|
|
|
|
|
|
|
03/03/2010 |
| Dr. Automóvel: Lendas e papos de oficina |
|
| Consultoria: Marcos Serra Negra Camerini* |
Quem gosta de conversar com mecânicos e ouvir suas histórias pode aprender muito. Ou não... Depende do conhecimento do profissional. Alguns são bem treinados, com cursos no Senai e nas montadoras e por isso são reconhecidos profissionalmente. Outros não tiveram a mesma oportunidade e aprenderam na raça, desmontando e montando o carro dos outros. Só que para alguns, falta humildade e saem por aí dando conselhos como se fosse absoluta verdade.
Quem nunca ouviu isso: “Rodar com pouco combustível faz aspirar sujeira do tanque”?
Muitos não rodam com pouco combustível por medo de que a sujeira do fundo do tanque seja sugada pelo tubo de captação (“pescador”), vindo a entupir os filtros. Só que o pescador é e sempre foi instalado com a boca voltada para o fundo, de modo a sugar todo o combustível do tanque, portanto chuparia a eventual sujeira tanto com o tanque cheio ou vazio, não é?
Outra pérola: “Nunca freie na curva”. Isto já deu muito susto em quem acreditou e causou muito acidente que poderia ter sido evitado. Toda freada não deve travar as rodas e sempre ser aplicada com sensibilidade, mesmo em curvas. Acreditando na lenda, incautos causaram acidentes por não frear em situação de quase atropelamento em curvas e por tentarem desviar, quando poderiam apenas reduzir a marcha com um leve toque no pedal. Um desvio brusco em curva é mais prejudicial do que frear, pois pode levar a uma batida ou capotamento.
“Deve-se esperar a parada da ventoinha para desligar o motor.” Pura bobagem. Hoje em dia, as ligas usadas nos motores suportam altas temperaturas sem causar danos. A ventoinha serve para criar um fluxo de ar com o motor em funcionamento. Quando desligado, o motor não necessita de refrigeração. Em alguns carros a ventoinha se desliga quando se corta a ignição.
Mais bobagens: “Escapamento esportivo e sem catalisador faz ganhar potência”. O pessoal se baseia em fotos de revista e assume como um dado técnico! Claro que um motor de Fórmula 1 não tem silencioso nem catalisador, mas o motor foi projetado para isso e tem seu fluxo de gases assim como seu mapeamento de injeção dimensionados para esta finalidade, que é corrida. Um motor de rua precisa do escapamento como ele é original, seu ruído é limitado por lei específica e seu catalisador é fundamental para a redução de emissões de gases poluentes. Sua remoção é ilegal, irresponsável e inútil, pois nada acrescenta de potência a um motor de rua.
Um escapamento esportivo tem menor restrição pode, quando muito, diminuir a queda de potência quando se atinge o limite de giros do motor, permitindo “esticar” mais as marchas. Quem não usa o motor na rotação máxima terá apenas mais barulho, sem ganho de potência.
“Remover a válvula termostática evita superaquecimento do motor.” Quer dizer que os engenheiros das fábricas são imbecis e gastadores? Por que especificar uma peça calibrada e sensível se ela é desnecessária? Caramba, o motor é uma máquina que funciona em equilíbrio térmico constante para ter melhor rendimento e menor consumo. A função da válvula termostática é manter a temperatura do líquido de refrigeração constante dentro do motor, não importa se o ambiente lá fora esteja frio ou quente ou se o carro esteja andando ou parado. Tem gente que, quando a válvula apresenta defeito, opta por removê-la simplesmente, fazendo com que o motor receba água fria do radiador constantemente e trabalhe mais frio. Só que isso faz com que as partes metálicas não atinjam a dilatação de projeto (por trabalharem mais frias) e o motor passa a não ter o mesmo desempenho, a consumir e poluir mais.
Outra: “Trafegar com a tampa aberta no Fusca ou na Kombi melhora a refrigeração do motor a ar.” De novo, se a tampa não fosse necessária, o carro viria de fábrica sem ela! Como quem fala esta besteira deve ser formado em aerodinâmica, deveria saber que como a traseira é uma zona de baixa pressão, a temperatura pode até aumentar, pois não há circulação de ar.
E a última: “Em caso de neblina ou chuva forte, rode com o pisca - alerta ligado para ser visto.” Quem faz isto está dando vazão ao seu instinto assassino. A lei determina que o pisca – alerta só deve ser usado com o carro parado, para identificar que está imóvel e com problemas. Se for usado em movimento e em condições de baixa visibilidade, pode levar a outro motorista pensar que você está parado e a desviar bruscamente, podendo causar um acidente maior ainda. Em chuva ou neblina, use apenas os faróis baixos e se tiver os de neblina, nunca os faróis altos.
* Marcos Serra Negra Camerini é engenheiro mecânico formado pela Escola Politécnica da USP, pós-graduado em administração industrial e marketing e engenharia aeronáutica, com passagens como executivo na General Motors (GM) e Opel. Também é consultor de empresas e é diretor geral da Tryor Veículos Especiais Ltda.
Seu site é www.marcoscamerini.com.br. |
 |
|
|
|
|
|
|
|