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21/04/17 07:00 - Opinião

Tiradentes e a Maçonaria: segredos nas tramas da história

Waldir Ferraz de Camargo

Cercada de mitos e boatos, a história da participação da Maçonaria nos principais movimentos sociais e revolucionários do Brasil ainda permanece mergulhado no campo da nebulosidade. A começar pela exaltação à figura de Tiradentes enquanto mártir da Conjuração Mineira de 1789, sem qualquer prova documental de sua filiação à Ordem, nem da existência de Lojas Maçônicas funcionando regularmente no Brasil durante o século XVIII.

Na época, ainda sem Lojas instituídas, a adesão podia ser feita fora dos Templos Maçônicos, por um maçom com autoridade para tal, o que era denominado "Iniciação por comunicação". Assim, José Alvares Maciel iniciou Tiradentes, cuja prática foi abolida com a fundação em 1801 da primeira Loja Maçônica do Brasil, chamada "Reunião".

Entre os pesquisadores prevalece um consenso muito forte da participação da Maçonaria na conspiração mineira, ainda que não haja qualquer vestígio de sua ação propriamente dita, mas levando-se em consideração o modus operandi da Sublime Ordem e seus trabalhos serem feitas geralmente em segredo, compreende-se.

Há também evidências de que os encontros literários, arcádias e saraus realizados na época, aglutinando poetas, padres, militares, clérigos e outros homens cultos, era na verdade verdadeiras reuniões maçônicas que funcionavam na clandestinidade, já que as leis vigentes proibiam ações de sociedades secretas no Brasil.

Fato é que Tiradentes, maçom ou não (pouco importa), era o personagem perfeito buscado pelos republicanos a partir de 1889 para transformá-lo em herói nacional, símbolo da resistência, da divisão, precursor da independência, caracterizado à imagem de Cristo, igualmente traído, um ser quase sobrenatural que, apesar de suas imperfeições, deveria inspirar as virtudes dos homens enquanto modelo a ser citado em discursos de natureza nacionalista e/ou moralista.

Era preciso substituir as figuras monárquicas de destaque, como o próprio D. Pedro I, que proclamou a independência em 1822. Apesar de muito marcada pelos interesses republicanos a construção do perfil heroico atribuído a Tiradentes dê-se também pelos caminhos sulcados pela ambiência cultural de seu próprio tempo e pela herança deixada por ela para épocas vindouras. Grande parte do processo de formulação de uma imagem sacralizada e cristianizada de Tiradentes, principalmente o evento da traição, tiveram como base os relatos dos frades que assistiram os inconfidentes em seu período de prisão no Rio de Janeiro.

Note-se que já naquela época havia uma prática muito comum nos dias atuais: a delação premiada. O coronel Joaquim Silvério dos Reis, que integrava o grupo inconfidente, em troca de benefícios financeiros e políticos denunciou a trama às autoridades da Corte Portuguesa e o movimento inspirado nos ideais iluministas da Revolução Francesa fracassou.

Tiradentes foi julgado e condenado ao enforcamento no Rio de Janeiro, sendo posteriormente esquartejado e as partes colocadas em locais onde ele havia passado divulgando suas idéias de liberdade.

A cabeça, troféu maior, foi levada para Vila Rica em uma gaiola presa a um poste, que deveria ficar exposta até que o tempo a consumisse. Esse fato ocorreu com grande aparato militar e o povo, amontoado à distância do terrível espetáculo, ouvia os discursos inflamados dos políticos fieis à Sua Majestade, maldizendo o "traidor" que recebera o castigo merecido. A noite escura chegou, fria e nebulosa e nesta hora ninguém ousava sair de suas casas com medo dos bandidos assassinos ou das almas penadas que por ali vagavam errantes.

Tudo era silêncio e as trevas ameaçadoras foram vencidas pelas fracas luzes das lanternas empunhadas pelos maçons que roubaram a cabeça e a esconderam em algum lugar, onde ninguém jamais a encontrou. No outro dia, a cidade amanheceu embalada pelos cochichos que espalhavam os mais criativos boatos, em grande parte aprovando a ação, numa demonstração de que a luta continuaria em resposta ao povo e ao autoritarismo de todos os tempos.

 




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