Pudemos ver os irmãos Tonico e Tinoco caminhando pelas estradas não do sucesso, mas dos carreadores dos cafezais, nos trilhos de matas nativas, regiões brejeiras na Fazenda Santo Ignácio no município de São Manuel. Residiam em uma colônia da sede, denominada “Brejão”. Uma área para plantio de milho, feijão sequeiro, arroz...
Havia uma sapaiada que se fazia ouvir devido à multiplicidade de vozes, numa sensação harmoniosa que muitos diziam ter servido de prelúdio às grandes obras: ópera, oratórios, sonatas. Era um coaxar de todas as noites. E foi na simplicidade de uma vida modesta de roceiros que Tonico e Tinoco viviam.
Faziam suas demonstrações em bailes, noites de serestas, animando o pessoal de todas as fazendas, inclusive onde morávamos, “Pasto Velho”. Antes da consagração, tivemos, eu e outros moradores das propriedades vizinhas, a graça de participar de bailes organizados por eles no início de tudo. Montavam uma cobertura entre a casa deles e da vizinhança em festejos que encerravam-se na manhã seguinte.
Em caso de chuva, despejavam palha de arroz no chão. Serviam café, bolo, pipoca e sucos. Com o decorrer do tempo, alguém da cidade deslumbrou-se com a qualidade do canto dos irmãos.
Não demorou a aparecer gente incentivando-os no caminho de outros centros, inclusive com participação em programas de calouros, vencendo várias tapas. Iniciava-se, ali, uma carreira inimaginável de referência a cantores sertanejos.
Apesar da distância do tempo e outros fatores, sempre os consideramos com respeitoso reconhecimento por toda a grandeza de sua obra. Tornaram-se “paixão nacional”, ultrapassando fronteiras do Brasil.
Assim conhecemos Tonico e Tinoco. E deles jamais ouviremos novamente, de viva e intensa voz: “Nestes versos tão singelos, minha bela, meu amor. Para você quero cantar o meu sofrer e a minha dor. Eu sou que nem o sabiá, que quando canta é só tristeza desde o galho onde está. Nesta viola canto e gemo de verdade. Cada toada representa uma saudade” (composição “Tristeza do Jeca”, de Angelino de Oliveira, 1918).
O autor, Antonio Nunes da Horta, é corretor de imóveis jubilado
|