundado por parte das equipes. “Ela tem múltiplas funções. Não adianta apenas possuir o conhecimento”, observa o vereador. “Nossa sinalização é muito irregular”, lamenta.
Archimedes Azevedo Raia Júnior é engenheiro de trânsito e também acredita num foco específico sobre o setor. Apesar de não apontar necessariamente para a hipotética criação de uma companhia de estudos e projetos de trânsito na cidade, ele considera que múltiplas funções não combinam com o trânsito.
“A Emdurb, no começo, tratava de transportes exclusivamente. Com o tempo começou também a cuidar da coleta de lixo e cemitérios”, recorda.
O próprio presidente da empresa municipal, Nico Mondelli Júnior, sinaliza favoravelmente à hipótese.
Contudo, ressalva ele, não necessariamente à criação de uma outra empresa, mas sim a subdivisão oficial dentro da própria autarquia já existente. “Chegamos a estudar isso. No entanto, empresas criadas após 1993 teriam maior dificuldade de contratações junto á prefeitura”, comenta.
O diretor da Emdurb refere-se a processos mais simplificados se realizados na atual empresa. Em caso de uma nova companhia, obras e dispositivos necessitariam de maior burocracia e custo para serem colocados em prática.
Daí, acredita Mondelli, o ideal seria unir o “útil ao agradável”, emplacando a proposta dentro da própria empresa, que em seus primórdios, nos anos 1970, cuidava apenas do Terminal Rodoviário, recebendo múltiplas atribuições ao longo das décadas.
Padronização
Se por um lado os motoristas reclamam de sinalização falha quanto à disciplina de trânsito e falta de continuidade nas tarjetas indicativas, a Empresa Municipal de Desenvolvimento Urbano e Rural de Bauru (Emdurb), responsável, ao lado da Secretaria Municipal de Planejamento (Seplan) por projetos de placas indicativas, garante ter planos de expandir a sinalização.
Porém, ressalva Aníbal Ramalho, gerente de planejamento e operações viárias da empresa, a implantação de um novo programa de placas indicativas dependeria de chancela do Departamento Nacional de Trânsito (Denatran). O órgão federal ainda não baixou cartilha específica e, segundo ele, sem a normativa em mãos não seria permitido ao município intervir de forma maior nesse tipo de sinalização, que, acentua, precisa receber o padrão federal.
Outra forma de placas indicativas, entretanto, pode em breve ganhar mais corpo na cidade. São as indicações de referências turísticas, culturais e esportivas empreendidas em parceria com a Seplan. Outro entrave, admite, é o alto custo da sinalização,
As tarjetas, explica Rodrigo Riad Said, chefe da pasta, são custeadas por empresas, uma contrapartida para a exploração publicitária nos chamados conjuntos patonímicos, postes com placas de nomes de ruas ou praças com propaganda anexada.
“Existe o plano de aumentarmos a quantidade de placas e trabalhamos junto com a Emdurb”, frisa Rodrigo, estimando que o edital para abertura de processo licitatório ocorrerá no prazo estimado de 15 dias.
Said admite que algumas placas indicativas da cidade atualmente estão defasadas. “A ideia é termos placas novas quanto à sinalização turística e ao mesmo tempo que garantam a harmonia evitando poluição visual”, detalha.
Incompleta ou incompreendida?
Para motoristas e até estudiosos na área, a sinalização em Bauru é incompleta. Para a Emdurb, apesar de admitir a necessidade de algumas correções e ampliações, entretanto, em alguns pontos falta compreensão.
Ilton Sant’Anna, psicólogo e formador de instrutores de trânsito, considera o sistema falho. Para ele, principalmente nas interseções em rótulo, falta sinalização de solo e avisos adequados aos motoristas. “Não se faz rotatória como deve ser”, contesta o especialista, autor do livro “Cartilha Brasileira de Trânsito” (Editora Canal 161 páginas). Ele defende ainda implantação de bloqueios físicos entre as faixas de manobra.
Recentemente, a avenida Getúlio Vargas ganhou nova sinalização de pare nas interseções do gênero. Agora, de acordo com a Emdurb, a preferência é garantida a quem faz a manobra. Outro ponto com dupla parada obrigatória é a rotatória entre a avenida Antenor de Almeida e a rua Antônio Francisco Lisboa, nas adjacências do Jardim Contorno.
Durante visita ao local, nesta semana, a equipe do JC por pouco não flagrou um acidente entre dois automóveis, cujos motoristas se confundiram, justamente, sobre de quem era a vez de parar ou seguir caminho.
Para o gerente de e operações viárias da Emdurb, entretanto, muitos dos acidentes (ou quase) acontecem por falhas humanas. “As placas são para todos pararem, mas é parar mesmo. O problema é que confundem a placa que obriga a parada total com a simples redução de marcha”, aponta.

