Se o celular oferece inúmeras facilidades, mas precisa ser usado com parcimônia para não escravizar os usuários, Bauru pode estar caminhando rumo a uma condição de equilíbrio sobre o assunto. Embora o número de terminais não pare de crescer na zona de código 14, a região figura como a penúltima em todo o Estado na chamada teledensidade.
Em maio, este índice - que refere-se à quantidade de telefones ativos em cada grupo de 100 moradores - era de 127,81 na área 14, segundo dados divulgados pela Agência Nacional das Telecomunicações (Anatel). No ranking, o código 14 - que abrange as regiões de Avaré, Bauru, Botucatu, Jaú, Lins e Marília - era o penúltimo entre nove divisões paulistas, ficando à frente apenas de Presidente Prudente. Em âmbito nacional, a área fica na 32ª posição, entre 67 zonas.
Ao todo, a região de Bauru soma, atualmente, mais de 3,015 milhões de acessos de telefonia móvel, distribuídos entre mais de 2,359 milhões de habitantes. O número é 18% maior do que o registrado no ano passado, quando foram contabilizados 2,557 milhões de terminais.
Para o economista Mauro Gallo, um dos motivos que pode explicar a tímida colocação de Bauru no ranking estadual é o elevado número de estudantes em cidades como Bauru, Botucatu e Marília, em comparação ao de executivos, por exemplo. “Devido à exigência profissional, este segundo grupo tem muito mais necessidade de utilizar duas ou mais linhas de celulares do que o primeiro. Por mais que Bauru venha atraindo investimentos, os grandes negócios ainda estão na Capital”, acrescenta.
Gallo salienta que o volume de acessos também está atrelado ao perfil econômico de cada região, que podem demandar menos ou mais uso de celular no trabalho. Há ainda fatores subjetivos, como o nível de competitividade entre os indivíduos, que precisam exibir, por meio de bens materiais, sua supremacia econômica e social. E esta pressão seria mais acirrada nos grandes centros urbanos.
De fato, a região metropolitana apresenta uma teledensidade de 156,88 aparelhos para cada 100 habitantes. Mas o economista salienta que a concentração de empregos de alta renda não é o único aspecto que deve ser considerado para explicar o fenômeno.
Renda x aparelhos
Isso porque, conforme ele lembra, nem sempre a renda per capita está associada à quantidade de celulares dos indivíduos. “Muitas pessoas nem tão bem remuneradas possuem dois ou três números para aproveitar os planos e bônus oferecidos pelas diversas operadoras. Então, seria irreal associar a quantidade de celulares com a renda ou o potencial de consumo”, frisa.
Um exemplo de quem combina várias contas para gastar menos é o taxista Antônio do Carmo, 70 anos. Com 20 anos de profissão, nos últimos cinco ele passou a usar dois celulares, sendo um deles com dois chips.
“Os três são pré-pagos. Hoje, gasto R$ 75,00 para recarregar os três todo mês e ganho bônus de R$ R$ 450,00 em um, R$ 100,00 em outro e R$ 4 mil no terceiro. Falo com a família, com os clientes e dificilmente eu uso tudo. É uma grande vantagem”, comemora.
Mas, se tem gente que consegue economizar ostentando vários aparelhos, há quem prefira não ter nenhum, mesmo com condições de compra. É o caso da funcionária pública e estudante universitária Gisele Costa, 26 anos. Desde que seu aparelho quebrou, há cerca de dois meses, ela decidiu não mandá-lo para o conserto e diz não ter se arrependido.
“Nunca fui muito fã de celular. Sempre tive certa resistência porque acho que é o maior símbolo do consumismo. E é algo supérfluo, mesmo”, analisa.
Para se comunicar com os amigos e familiares, ela diz apelar para outros recursos. “Dou um jeito. Ou procuro pessoalmente, ou escrevo e-mail ou ligo do fixo”, diz ela, que acredita que o equipamento é usado atualmente mais como objeto de status do que por sua funcionalidade.
“Criou-se uma fissura coletiva por ter o celular mais moderno. Trata-se de uma tecnologia que visa outros recursos e o menos importante é falar. E acho que estes outros recursos são desnecessários”, completa.
Em um ano, 457 mil celulares a mais
Em um ano, a área de código 14 ganhou 457 mil acessos de telefonia móvel. O número, registrado em maio deste ano, é 18% maior do que o do mesmo mês do ano passado.
Embora o crescimento seja representativo - como era de se esperar para uma região dentro do território paulista, estado que concentra, sozinho, quase 24% do total de linhas disponíveis no país - o economista Mauro Gallo acredita que esta curva ascendente, em algum momento, terá seu fim. “E, pensando neste esgotamento, as empresas de telefonia já começaram a baixar as tarifas dos serviços de telefonia fixa. Pode ser que as pessoas que abandonaram o telefone fixo voltem a usar, mas dificilmente deixarão de ter o celular”, comenta.
Isso porque, mais do que conectar duas pessoas em pontos distintos, os telefones móveis se transformaram em verdadeiras estações de comunicação, trabalho e entretenimento portátil, com câmara fotográfica, MP3 player, localização via satélite, rádio, jogos e Internet. Graças à convergência tecnológica que deu margem ao surgimento de uma nova geração de aparelhos, como os smartphones e, agora, também os tablets, é possível levar o trabalho para a praia, monitorar o namorado ou os filhos na escola, marcar uma reunião de negócios ou um encontro com os amigos mesmo estando no meio do trânsito.
“A convergência tecnológica traz infinitas possibilidades e de maneira muito acelerada. O fixo não faz concorrência para esta realidade. Mas, de qualquer maneira, o mercado de celulares, inevitavelmente, irá saturar. Só não sabemos ainda quando isso vai acontecer”, pondera.
