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30/05/07 00:00 - Economia

Movimento estudantil está organizado

Em greve contra os decretos do governador José Serra, alunos da Unesp mostram uma nova postura de protesto

Gustavo Cândido
A organização dos alunos do câmpus de Bauru da Universidade Estadual Paulista (Unesp) - em greve desde anteontem juntamente com funcionários e professores da instituição -, que protestam em defesa da autonomia das universidades estaduais, tem mostrado uma nova face do movimento estudantil até então escondida atrás de pontos de vista parciais que rotulam a classe como arruaceira e irresponsável, principalmente durante os períodos de protesto como o de agora.

Mesmo em pé de guerra com o governo e ocupando prédios públicos em alguns câmpus do Estado (como no caso da reitoria da USP, em São Paulo, principal bastião da luta estudantil nesta crise), os alunos têm se preocupado em pautar suas ações com conhecimento de causa, sem perder o foco.

Ontem, em uma das salas da Unesp, mais de 50 estudantes de diversos cursos debatiam os itens dos decretos do governo estadual que poderiam afetar a autonomia das universidades públicas paulistas. “O objetivo é que nós tenhamos mais consistência, por exemplo, no ato que vamos participar em São Paulo amanhã no Palácio dos Bandeirantes”, diz Luiz Augusto Abílio Silveira Rocha, aluno do quarto ano de jornalismo, que coordenou a reunião explicando os principais itens dos decretos.

Segundo ele, o movimento em Bauru se organizou por comissões (ética, financeira e de comunicação, entre outras) para que as ações sigam uma ordem e os alunos não deixem de participar.

Amanhã, em São Paulo, alunos de vários câmpus das universidades estaduais paulistas farão um ato de mobilização em frente à sede do governo. Funcionários e professores também devem comparecer. De Bauru, segundo Rocha, pelo menos 95 estudantes participarão.

Hoje, os alunos estarão presentes na assembléia que os professores da Unesp realizam à tarde para referendar o início da greve. Uma nova reunião de estudantes deve ainda ser feita para apresentar os resultados do início do movimento.

Para Andrea Klaczko, aluna do primeiro ano de jornalismo, tanta organização é o início de uma nova fase para os estudantes. “Há muitos anos não há uma mobilização tão grande do movimento estudantil, que é sucateado pela mídia, que trata os estudantes como baderneiros que não querem ter aula. O movimento estudantil não quer mais ser revolucionário. Ele quer ter medidas, tomar medidas, ter corpo real e isso é inovador e pode dar certo. Na USP o movimento tem comissões e é sério, não tem o objetivo de destruir o patrimônio público. Ao contrário, preservar”, diz.
A universitária é otimista sobre os resultados da greve. “Eu acredito que a gente tem força, sim. Se continuarmos na luta, juntos com os docentes e servidores, acredito que vamos conseguir medidas de fato. Não sei se a gente consegue revogar os decretos do Serra, mas eu acho que a gente está fazendo corpo, se mostrando na mídia de uma forma diferente, e isso para o movimento é fantástico”, afirma.

Rômulo Rodrigues Violante, aluno do terceiro ano de psicologia, tem a mesma opinião. “Quanto mais unirmos forças, as três universidades estaduais, mais temos chances de atingir nosso objetivo”, concorda. Sobre o movimento estudantil, decreta: “A gente quer mostrar o que precisamos não bagunçando, não fazendo baderna”.

Desafio

O grande desafio do movimento por enquanto é manter os estudantes na cidade. “Não sabemos quantos alunos vão ficar em Bauru. É normal que muita gente viaje durante a greve, mas as atividades vão servir para buscar as pessoas e para as que estão aqui continuarem e terem na cabeça que greve não é férias”, diz Jacqueline Oliveira, aluna do primeiro ano de psicologia, sobre a série de eventos que o movimento estudantil prepara para os dias de paralisação.

Tatiana Koschelny Pereira, aluna do terceiro ano de psicologia e responsável pela comissão de atividades do movimento, explica a importância de permanecer em Bauru. “Esse tempo deve ser um tempo útil para que a gente exerça cidadania como estudante e membro da comunidade, trazendo-a para a faculdade para que as pessoas entendam que a universidade não é de graça. É uma obrigação do Estado, já que todos estão contribuindo com impostos. A gente está lutando por um ensino de qualidade, por algo que nos é garantido por Constituição.”

