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Crack muda perfil do albergue

Dependência química transforma atuação dos albergues em ‘clínicas provisórias’

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Quioshi Goto
Convivência entre pessoas que vivem na rua e moradores das regiões onde há programas sociais nem sempre é tranquila

Casas de passagem ou centros de atendimento social que funcionam durante o dia têm um novo contingente de usuários e, consequentemente, de atendimento. A epidemia do crack altera o perfil dos moradores de rua e também das instituições que, obrigadas a trabalhar como “clínicas provisórias”, não são mais simples porto seguro para banho, alimentação e eventual pernoite de migrantes. Em Bauru a realidade não é diferente do vivenciado diuturnamente nas maiores ou médias cidades brasileiras. Moradores de rua, em maioria, não buscam apenas alimentação.

Sustentar o vício é o maior dos leões diários. “Arrumo dinheiro porque meu marido passa o rodo no semáforo”, conta uma jovem de 24 anos, que, semana passada, aguardava habitual atendimento em frente ao Centro de Referência Especializado para Pessoas em Situação de Rua, o Centro Pop.

Dependente de crack há seis anos, a jovem, cuja identidade será preservada, conta que saiu de casa por causa do vício. Apesar de já ter passado por internação, ela admite ter fugido do tratamento após quatro dias. “Não aguentei, vazei de lá.”

Consumindo entre oito ou nove pedras por dia, conta ela, o único refúgio é a marquise onde dorme (na rua Joaquim da Silva Martha, na área central) ou os programas sociais, onde recebe alimentação. “Nunca precisei vender o corpo, graças a Deus”, admitindo, porém, já ter se envolvido com o tráfico para manter o vício. “Até consigo ficar três dias sem fumar pedra. Mais do que isso é muito difícil”, narra.

A “fissura”, confessa, a faz ficar inquieta e até agressiva (recentemente envolveu-se em briga dentro do Centro Pop). “Mas com um trago já dá para ‘acalmar o coração’”, afirma a dependente, dizendo gastar (e obter) cerca de R$ 40, por dia, paras garantir a “fumaça da tranquilidade”. Mãe de três filhos, ela diz ter família em Bauru. Contudo, o crack fala mais alto do que a vontade de sair das ruas.

Esse é o perfil de boa parte dos sem-teto acolhidos seja pelos programas sociais que prestam acompanhamento durante o dia quanto nas casas de passagem noturnas. Atualmente, três instituições contam com parceria da Secretaria Municipal do Bem Estar Social (Sebes) para abrigar dependentes químicos.

 

Albergue ‘clínica’

Entre estas instituições, a casa de passagem mantida pelo Centro Espírita Amor e Caridade (Ceac), o Albergue Noturno, é um dos exemplos em que funcionários e voluntários precisam se adaptar ao novo perfil e dramático de sem-teto.

Diferentemente de outros tempos, quando as pessoas albergadas geralmente eram desempregados de outras cidades em busca de oportunidade em Bauru, agora o foco é outro.

Não que ainda não haja sem-teto desvinculado a algum tipo de dependência. Contudo, a maioria é acometida por algum tipo de vício e o crack está presente na maioria dos casos. Dos 70 leitos disponíveis no albergue do Ceac, 20 são destinados exclusivamente a pessoas com algum tipo de dependência química. Quase todos, atualmente, são viciados em crack.

Ano passado, em reportagem especificamente sobre migrantes, quase todos os personagens ouvidos pelo Jornal da Cidade já estavam nestas condições: vindo de outro lugar em busca de tratamento ou simplesmente continuar no vício longe da família. Entre os assistidos que ocupam os leitos destinados a usuários, o acompanhamento é 24 horas, diferencia a assistente social da entidade, Francine Tamos.

Esse perfil de assistidos pela instituição, admite ela, provocou mudanças no modo de trabalhar de todos os funcionários do centro de apoio, com mais de seis décadas de atuação. “É diferente, até mesmo ameaçador”, constata. “Mais do que tudo é um paciente da área de saúde e necessita de apoio”, enfatiza a assistente social.

Apesar de todo o trabalho, reitera, em parceria com a Sebes, visando a reinserção social, mediante participação de assistentes sociais, equipe de monitores para capacitação e psicólogos, a encarregada de serviço social considera incógnito o futuro destes dependentes. “De forma geral, vejo as políticas públicas agirem de forma isolada. O problema do crack afeta a todos”, atenta.

Segundo ela, usuários da droga, num período comparado de dois anos, hoje se apresentam muito mais debilitados, inclusive no estado de confusão mental. “Como será daqui para frente, não dá para saber”, lança. 

 

Prefeito cogita política a migrantes  
 
A prefeitura e os responsáveis pelos albergues querem colocar na mesa o problema do contínuo crescimento da população sem-teto em Bauru.  A migração constante - protagonizada seja por pessoas em busca de trabalho, andarilhos que perambulam entre um município e outro, mas estacionam em Bauru, e dependentes químicos - é o tema central encabeçado pela prefeitura.

A iniciativa, ainda com data a ser definida, deverá ter a coordenação da Secretaria Municipal do Bem-Estar Social (Sebes) e reunirá entidades sociais, representantes de forças de segurança e sociedade civil, antecipa a titular da pasta, Darlene Tendolo.

Para o prefeito Rodrigo Agostinho, que convocou a discussão, é chegada a hora da cidade, numa ação conjunta entre poder público, instituições e sociedade, encontrar uma solução para o problema social que aflige a toda população, direta ou indiretamente.

