Jornal da Cidade de Bauru
Bauru e grande região - Sexta-Feira, 03 de Setembro de 2010  
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01/04/2004 - Cartas
História mal contada
Na edição do último domingo (28/03) desse democrático espaço de expressão bauruense, deparei-me com o texto do senhor Dorival Curi, assim iniciado: “31 de março de 1964. Há 40 anos eclodia no Brasil...” – seguirei, assim, sua deixa: (...) eclodia no Brasil um golpe militar, dando início aos anos mais nublados da história recente de nossa Pátria. Um golpe que bem poderia ter acontecido no dia seguinte, 1º de abril (popular “dia da mentira”), já que os oficiais que o aplicaram tentaram batizá-lo de “movimento revolucionário”.

Como poderia haver uma “revolução” se o que, de fato, desejavam era impedir qualquer mudança? Se o medo que os impulsionou a tal golpe veio do seio da burguesia latifundiária que temia a reforma agrária? Como pode haver “revolução” se este golpe teve apoio do Departamento de Estado dos EUA, que desejava assegurar a exploração do mercado brasileiro com suas multinacionais, boicotando as reformas propostas por Goulart, como a nacionalização de todo o refinamento de petróleo e o controle de remessa de lucros das multinacionais? E, enfim, como pode haver “revolução” sem participação do povo, ou melhor, calando o povo, sufocando sua cultura e as artes e usurpando a Liberdade? É um disparate!

Isso mesmo, o Brasil foi usurpado! E o roubo aconteceu “à mão armada”.

O Sr. Curi faz, ainda, a seguinte citação: “A Revolução de 64, para os que viveram aqueles tempos, tinha grandes e nobres objetivos: derrubar o presidente da República, exterminar o comunismo e democratizar nosso país.” (Veja 19/11/2003 – p. 26) – Como pode ser nobre o objetivo de derrubar uma autoridade constituída democraticamente? Bem diferente, expliquemos, do povo manifestar-se exigindo atitudes legais contra um presidente corrupto, o que aconteceu em 64 foi um golpe... golpe baixo e violento!

“O primeiro objetivo foi cumprido sem que um único tiro fosse disparado” – segue o senhor Curi. – Esse trecho transmite um ar pacífico, tranqüilo... MENTIRA! Houve opressão e abuso de força: quantos estudantes, quem sequer eram tão vermelhos quanto pintaram, apenas sonhadores, foram assassinados? Perguntemos aos exilados, brasileiros com seus direitos de cidadãos cassados, que violência é parar em uma terra estranha... Perguntemos aos que sobreviveram à tortura, com rins debilitados por pancadas, testículos danificados pelos choques, dentes rachados, quantas vezes eles pensaram em morrer? Quantas vezes eles preferiram ter levado um tiro logo e a passarem por isto... E o que aconteceu com o Senhor Gregório Bezerra, pernambucano, líder camponês, ex-deputado federal, inimigo do latifúndio, preso antes mesmo de ser dado o golpe?

E o medo do comunismo? – é óbvio que o sr Dorival Curi ainda sofre da paranóia da guerra fria, trazida para o Brasil pelos próprio militares, ainda na década de 50, com a implantação da ESG (Escola Superior da Guerra), onde desenvolveu-se a DSN (Doutrina de Segurança Nacional)... militares brasileiros treinados pelo Exército “Estado Unidense”, aprenderam que “o que é bom para os EUA é bom para o Brasil” ... tudo era suspeito: um grêmio estudantil era “coisa de comunista”, uma greve por melhores condições, era “coisa de comunista”, alguém que pensasse, era comunista... Esse espaço aberto à opinião pública, com certeza seria “coisa de comunista”. E, principalmente, qualquer mudança estrutural na sociedade, que visasse o bem do povo, do trabalhador, do sem-terra, era “coisa de comunista”. É um disparate! E criando esta mentalidade, o golpe militar teve apoio da classe média.

Encerrando, o sr. Curi fala “de fatos da história que não foram amplamente revelados”, pois bem, eis alguns: Você sabia que centenas de candidatos da UDN (extrema direita, anti-João Goulart) tiveram a campanha financiada pelo IBAD (Instituto Brasileiro de Ação Democrática) que por sua vez recebeu dinheiro dos EUA , através da CIA? Você sabia que o embaixador “estado-unidense” Lincoln Gordon tinha uma estranha liberdade de movimentos junto aos oficiais brasileiros e que o ano passado (2003) ele assumiu publicamente (até no Fantástico) que o “milagre econômico brasileiro” foi patrocinado pelos EUA, o que gerou uma imensa multiplicação na dívida brasileira? Você sabia que um dos estopins do golpe militar foi a desculpa da rebelião dos marinheiros, liderada pelo cabo Anselmo, que já confessou ser um agente plantado pela CIA? Você sabia que curiosamente no momento do golpe militar de 31 de março de 1964 havia uma força-tarefa da Marinha de Guerra “estadounidense” com porta-viões, fragatas com mísseis e fuzileiros vindo em direção à costa brasileira? (Seria a ajudar do brother SAM?)

Soberania nacional devendo favores aos EUA? - É um disparate! – Enquanto isso, os que acreditam na “Revolução de 64” dormirão com pesadelos vermelhos e neste momentos devem estar remoendo-se, já que o que muito temiam aconteceu: Bem ou mal, temos uma nação liderado por um operário.


Jorge Carlos Rodrigues de Freitas - RG 020398044-6 MEx. Estudante de Filosofia, atualmente morando em Brusque - leitor assíduo do JCnet
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