Jornal da Cidade de Bauru
Bauru e grande região - Sexta-Feira, 03 de Setembro de 2010  
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26/07/2010
Contra as tarifas bancárias, o colchão
O descontentamento com a cobrança de taxas tem levado pessoas a investirem na doméstica ‘poupança do colchão’
Adilson Camargo
A revolta com a cobrança de tarifas bancárias e o baixo rendimento da poupança têm levado uma parcela da população a optar por guardar o dinheiro em casa. Em vez de deixá-lo em uma caderneta de poupança ou mesmo na conta corrente, há pessoas que preferem investir na milenar “poupança no colchão”.

Mesmo sendo uma operação arriscada, tem quem opte correr o risco de um assalto do que ver o dinheiro se esvair pelos canais que atendem pelo nome de tarifa bancária. É o caso do gerente comercial Roberto (nome fictício por questão de segurança), 45 anos.

Faz 3 anos que ele só deixa no banco nada mais do que alguns poucos reais. O suficiente para o saldo não ficar negativo. O gerente tomou essa decisão depois de pôr na ponta do lápis o quanto ele estava tendo de pagar para usar o cartão de débito, de crédito e talão de cheques, além do custo de algumas operações bancárias.

“Os bancos pegam muito dinheiro da gente. Eles cobram tarifas e depois ninguém sabe explicar o motivo da cobrança e não devolvem o dinheiro”, reclama.

O gerente diz que não encerra completamente sua relação com o banco porque ele precisa de uma conta para a empresa depositar seu salário. Roberto recebe cerca de R$ 5 mil mensais. Assim que o dinheiro cai na conta, ele saca tudo e guarda em casa.

As notas ficam escondidas em um cofre cuidadosamente disfarçado. O gerente comercial sabe o risco que corre. Por isso, procura se cercar de todos os cuidados possíveis, não somente em casa, mas quando está na rua.

Como ele não usa cartão nem talão de cheques, para onde vai carrega dinheiro e, dependendo do que vai comprar, a soma é alta. Há pouco tempo comprou um produto de quase R$ 2 mil. Levou tudo em dinheiro. “Não faço prestações. Só compro se tiver dinheiro para pagar à vista. Com isso, consigo desconto”, conta.

Quando viaja, o gerente leva o dinheiro junto. Ele jamais deixa quantias altas em casa. Essa prática fez com que Roberto criasse alguns esconderijos em suas roupas. Segundo ele, depois de passar 40 anos morando na cidade de São Paulo, parte dos quais como office boy, é quase que natural criar meios de defesa contra as investidas dos assaltantes.

Mesmo quando vai ao banco para sacar o dinheiro, toma uma série de precauções, como, por exemplo, fugir de aglomerações. O gerente evita sacar quando tem muita gente. Nesse caso, aumenta o risco de o volume de notas chamar a atenção de alguém com pensamentos nada cordiais.

Além disso, quando ele deixa o banco e outra pessoa sai junto, ele retorna para dentro da agência. “É preciso estar atento o tempo todo”, avisa.

Apesar de todos esses cuidados, o delegado assistente da Delegacia Seccional de Polícia de Bauru, Márcio José Alves, desaconselha a prática. “De forma alguma deve-se guardar dinheiro em casa ou carregar altas quantias em espécie”, alerta.

Na opinião dele, ao mesmo tempo que as pessoas fazem isso para evitar algumas circunstâncias, como fugir das tarifas bancárias, acaba criando outras, como o risco de um assalto. “É preciso ponderar o que vale a pena arriscar”, observa.

Segundo ele, carregar dinheiro e guardá-lo em casa é uma cultura difícil de mudar no brasileiro, apesar de todas as advertências e orientações em contrário.


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Para economista, tarifa é o preço que se paga pela segurança do banco


É muito comum encontrar correntistas de banco e clientes de cartão de crédito descontentes com o tamanho da tributação que sofrem por usar esses serviços, mas na avaliação da economista Celina Martins Ramalho, conselheira do Conselho Regional de Economia (Corecon), esse é o preço que se paga pela segurança.

