Na última quinta-feira, cheguei em casa por volta das 17 horas e liguei a TV. O Datena, como sempre, estava falando sobre a violência. Um motorista fora assassinado a socos por ter dado uma “fechada” em outro. Comentário do apresentador: “-Hoje a gente não sabe quando vai morrer, como vai morrer, onde vai morrer...” Depois de dizer essa bobagem, ele defendeu leis mais duras, cortou a fala do apresentador do jornal seguinte - que fazia uma entrada ao vivo para dar informações sobre outro caso - e deu uma bronca em alguém da produção, explicando que o programa era ao vivo. Na verdade, trata-se de um show. O conteúdo jornalístico, a informação, é o que menos importa nesse tipo de programa. O conteúdo é o próprio Datena.
Mudei de canal para o concorrente. Marcelo Rezende mostrava uma briga de socos entre duas pessoas. “-Espera aí que tem mais. Vai acontecer mais coisa”, instigava o apresentador, tal qual um João Kléber num Teste de Fidelidade. Passou algum tempo e não aconteceu nada. Apenas as duas pessoas contorcendo-se no chão e outras tentando apartar. Como vimos no Datena, o conteúdo, a informação, não têm relevância alguma. Os dois programas também apresentaram matéria sobre uma chacina em um lava-rápido no bairro do Jaçanã, em São Paulo. Antes da matéria, Datena informa que a madrugada fora violenta. Quatro pessoas haviam morrido assassinadas. O repórter diz que foram três no lava-rápido e duas em outra ocorrência. Três mais dois, como todos sabem, são cinco e não quatro. Mas os números não importam. Segundos depois, Rezende informa que só o repórter da Record teve acesso ao lava-rápido. Mas eu tinha acabado de assistir à mesma história no programa do Datena.
Na faculdade de comunicação, a gente aprende que o excesso de informação gera redundância e confunde a noção de realidade do espectador, que pode começar a perceber as notícias bombásticas como ficção e (por exemplo) as novelas como realidade. O público exausto chega do trabalho e se diverte com a desgraça alheia. Na hora da novela, o mesmo público almeja os valores dos personagens bonitos e milionários, incorporando-os a seus sonhos e interesses. E então vem o comercial. Uma propaganda de desodorante termina com o slogan: “Use Axe e acumule mulheres.” Acumular mulher significa que a pessoa atingiu um patamar invejável entre os homens. Se a propaganda diz isso, é porque boa parte dos homens sonha mesmo em ter um harém de mulheres à disposição. E há uma disputa por isso. O desodorante é só um dos itens que eles devem adquirir para vencê-la. Na “Malhação”, uma garota de uns 18 anos tenta inventar uma gravidez usando uma barriga falsa. Em outra cena, uma mulher de 40 anos diz que viveu metade da vida sem ver a filha. O mundo das novelas, mesmo as produzidas para adolescentes, é uma verdadeira zona. Para dar conta de todas as paternidades e maternidades potenciais reveladas no curso de uma novela, é preciso que cada personagem tenha feito sexo com todos os outros.
Na novela seguinte, o próprio título já é uma embromação: “Eterno Amor”. O protagonista tem poderes paranormais e é aquele tipo de pessoa que é tão boa, mas tão boa... que é chata. No começo da novela ele era peão na ilha do Marajó, mas veio para o Sudeste tomar conta das empresas milionárias herdadas de sua mãe, que morreu logo depois de encontrá-lo. Na vida real, o ator Gabriel Braga Nunes foi notícia por dizer que acha pouco ganhar 2 milhões de Reais por ano. Na verdade, ele deve achar pouco ganhar 2 milhões para esse tipo de papel. Pelo menos, o dia televisivo terminou com uma grata surpresa.
O novo programa do Pedro Bial é bom. Falaram sobre a felicidade, tentando achar um denominador comum entre os participantes: o que seria a felicidade? Enfim, a filosofia - diluída na linguagem televisiva, mas ainda assim é a filosofia. Conseguiram entender, inclusive, que a felicidade é algo difícil de se alcançar em um mundo que cria uma eterna competição entre as pessoas. Duvido que fique muito tempo no ar.
O autor, Luís Paulo Domingues, é professor de história, jornalista e colaborador de Opinião
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