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Bauru e grande região - Domingo, 29 de maio de 2016
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Regional

Cerveja artesanal de hobby a investimento

O Brasil ocupa a 25ª colocação no ranking mundial de consumo de cerveja, especialmente as pilsens, produzidas em alta escala pelas grandes empresas do setor. É o terceiro produtor do mundo. As cervejas especiais respondem por 5% das vendas totais da bebida no País. Recentemente, as cervejas artesanais ganharam espaço no mercado consumidor e ‘pipocam’ em todo o País os cursos para iniciantes. Na região de Bauru vários ‘apaixonados’ pela ‘loira’ se aventuram a produzir cervejas caseiras de olho em um mercado crescente. 
 
Éder Azevedo
Murilo Martins Tangerino trabalha concentrado na produção de cervejas artesanais em seu sítio
 
Em Lençóis Paulista, dois produtores se preparam para sair do quintal e ganhar as prateleiras de casas especializadas em cervejas. A cidade que já foi conhecida pela cachaça, na década de 50, pretende incentivar a produção e se firmar como produtora de cachaça, vinho e cerveja artesanal. 
 
Focado na produção artesanal em baixa escala com sabores diferenciados e nos encontros com os amigos, o promotor de vendas de Tupã Juliano Marcelo de Oliveira está promovendo cursos para iniciantes. Ele quer difundir a ideia de produzir cervejas com personalidade. 
 
O secretário do Planejamento de Lençóis Paulista, Altair Aparecido Toniolo, explica que é política local incentivar e apoiar as micros e pequenas empresas. “Temos um trabalho muito forte nesse setor. É uma característica da economia local, 95% de nossas empresas começam pequena, com no máximo 10 funcionários. Oferecemos aulas de empreendedorismo para que a pessoa aprenda a não só fazer por hobby, mas para geração de renda. Temos condições de ceder espaço para eles.”
 
Toniolo lembra que a pinga de Lençóis ficou famosa na época em que tinham 50 engenhos no município. “Era década de 50 e muitas pessoas tinham um engenho no fundo do quintal. O extinto Instituto do Açúcar e Álcool (IAA) construiu aqui uma destilaria, que transformava a cachaça em álcool combustível, para atender a demanda da crise de combustível na época. Esse prédio existe. Foi tombado pelo patrimônio histórico agora existe um projeto em recuperação.” 
 
A bebida se tornou conhecida pelo Brasil, porque os políticos da época não deixavam de levar na mala uma cachaça para dar de presente aos demais políticos.
 
Ele considera que a produção de vinho e cerveja ainda são pequenas se comparadas a grandes empresas. “Eles estão começando. Queremos que eles saiam da casa e partam para a produção mais industrializada para então comercializar. Temos um circuito turístico e vamos incentivar as visitas aos engenhos, a produção de vinho e cerveja,” declara o secretário de Planejamento deLençóis Paulista. 
 
Grupo faz encontro de degustação
 
O sítio Conquista, área rural de Lençóis Paulista, passou a ser um local de encontro de amigos “apaixonados” por cervejas artesanais. É ali que Murilo Martins Tangerino, 34 anos, reúne a família e os amigos para mostrar e degustar a cerveja que está fabricando em baixa escala. Ele caminha para a legalização da pequena cervejaria para poder comercializar o produto. 
 
“Eu sempre gostei de cervejas diferentes, dessas não convencionais. Eu e meu pai sempre tivemos curiosidade em conhecer o assunto. Fizemos um curso em Campinas e me aprofundei buscando informações na Internet, na conversa com outros produtores caseiros. O mercado começou a abrir e com o incentivo dos amigos estou tentando legalizar a situação para poder vender. Criei um nome e já tenho até o rótulo do produto.” 
 
Tangerino confessa que, aprendeu dentre inúmeras coisa, a diferenciar uma cerveja da outra. “São diversos estilos.  São mais de 200 existentes no mundo. Existe um manual de estilos. Escolhi quatro  que eu mais gostava e comecei a produzir.” 
 
A base do conhecimento em produção de cerveja artesanal foi adquirida em Campinas, conta o cervejeiro amador.  “Campinas é como a capital estadual da cerveja para quem quer iniciar no ramo. Eles indicam os fornecedores e dão um apoio para que a gente comece a produzir. No curso tinham uns 40 participantes, pessoas jovens que se interessaram pelo assunto.” 
 
Na região, segundo Tangerino, tem bastante gente fabricando cerveja no fundo do quintal. “Tem gente produzindo em Bauru, Lençóis, Avaré, Marília, Tupã dentre outras. O artesanal está chamando atenção, porque o pessoal está com o paladar mais apurado. O gosto pela cerveja está ficando mais aprimorado. O brasileiro está começando a conhecer mais cervejas, o mercado está oferecendo mais sabores do que antigamente.” 
 
No caso dele, a opção foi comprar um equipamento para a produção. “É possível fazer em panelas normais com  algumas modificações. Nós escolhemos o equipamento específico e começamos a produzir.” 
 
Para ele, o diferencial da cerveja Eroberung é a qualidade. “Batizei com esse nome em alemão, porque significa conquista, o nome do sítio. A água que usamos não tem cloro. Não misturo adjuntos. É puro malte, sigo a lei de pureza alemã. Adjuntos na cerveja industrial são milho e arroz usados para tornar o produto mais barato. Só que a bebida não fica tão saborosa. Eu produzo cerveja com água, malte, lúpulo e levedura.” 
 
Para chegar ao mercado
 
Para que a cerveja produzida em Lençóis chegue ao mercado e as pessoas possam experimentá-la é preciso legalizar a empresa. “Estamos em processo de abrir empresa. Quero fazer uma cervejaria artesanal. Pretendo registrar a receita. Requer um certo investimento. Com o meu equipamento consigo produzir 50 litros por dia.
 
