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11/01/17 07:00 - Opinião

Nas entrelinhas da História

Clarisse da Costa

Xangô é o rei da justiça. E justiça é o que eu e toda Nação Negra buscamos, e não há nada melhor que falar sobre a raça negra. Mas o que falar sobre o negro nos dias atuais? Tudo o que está nas entrelinhas. A voz que é calada pelo poderio conservador e a sua existência ocultada tem uma linda história a ser contada. Totalmente diferente do que é nos apresentado nos livros de histórias. O negro, nos livros, não passa de um escravo com marcas no corpo pelas chicotadas recebidas. A escravidão negra é apresentada como a ideia de que africanos eram um povo pacífico, pouco desenvolvido e nada contestador. Para mim, a escravidão foi apresentada como é até hoje.

A realidade é outra. Eles eram bem prósperos. Um povo de cultura, organização política e econômica. E nos dias atuais, toda comunidade negra é deixada de lado e para a sociedade o negro não passa de lixeiro, porteiro, guarda de shopping, varredor de rua… Para onde a sociedade vai nos levar? Não somos mais escravos do poderio, mas somos escravos de toda uma sociedade omissa e seus preconceitos. Nossa liberdade e direito de existir para além da nossa existência não pode ser conduzida pela elite conservadora. Ou o nosso barco nos conduz ou nós conduzimos nosso barco. Contar a verdadeira história é mais que obrigação, e sim dever para com o nosso povo sofrido.  A nossa real história é ocultada por décadas e se esconder como faziam os negros fujões não cabe mais nos dias atuais. Não estamos mais no século 19. E por falar nisso…

Antes da chegada dos europeus, aportando na África, os africanos viviam uma vida diferente daquela que conhecemos pelos livros. Viviam em tribos bem organizadas, sabiam ler e escrever. Sua literatura é uma senhora de longa data. Uma história longa que provém do reconhecimento de obras literárias do Antigo Egito. Entretanto, na maior parte da África, a escrita só foi usada depois da colonização. Porém, os africanos tinham e continuam até hoje a prezar pela literatura oral. E muito antes de outros povos, os africanos já praticavam o comércio a longas distâncias.

O produto mais exportado entre tantos comercializados estava o ouro de Gana. Este comprado pelos egípcios antigos. O povo negro perdeu suas origens quando surgiu a escravidão. No Brasil, a era do escravismo africano começa por volta de 1.500 e por aqui o negro viveu em condições abusivas por anos. Mas para entendermos melhor, vamos ao significado da escravidão. Ela foi uma forma de relação social de produção adotada no período colonial, antes do final do império. Conhecida como escravismo ou escravatura. No Brasil, a escravidão foi marcada pela exploração da mão de obra de negros, forçadamente trazidos da África. Esse fato se sucedeu a partir da crise de mão de obra nas lavouras instaladas de cana-de-açúcar do Nordeste do Brasil.

Os índios que prezavam a sua liberdade, que foram escravizados para trabalharem nos engenhos, eram dizimados por epidemias ou fugiam. Com isso, os senhores se viram obrigados a importar o que naquele tempo chamavam de “peças de Guiné”, ou seja, os escravos. Uma curiosidade, cerca de 4 milhões de pessoas foram sequestradas da África e no nosso país aportaram ao longo de 300 anos. Aqui, os africanos perderam totalmente as referências, transformados em escravos pelos europeus colonizadores. O som do chicote era a melodia mais triste que podiam ouvir além do grito de dor do irmão prezo ao tronco. Mas nesse meio de dor, escravidão e opressão, os índios também sofreram. No entanto, a escravidão indígena foi abolida oficialmente pelo Marquês de Pombal, no fim do século 18. Os escravizados foram utilizados na agricultura, principalmente na atividade açucareira e na mineração. Tornando-se essenciais para a manutenção da economia. Na atualidade, livre do mercado escravo, o negro sofre com o racismo, falta de espaço na sociedade e omissão dos governantes.

A mulher negra sofre duplamente o preconceito, machismo e o racismo de uma sociedade omissa. Não que a mulher branca não sofra. A mulher em geral sofre com o machismo e o achismo do homem de que ela é um produto à venda. No entanto, a mulher negra paga o maior preço, pois o machismo vem com o preconceito por causa da cor de sua pele. E posso afirmar que no dia a dia, eu, como mulher negra, percebo isso desde a infância. Andando com amigas da raça branca, vi a diferença brutal. O tratamento para comigo não era o mesmo que elas recebiam. A minha existência parecia incomodar. E hoje existir para o mundo é a guerrilha diária de toda não Nação Negra.

A autora é artesã e poetisa

 





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