As telenovelas brasileiras são um fenômeno que os teóricos ainda não explicaram com clareza, tampouco os atores compreenderam a dimensão. Em nenhum outro país as novelas fazem tanto sucesso. O horário das novelas da TV Globo, por exemplo, mantêm uma audiência média de mais de 40 pontos, o que significa cerca de quarenta milhões de pessoas, do Oiapoque ao Chuí, acompanhando uma história por oito meses. Ninguém está nem aí com a “novela” do mensalão e muito menos com a do Cachoeira. Este efeito anestesiante das ficções talvez faça algum mal para a sociedade brasileira que deveria estar mais atenta para combater os atentados aos recursos públicos. A mocinha Nina e a vilã Carminha conseguem despertar mais perplexidade que o dinheiro desviado da nação. Parte do público enxerga em Carminha uma mãe preocupada com o bem-estar da família – e dos pobres da vizinhança. Isto basta. A vilã é gente como a gente.
Do outro lado da ficção existe a realidade que preocupa a Globo. As atrizes ficam tão famosas que acabam em crises de estrelismo. A atriz de uma novela rodou a baiana porque a camareira levou o restinho da sua caipirinha. Outra artista abandonou o trabalho porque achou que não tinham varrido direito o chão do camarim. Boni, o ex-chefão da Globo, conta que precisou contratar o psicanalista carioca Miguel Chalub, por conta de prejuízos provocados por ataques de estrelismo de alguns atores. A emissora estava no auge com Irmãos Coragem, texto consagrado de Janete Clair, e com Pátria Minha, folhetim de Gilberto Braga. Felipe Camargo tinha quebrado o braço da mulher Vera Fischer. O psicanalista ficou dois meses dando palestras na Oficina de Atores da emissora. Ele procurou incutir nas cabecinhas ocas que o sucesso dura apenas até o último capítulo. Alguns dos artistas da Globo passam a ser conhecidos no Brasil sem que tenham preparação, personalidade e solidez de ego – notou o psicanalista. O assassinato da atriz Daniella Perez comprova essa teoria. “A Globo ilumina pessoas sem luz própria”, como a do ator-assassino Guilherme de Paula que fez um pacto sexual com a mulher Paula para matar aquela que fora destinada, no script, para ser por ele beijada em cena. Nesse mundo as pessoas sempre acham que tem alguém tentando derrubá-la. Para se defender os fracos de espírito não hesitam em matar para que seu ego sobreviva. Ou então acabam se perdendo na voragem criada pela sua própria fantasia narcísica. Os atores temem tirar a máscara e descobrir que não são como os seus personagens. Continua atual o personagem Bozó criado pelo Chico Anísio há mais de trinta anos. Ele é o símbolo da força que carrega a frase: “Eu trabalho na Globo”. O público nem desconfia que a Vênus Platinada costuma devorar suas estrelas.
Em Hollywood também foi assim. Biografias de beldades como Rita Hayworth e Marilyn Monroe registram carmas de infelicidade e desilusão. Vimos há pouco o filme sobre Marylin Monroe. Símbolo sexual dos anos dourados, a atriz, como todo mundo sabe, era meio ingênua e sexualmente imatura. Ninguém tem aquela voz uterina impunemente. Sabe disso todo aquele que alguma vez na vida ouviu a gravação em que ela canta “Happy birthday, Mr. Presidente” para John Kennedy. O tom lascivo é fácil de compreender. Depois de ter sido casada com o jogador de beisebol Joe Di Maggio, já segundo marido, casou-se com o teatrólogo Arthur Miller. Marilyn se tornou amante dos Kennedy - Bob e John. Além dos Kennedy mantinha outros relacionamentos concomitantes e tumultuados. Atacava firme no álcool, nos tranquilizantes e nos estimulantes.
Morreu em 62 de uma dose cavalar de hidrato de cloral, um tranquilizante. Exatamente há 50 anos. Há quem ache que foi crime. Queima de arquivo provocado pelo seu envolvimento com o presidente e o irmão. O mais provável é que Marilyn, como as outras, tenha sido vítima de si mesmo. As pessoas que se empenham em manter o sucesso a qualquer preço estão condenadas a mesma maldição de Narciso. Destinado pelos deuses a jamais se conhecer, quando Narciso vê a própria imagem refletida na água, por ela se apaixona sem saber de quem se trata. E morre de amor.
O autor, Zarcillo Barbosa, é jornalista e colaborador do JC
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