Segundo ela, usar cartão, hoje em dia, seja de débito ou crédito, é a forma mais segura de fazer negócio. “Até as compras mais simples já podem ser pagas com cartão”, comenta. Por isso, não se justifica carregar altas quantias de dinheiro. Para Celina, é uma questão de hábito.

Em caso de assalto, é mais fácil cancelar o cartão do que recuperar o dinheiro. “A não ser que o assaltante esteja armado e obrigue a vítima a ir até o banco para sacar o dinheiro”, pondera.

De acordo com a economista, ainda tem gente que guarda dinheiro em casa com medo de que o banco vá à falência. Outra parte simplesmente desistiu de deixar o dinheiro depositado porque o rendimento da poupança está muito baixo.

Segundo Celina, a prática não é comum apenas entre as pessoas mais velhas, como se imagina, mas faz parte dos costumes dos mais jovens também. Ela comenta que geralmente as pessoas fazem isso quando querem “esconder” o dinheiro, como, por exemplo, em casos de sonegação fiscal.

Para o delegado assistente Márcio José Alves, da Delegacia Seccional de Polícia de Bauru, o País vive uma economia estável, o que torna o banco o lugar ideal para guardar o dinheiro.

Ele lembra que, às vezes, pequenos empresários costumam efetuar o pagamento de seus funcionários em dinheiro. “Isso é muito perigoso, porque pode ter um funcionário mal intencionado que observa a rotina do patrão”, alerta. Uma consequência possível é a ocorrência do roubo no local do pagamento.

Tem empresário que saca o dinheiro um dia antes do pagamento e leva a quantia para casa. Segundo o delegado, essa é outra prática inadequada. “A pessoa assume alguns riscos que não se justificam, que são perfeitamente evitáveis”, diz.

No entanto, se a prática for circunstancial e inevitável, a recomendação da polícia é não comentar com ninguém. De acordo com Márcio, sem querer, um comentário feito dentro de casa ou numa roda de amigos pode entrar em ouvidos pouco amistosos.


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Prática revela grandes surpresas


Guardar dinheiro debaixo do colchão ou em qualquer outra parte da casa não é nenhuma prática ilegal, mas, segundo a economista Celina Martins Ramalho, conselheira do Conselho Regional de Economia (Corecon), não tem muito sentido. Por menor que seja o rendimento de uma caderneta de poupança, sempre haverá um acréscimo no valor depositado.

No começo deste mês, causou espanto a divulgação da quantidade de políticos que guardam dinheiro em casa. O espanto maior foi com a quantidade de dinheiro “debaixo do colchão”.

O ex-governador de São Paulo e candidato a senador Orestes Quércia (PMDB) declarou à Justiça Eleitoral que guarda R$ 1,28 milhão em casa. Se aplicasse esse dinheiro na poupança, mesmo com um rendimento muito baixo de 0,5% ao mês, ele conseguiria mais R$ 78,8 mil em um ano.

Outros políticos, como a candidata à Presidência Dilma Rousseff (PT) e o candidato ao Senado Aloysio Nunes Ferreira (PSDB), também expuseram a prática à Justiça Eleitoral.

No ano passado, uma notícia sobre esse tipo de poupança ganhou repercussão mundial. Uma israelense resolveu presentear a mãe com um colchão novo. Ela decidiu fazer uma surpresa, trocando o velho pelo novo sem avisá-la.

Ao se dar conta do ocorrido, a mãe da mulher entrou em pânico. Todas as economias da vida dela, o equivalente a US$ 1 milhão (R$ 1,76 milhão), estavam escondidas dentro do colchão velho. Quando Anat foi procurar por ele no lixo, já era tarde demais. A peça havia sido recolhida. Enlouquecida, a mulher fez buscas pelo colchão em três lixões. O esforço foi em vão. Nada foi encontrado.
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