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Programação de greve

Os estudantes da Unesp não querem que a greve seja motivo para um êxodo no câmpus. Para isso, a organização do movimento prepara uma série de atividades. “A partir de amanhã teremos um calendário fixo com atividades todos os dias a partir das 16h, aqui no câmpus”, diz Tatiana Koschelny Pereira, responsável pela comissão de atividades do movimento.

Segundo ela, estão sendo programadas oficinas, workshops e exibição de filmes, além de grupos de discussões sobre temas que envolvam a universidade. “À noite, a partir das 20h, teremos sempre apresentações musicais”, diz. Um dia por semana os eventos serão levados para a praça Rui Barbosa. A intenção é chamar a população para participar das atividades, que serão sempre abertas ao público.

A programação deve ser mantida por todo tempo que durar a paralisação dos alunos. A expectativa é que ela sirva de motivação para mantê-los na universidade apesar da falta de aulas. O responsável pela comissão de comunicação do movimento, Fábio de Lima Alvares, aluno do segundo ano de jornalismo, quer que os alunos lembrem que greve não significa férias e que há um motivo para a paralisação.

“O pessoal precisa estar aqui para construir essa greve e também para repensar o espaço da universidade. Essas atividades são para isso também, para o pessoal pensar no que pode fazer para melhorar a universidade. É um momento de questionamento”. (GC)

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‘Estudantes estão politizados’

Para o professor do curso de educação física da Unesp de Bauru e presidente da seção sindical da Associação dos Docentes da Unesp (Adunesp), Milton Vieira do Prado Júnior, a participação dos estudantes das três universidades na movimentação contra os decretos do governo estadual é o primeiro resultado positivo de todo esse processo.

Jornal da Cidade - Como está a movimentação nas universidades nos últimos dias?
Milton Vieira do Prado Júnior - O movimento está crescendo entre os estudantes das três universidades e a adesão dos funcionários da Unesp e da Unicamp está aumentando. Existe greve também nos câmpus da USP de Ribeirão Preto e São Carlos. Na Unesp, continuamos com seis câmpus em greve: Araraquara, Assis, Marília, Ilha Solteira, Bauru e Rio Claro.

JC - O senhor vê mudanças na atuação dos estudantes?
Prado Júnior - O movimento estudantil se reorganizou de forma evidente. Houve uma movimentação de estudantes em 2004 na greve pela luta por mais verba para as universidades. A aprovação do aumento de verbas na Assembléia e o veto do (Geraldo) Alckmin naquele momento criaram nos anos seguintes uma sensação de descrença no governo e na luta por mais recursos.
Agora, com a colocação do decreto do Serra e uma seqüência de decretos que ferem a autonomia das universidades e os serviços públicos de maneira geral, deixa claro uma política do governo contra os movimentos sociais, contra os trabalhadores e contra a universidade pública.

A avaliação que nós fazemos é que a greve, hoje, é uma greve política dos estudantes. Eles têm algumas reivindicações históricas como contratação de professores, moradia estudantil, restaurante universitário, entre outros itens específicos, mas a defesa da autonomia da universidade pública, a defesa de mais verbas, fazem da greve política.

JC - Os estudantes estão mais politizados?
Prado Júnior - A ocupação da reitoria da USP, que simboliza toda movimentação dos estudantes nas três universidades e, no caso da Unesp, a ocupação de algumas diretorias como as de Franca e Ilha Solteira mostram que é um movimento organizado, politizado, e eu acho que esse é o grande saldo positivo até o momento dessa mobilização, para mostrar à sociedade que tudo o que nós vínhamos falando nos últimos anos, como o aumento da terceirização da universidade, a limitação de verbas, a falta de contratações de professores e funcionários e a não reposição das perdas salariais, demonstram uma desvalorização do modelo de universidade. É uma política que busca atacar veementemente essa organização dentro do Estado de São Paulo. É uma política educacional para o ensino superior com a qual a gente não concorda. (GC)




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