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17/02/17 07:00 - Opinião

É legítimo

Iara M.E. Marubayashi

Recentemente houve ataques às pessoas que se indignaram e protestaram contra os maus-tratos a um cão, revelados por um vídeo que a produção diz ter sido manipulado, do filme ‘Quatro vidas de um cachorro’. No limbo que se tornou as redes sociais na internet, acusações de que se tratava de pessoas frias e indiferentes ao ser humano foram direcionadas aos defensores dos animais. Porém, neste contexto, o que chama mais atenção é a manifestação de ódio, que visou negativar uma ação humanista de não violência a outro ser vivo senciente (ou seja, que sente dor, medo, afeto, prazer) ser categorizada como uma luta desmerecida e banal.

Ao tratar o assunto de maneira reducionista, ficou expresso o embasamento no especismo, ideal que coloca a pessoa como um ser superior e dominante entre todas as espécies existentes na terra, julgando-as como inferiores e merecedoras do escárnio humano. Essa manifestação de superioridade pode ser identificada em outros momentos histórico da humanidade, em que o ser humano conseguiu ser tão especista e prepotente que, em seu ápice mais truculento, testemunhamos à insana disseminação nazista de que existiam raças humanas, e havia uma melhor que a outra, e por isso era justificável as atrocidades realizadas em nome desta ideologia.

No caso dos animais não-humanos, ainda que eles sejam diferentes de nós, ao longo do desenvolvimento da nossa consciência planetária, a compreensão de que somos parte de um ecossistema incrivelmente diverso, fez com que nossa apreensão sobre a ética em sociedade expandisse para um nível além do nosso próprio umbigo desta nossa redoma humana.

Várias conquistas vêm ocorrendo gradativamente, como podemos verificar nos avanços de acordos internacionais sobre as mudanças climáticas, as políticas públicas de desenvolvimento local, o fortalecimento de ações socioambientais junto a povos ribeirinhas, caiçaras e indígenas, a busca pelo aperfeiçoamento de tecnologias sustentáveis e o vigor de legislações que proíbem eventos que maltratam os animais em prol do divertimento humano. A diversidade de diferentes movimentos sociais, não se trata de uma barreira, e sim, de um tônico que agrega e impulsiona a sociedade. É neste sentido que caminhamos para frente, com a organização em torno de várias frentes de luta que se mostram essenciais na contemplação de todas as dimensões, sujeitos, territórios, seres vivos e realidades existentes nesta aldeia global em que vivemos.

Essas tentativas de construir ‘muros’ entre as pessoas não é de hoje, contudo, estamos vivendo tempos particularmente difíceis para aqueles que ainda acreditam em um mundo transformado e desenvolvido. Estas pessoas que promovem a dicotomia da sociedade, tentando marginalizar e hierarquizar lutas que na realidade se complementam e se fortalecem uma com a outra, expressam sua visão fragmentada de cunho segregador. Pois, quem de verdade se importa, não se indigna com o errado de maneira seletiva, não possui ética em frações da vida e não luta somente por si ou pelos seus, mas por todos, uma vez que precisamos um do outro.

Pessoas, ativistas, idealistas que compreendem a complexidade deste planeta sabem que sozinhas não mudam o mundo, é preciso a mobilização do coletivo, cada qual em sua área, contribuindo neste processo histórico. Deste modo, defender os animais de maus-tratos é legítimo, humano e faz parte da construção de um novo mundo.

A autora é formada em Serviço Social pela Unesp.





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