O problema não é só a produção, o gargalo seriam os fermentadores  da produção. Onde vou colocar a cerveja para fermentar? Tem que colocar no fermentador, com temperatura controlada para cervejas de alta fermentação e baixa fermentação,” diz Murilo Tangerino.
 
Amigos se unem para fazer uma cerveja com sabor diferente
 
Os amigos de trabalho Érico Hipólito, 36 anos, e Aloísio Paccola, 45 anos, se uniram para conquistar um sabor diferente de cerveja. Eles estão produzindo a bebida em Lençóis Paulista, desde maio de 2014. Os dois já pensam em legalizar a situação para poder comercializar o produto. Eles partiram para a empreitada com um investimento inicial de pouco mais de R$ 1 mil. “O investimento inicial, para produzir 20 litros por batelada, gasta-se em torno de R$ 1.500. Os equipamentos são caseiros, balde de plástico, panela de alumínio.” 
 
O investimento pode aumentar muito, se a ideia for produzir 300 litros por batelada. “É alto quando quero produzir 300 litros. O investimento vai para 300 mil. Esse degrau de quem produz 20, 100 para quem produz 300 a 500 é grande. Uma cervejaria artesanal legalizada custa em torno de R$ 300 mil.”
 
Os amigos confessam que começaram a produzir sem a intenção de tornar a fabricação num negócio. “Começamos a fazer para nós. Distribuímos para os amigos. Eles gostaram. Isso nos incentivou. Todo o material usado na fabricação é importado. O malte vem da Alemanha, Bélgica, Estados Unidos. O que nós usamos é alemão. Tem uma empresa brasileira que importa e revende para nós.”
 
O mercado de cerveja artesanal deve crescer 20% ao ano, segundo Paccola. “Cada vez mais apreciadores querem provar algo diferente”.

Passo a passo

O primeiro passo para fabricar uma cerveja artesanal é moer o malte, preparar a água e colocar na panela. “Na sequência faço o processo todo de rampas e temperaturas. Depois faço a fervura e adiciono o lúpulo. Deixo fermentando por umas 8 horas. Para fermentar mais vai uns 10 dias e para maturar, mais uns 15 dias. Tem o processo de refermentação na garrafa. A cerveja para ficar boa para tomar demora de um a um mês e meio”, explica Murilo Tangerino 

Ele confessa que apanhou um pouco até acertar o ponto. “Cerveja também tem ponto. Ela é classificada em rampas e temperaturas para extrair diversas propriedades do malte. Após a colocação dele é preciso buscar o açúcar específico para a levedura consumir aquele açúcar e produzir os estéreis e os sabores que eu quero na cerveja.”

Curso ensina técnica de como fazer cerveja

O mercado de cervejas artesanais está aquecido. Recentemente, a Ambev comprou uma microcervejaria mineira Wäls de Belo Horizonte de olho nesse mercado. A empresa mineira ganhou prêmio de melhor cerveja do mundo. As informações são do supervisor de vendas Juliano Marcelo de Oliveira, 34 anos, morador de Tupã. Ele promove cursos de cerveja artesanal na região. “O prêmio conquistado pela microcervejaria mineira é como um Oscar para o setor.” 

Outro sinal de que o mercado de cervejas artesanais vive um boom é que as grandes marcas estão lançando propagandas que satirizam os cervejeiros artesanais. “Eles já perceberam que o brasileiro quer experimentar novos sabores da mesma bebida. As artesanais, até aquelas com produção industrial de pequena escala, detêm uma fatia do mercado.” 
 
Oliveira ressalta que nos Estados Unidos o mercado das artesanais é amplamente conceituado. “No Brasil é recente. Começou na década de 80 de maneira bem artesanal. De 5 anos para cá cresceu demais, de 2 anos
para cá houve um boom. É uma cervejaria atrás da outra abrindo e legalizando para poder vender. Eu sou cervejeiro caseiro. Faço só para consumo próprio e para os amigos, não tenho intenção de abrir uma cervejaria.” 
 
Apaixonado pela bebida preferida dos brasileiros, Oliveira tenta propagar a cultura de que é melhor beber menos, mas com qualidade. “Fazer a bebida em casa. Consuma coisa boa. É um mercado que tende a crescer cada vez mais. As artesanais são produzidas em menor escala e por conta disso acabam tendo um custo maior do que as tradicionais pilsens. A produção restrita leva a produtos com resultados muito interessantes e diversificados, com aromas e gostos diferentes.” 
 
Para o promotor de vendas, produzir cerveja artesanal é um hobby. “Eu quero difundir a arte milenar de produzir cervejas especiais, diferenciadas e com personalidade. É possível produzir cerveja em qualquer cozinha residencial ou até mesmo no quintal de casa. Estamos promovendo encontros de cervejeiros artesanais. No começo de março fizemos um.” 
 
Nesses encontros cada um leva sua cerveja, a fabricada por ele mesmo. É proibido a entrada de cervejas comerciais. “Nós nos encontramos para trocar ideias, experiências e degustar o produto que está sendo feito na região. Um questiona o outro sobre como chegou naquele aroma e sabor. Qual a técnica usada. Com isso vamos aprendendo um com o outro.” 
 
Ele frisa que as cervejas artesanais são produzidas basicamente com malte, água, lúpulos e fermentos. “Mas na criação podem ser utilizados especiarias como coentro, castanhas, gengibre, nozes, passas, cascas de laranja, chocolate, banana, trigo etc. As artesanais não levam componente químico como conservantes e aditivos.”  O próximo curso é no dia 21 de março.  Informações (14) 99825-3477. 

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