Jornal da Cidade de Bauru
Bauru e grande região - Quinta-Feira, 09 de Setembro de 2010  
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28/02/2010
Concorrentes, permissionários vivem clima familiar
Disputas e gentilezas marcam convívio dos comerciantes da Ceagesp de Bauru, que apostam na política de boa vizinhança para se manterem atuantes
Wanessa Ferrari
Instalados em espaços próximos e disputando a clientela com outros 197 comerciantes, cada permissionário da unidade de Bauru da Companhia de Entrepostos e Armazéns Gerais de São Paulo (Ceagesp) vê o local como uma grande casa, e seus vizinhos de comércio, como familiares.

A consideração tem justificativa: cada permissionário fica, no mínimo, 40% do seu dia no local. A rotina, que começa por volta das 3h da madrugada, é marcada por atitudes que perpassam por gentilezas e mazelas da livre concorrência, típicas de uma grande família.

Marcos Silva, 46 anos, entende bem da rotina do local. Ele é permissionário da Ceagesp há 20 anos, e garante que ter jogo de cintura é fundamental para garantir a permanência no local. “Todos aqui vendemos praticamente as mesmas coisas e, como estamos no mesmo local, a disputa por clientes é inevitável. Tem comprador que pesquisa preço, e ninguém tem medo de fazer oferta melhor porque vai chatear o colega do lado. A concorrência é livre, um dia você ganha, no outro perde”, explica Silva.

Mas a chamada vizinhança de boa camaradagem também tem espaço no local, e costuma reinar entre os permissionários. O escambo de mercadorias é recurso frequente dos comerciantes para driblar a falta de mercadorias.

Hélio Lira, 63 anos, trabalha na Ceagesp desde a abertura do primeiro pavilhão. Ele é proprietário de um sítio de oito alqueires em Santelmo, distrito de Pederneiras, onde tem uma plantação de 8 mil pés de laranja.

Hélio vai à Ceagesp quatro vezes por semana para vender o produto, e sabe que pode contar com o apoio dos vizinhos de comércio para driblar eventuais problemas. “Às vezes minha produção não é suficiente para dar conta da demanda. Geralmente quando eu percebo que isso pode acontecer, me antecipo e compro mercadoria do sítio vizinho, mas, quando não é possível prever, conto com a ajuda de alguns amigos daqui. Faço a venda e depois pego a mercadoria de outro permissionário”, resume.

É com um relacionamento que oscila entre amor e ódio que o comércio flui tranquilamente na Ceagesp. “Se você pensar que o seu vizinho é seu concorrente mais que direto você enlouquece. Temos que ver a convivência por um ângulo melhor”, conclui Josué Boiani, 56 anos, representante dos permissionários, que, enquanto concedia entrevista ao Jornal da Cidade também fazia brincadeiras com os colegas próximos do local.


Gerações


Para o produtor de verduras Paulo Onohara, 58 anos, comerciante que atua na Companhia de Entrepostos e Armazéns Gerais de São Paulo (Ceagesp) de Bauru desde sua inauguração, não poderia haver melhor definição do que a palavra família para o convívio no local. Isso porque, além de seu pai ter trabalhado lá, seus irmãos também são permissionários atualmente.

“Minha família e eu viemos para cá assim que fomos removidos dos varejões que haviam na cidade antigamente. Atualmente vendo verduras, meu irmão frutas e minha irmã embalagens. Nos acostumamos com a rotina, não sei fazer outra coisa”, afirma.

A propriedade rural de Paulo fica no bairro de Quirilândia, separada das dos irmãos e, para ele, a concorrência interna não é o maior problema. “Tenho muitos amigos aqui e a vantagem de que pouca gente vende verduras. Meu problema é com o mercado, que às vezes vende abaixo do custo e com as chuvas, que frequentemente estragam a produção”, afirma.

Além do clima familiar, Paulo tem outro bom motivo para permanecer no local: às segundas e quintas-feiras, dia de maior movimento no setor de hortifrúti, ele chega a vender 200 caixas por dia, com 12 maços de verdura cada. Nestes dias, por volta das 9h, Paulo já festeja o fim do estoque.



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Tradição de pai para filho


Entre abacaxis, melancias e outras frutas cresceu a família de Miguel Ponce, 62 anos. Ele é permissionário da Companhia de Entrepostos e Armazéns Gerais de São Paulo (Ceagesp) de Bauru desde 1980, quando o primeiro pavilhão foi inaugurado, e conta com a ajuda dos três filhos na lida diária desde que eles já conseguiam carregar um abacaxi.

O trabalho em família, segundo ele, foi um dos fatores determinantes para que ele pudesse alcançar a estrutura que tem hoje, já que durante o caminho teve de superar muitos desafios.

“Trabalho desde os 13 anos de idade. Meu primeiro emprego foi em uma fazenda na região de Piratininga. Com um pouco de ambição percebi que, com o conhecimento adquirido, podia montar meu próprio negócio. Foi quando fui vender frutas na feira”, relembra.

Depois que se estabeleceu na Ceagesp, Miguel teve que contar com o apoio da família em épocas em que o comércio mostrava sinais de dificuldades. “Saí daqui uma vez porque não estava aguentando pagar o aluguel. Depois me fizeram uma nova proposta e eu voltei. Agora estão subindo de novo”, reclama.

Junto dele, o filho caçula, Marcel Rodrigo Ponce, 30 anos, observa atentamente as explicações do pai e acrescenta sua opinião sobre as benesses de ter a família unida no negócio do patriarca. “Eu gosto demais de trabalhar com as pessoas que eu amo. Cresci assim, não me vejo fazendo outra coisa.”

Marcel, a exemplo de seu irmão mais velho, Márcio Alexandre Ponce, 35 anos, cursou a faculdade de administração com o objetivo de aplicar seus conhecimentos no comércio da família. Já o filho do meio, Miguel Ângelo Ponce, 34 anos, concluiu a faculdade de publicidade e propaganda, mas devido às dificuldades de ingressar no mercado de trabalho permaneceu na companhia do trio.

A rotina deles começa cedo. Às 3h da madrugada já estão de pé, separando as mercadorias encomendadas. Às 4h começa o carregamento dos caminhões dos compradores, e a folga só chega por volta das 9h30, quando eles iniciam a arrumação do local.

“É puxado, mas eles me acompanham desde pequenos e sei que gostam do que fazem”, orgulha-se Miguel.



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Alternativa para o desemprego


Montar uma empresa familiar foi a alternativa encontrada por Vilma Dantas, 48 anos, para driblar o desemprego que assolava a família há cerca de 3 anos atrás. Naturais de São Paulo, Vilma, o filho e o marido vieram para o Interior por conta de uma transferência solicitada pela empresa em que o patriarca trabalhava vendendo embalagens para ovos.

“Estávamos na cidade há algum tempo quando meu pai saiu da empresa. Foi quando tivemos de achar um jeito para pagar as contas. A primeira ideia foi aplicar os conhecimentos dele em um negócio próprio, então abrimos uma revenda de ovos”, conta Bruno Dantas, 24 anos.

Ele a família são permissionários da Companhia de Entrepostos e Armazéns Gerais de São Paulo (Ceagesp) de Bauru há 3 anos, e tomaram conhecimento do espaço por meio de uma prima, que trabalha como secretária de um dos estabelecimentos do local. Conquistar a fama e ganhar clientes não foi tarefa difícil para o trio.

“Como aqui tem bastante gente, começamos oferecendo nosso produto para todo mundo. Com a infalível propaganda boca a boca ganhamos nome”, explica Bruno, que garante que o mais complicado é controlar a validade e a fragilidade do produto.

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