Dependentes químicos em busca de tratamento em Bauru, desempregados sem oportunidades nas regiões de origem, desabrigados por questões familiares.

O que não falta é motivo para o aumento da população de rua que busca auxílio nos programas públicos de assistência, como a casa de passagem, mas que também se aglomera nas calçadas, marquises, viadutos e construções abandonadas em diversos pontos da cidade.

Entre as novas estratégias, Agostinho cita o que já é realidade e é bancado, em grande parte, pela prefeitura.

As novas instalações, seja de albergue e plantão noturno, para acolhimento e alimentação, estão entre as ações.

Contudo, enfatiza o prefeito, é preciso ainda mais. “Temos dado atenção especial ao tema. Nossa cidade recebe muitos migrantes e boa parte permanece por aqui”, observa. “Queremos aprofundar o tema, estabelecer um plano de ação”, acentua.

A evidência do problema na cidade, salienta Agostinho, deixou Bauru entre as áreas prioritárias para implantação de programas estaduais de auxílio social, como o Cartão Recomeço, destinado para o tratamento de dependentes químicos, e o Bom Prato.

Apesar do “novo perfil” de migrantes, principalmente entre os acolhidos em albergue, o prefeito recomenda cautela, principalmente, sobre rótulos a quem chega à cidade em busca de um recomeço.

“Bauru foi construída por migrantes que vieram pela estrada de ferro. No entanto, hoje, pagamos a conta de problemas sociais de outros municípios”, pondera.

 

Esperança em programas sociais

Os programas sociais empreendidos em Bauru, direta ou indiretamente voltados ao atendimento de dependentes químicos, têm vínculo com a Sebes e, consequentemente, são mantidos com auxílio de repasses municipais.

Os projetos são interligados com encaminhamento profissional, psicológico e social através do Centro Pop, tratamento em centros de reabilitação, além de alimentação, banho entre outros cuidados no albergue. “O objetivo, mais do que tudo, é a reinserção social. O trabalho também consiste em mostrar algo inovador também para o assistido, apontar um caminho e que há esperança”, incentiva a secretária.

 

‘Nova ordem’ das ruas
 
A titular da Secretaria Municipal do Bem Estar Social (Sebes), Darlene Tendolo, confirma a mudança no perfil da maioria dos moradores de rua atendidos pelos programas sociais.

“A própria sociedade mudou completamente. Nas ruas, não vemos mais o pedinte que era visto anos atrás”, compara. “Essa nova característica também é fruto da perda de valores, as famílias não ‘desistiam’ dos problemas”, diferencia.

Ela cita dificuldades em alguns casos. Certos indivíduos, como a jovem abordada no início da reportagem, mostram-se relutantes em tentativas de tratamento. “Tem gente que não aceita, vai embora mesmo”, lamenta. A secretária também observa mudanças até mesmo em questões relacionadas à saúde mental dos dependentes no decorrer dos anos.

No albergue noturno, os leitos destinados exclusivamente a dependentes químicos são reservados a abrigados oriundos do próprio município. As demais dependências recebem os migrantes cujo quadro de vício, especialmente em crack, não é diferente. Todas as noites, quase todas as vagas do centro de acolhimento são preenchidas. Cerca de 70% estão envolvidos com substância entorpecente. 

 

Convivência conturbada com vizinhos
 
O albergue é vigiado durante 24h por guardas que pernoitam no centro de apoio. Dentro da instituição, até pelas regras instituídas, são raros os problemas de comportamento. Caso ocorram, os envolvidos, dependendo da gravidade, não retornam.

No entanto, fora dos limites, não há controle. Apesar da organização e limites respeitados dentro da instituição, moradores dos arredores reclamam do comportamento dos assistidos quando estão no lado de fora. “É a coisa mais horrível do mundo. Depois das 6 da tarde, não atendo mais o portão”, diz a aposentada Célia Maria Prieto Fabri, de 62 anos, moradora da Vila Antárctica.

Segundo ela, é comum observar, em frente à casa onde mora, consumo excessivo de bebida alcóolica, drogas ilícitas e, consequentemente, discussões e brigas entre os sem-teto. “Já liguei para a polícia muitas vezes. Minha família está aqui desde 1970. Está um caos nos últimos anos. Não deixo minha neta sair na frente de casa. A calçada, muitas vezes, é feita de banheiro”, reclama.

Quem também afirma ter problemas com assistidos por entidade social, do lado de fora das instituições, é a também aposentada Ivani Aparecida Jacó Prado, de 73 anos. Além do portão gradeado, ela também é protegida pelo boxer Luqui, cujo latido e tamanho não são “convidativos” à presença de estranhos em frente à residência, na região central.

Moradora há 33 anos das proximidades do palácio das Cerejeiras, ela testemunha alguns transtornos causados pela população de rua que perambula pelo centro da cidade, especialmente nas proximidades de programas sociais mantidos pelo município localizados na região. “Acontece muita briga entre eles, xingamentos durante a noite. Muitas vezes acordo assustada”, reclama.

Além disso, acentua, diariamente é abordada por pedintes. “Eles pedem de tudo, de comida a sabão”, relata.

Moradores da área também reclamam da ocupação irregular de imóveis. Entre eles, uma casa abandonada na rua Agenor Meira. Ao lado da janela repleta de vidros quebrados, vestígios da presença de pessoas em situação de rua e abandono são observados em toda a fachada do imóvel, coberto de sujeira e pichação. 

 





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