Bauru e grande região - Terça-feira, 11 de dezembro de 2018
máx. 33° / min. 20°
21/08/09 03:00 - Cultura

O último petardo e Raul já podia partir

Há exatos 20 anos, o Maluco Beleza voltou às paradas após a notícia de sua morte,em razão de uma parada cardíaca, já esperada por pessoas próximas

Edmundo Leite /Com Redação
Quando velhos sucessos de Raul Seixas começaram a tocar repetidamente nas rádios na tarde daquela segunda-feira, 21 de agosto de 1989, não foram poucos os que se surpreenderam. Com Raul ausente das paradas desde “Cowboy Fora da Lei”, dois anos antes, escutar antigos hits como “Ouro de Tolo”, “Gita”, “Metamorfose Ambulante” e “Maluco Beleza” no meio da programação regular - que então ia da revelação Marisa Monte a Chitãozinho e Xororó e Milli Vanilli, passando por Legião Urbana - deveria significar alguma coisa. E a notícia não demorou a chegar.

Se, para muitos, foi uma surpresa, para os que acompanhavam o artista de perto era mais que esperado. Suas últimas aparições públicas causavam um misto de choque e comoção. Mesmo com a saúde bastante debilitada, a lenda do rock brasileiro arrastava multidões em seus shows. Apoiado pelo amigo e discípulo Marcelo Nova, acabara de realizar uma extensa e bem-sucedida excursão por todo o País.

A derradeira apresentação foi em Brasília, poucos dias antes de ser encontrado morto no modesto apartamento onde morava sozinho em São Paulo. A semana que se seguiu ao show no Planalto Central seria de descanso e de preparação para as atividades programadas para o lançamento do disco gravado nos intervalos das apresentações pelo Brasil.

“A Panela do Diabo”, batizado pela dupla por inspiração de evangélicos que distribuíam panfletos comparando Raul ao Belzebu na porta de um show no interior de São Paulo, era o resultado da parceria que uniu os dois irrequietos baianos no momento em que o País vivia uma de suas mais importantes transições.

As primeiras apresentações conjuntas de Raul e Marcelo foram na Concha Acústica do Teatro Castro Alves, em Salvador, a apenas duas semanas da promulgação da Constituição de 1988. Mais que um marco histórico, a nova Carta tinha um efeito prático para o roqueiro. Após quase 20 anos de carreira, pela primeira vez ele estaria legalmente livre para dizer o que quisesse, como pregava a sua constituição, o manifesto da Sociedade Alternativa.

Junto com a volta das garantias coletivas e individuais, a Constituição Cidadã - como Ulysses Guimarães a batizara - acabava de vez a censura às obras artísticas, mantida no governo civil de Sarney mesmo após a saída dos militares do poder e que ainda naquele 1988 havia proibido a execução pública de “Não Quero Mais Andar na Contramão”, do fraco disco “Pedra do Gênesis” que antecedeu o encontro de Raul com Marcelo.

Motivação

Se os novos tempos traziam liberdade total de expressão, o que faltava agora a Raul era motivação. Diabético, com uma pancreatite crônica decorrente do alcoolismo e recém-separado da última das cinco mulheres com quem foi casado, estava depressivo e amargurado. O sarcasmo, a ironia e a índole zombeteira e verborrágica que por anos marcaram suas aparições e músicas deram lugar a uma figura calada.

O convite do ex-líder do Camisa de Vênus para os shows - junto a um necessário acompanhamento médico - deu uma injeção de ânimo em Raul. Já na chegada a Salvador para as primeiras apresentações, a dupla chegou zombando de Gilberto Gil, que dava na capital baiana os primeiros passos da carreira política que culminaria anos depois com o cargo de ministro da Cultura no governo Lula. O atual presidente, na época disputando a sua primeira eleição presidencial, também foi alvo da dupla.

Com a inédita campanha eleitoral para a escolha do novo presidente a pleno vapor em meados de 1989, o magro barbudo e Marcelo declaravam que não acreditavam em alguém que não ria, referindo-se à sisudez do petista, considerada um dos principais fatores de rejeição a ele.

Apesar do calor da disputa eleitoral enquanto corria a turnê, a sucessão política especificamente não serviu de inspiração para as composições da nova dupla. Mas outros temas que estavam nas páginas de jornais e nos noticiários da TV não passaram despercebidos.

Em meio às celebrações ao “rockão antigo” e canções autobiográficas, a panela preparada por Raul e Marcelo misturava Salman Rushdie, Sting e cacique Raoni em “Best Seller” e ainda davam uma espinafrada em Edir Macedo na divertida “Pastor João e a Igreja Invisível”: “Pois eu transformo água em vinho, chão em céu, pão em pedra, cuspe em mel/Para mim não existe impossível/pastor João e a Igreja Invisível.”

Vinte anos depois, com os mesmos personagens ainda protagonizando os noticiários não deixa de ser premonitória a sentença da já citada “Best Seller”, que dizia que, no final, bandido casa com o mocinho.

Mas os pontos altos eram mesmo as que olhavam para dentro, para trás, ou para o futuro, com a mistura de balanço de vida com testamento de “Banquete de Lixo”: “Meu amigo Marceleza/já me disse com certeza/ não sou nenhuma ficção/ e assim torto de verdade/com amor e com maldade/ um abraço e até outra vez.”

Raul não viveria para ver o relativo sucesso do disco. Morreu aos 44 anos, no dia em que o LP chegava às lojas. Também não viu o resultado daquelas eleições, a iminente queda do Muro de Berlim, a chegada da MTV, os anos 90, a Internet... que talvez poderão ser cantadas por alguém daqui 10 mil anos.


____________________


Ecos da sociedade alternativa: ídolo terá homenagens

As “viúvas” de Raul Seixas vão tirar as barbas de molho hoje. Em São Paulo, está prevista uma grande concentração de malucos beleza em uma caminhada que celebra Raulzito, saindo da frente do Teatro Municipal, em São Paulo, até a Praça da Sé.

A partir de hoje, no Museu Afro Brasil, no Parque do Ibirapuera, está instalada a exposição “Raul Seixas, o Prisioneiro do Rock”, uma homenagem fotográfica ao baiano feita pelo cineasta e fotógrafo Ivan Cardoso, o criador do subgênero “terrir”. São 30 fotografias em grande formato. A entrada é gratuita.

“Quem for ao Museu Afro Brasil, irá ver muito mais do que fotografias do Raul. Verá um instante mágico vivido pelos dois personagens: fotógrafo e fotografado, uma interação alcançada aqui por esse bruxo, esse capeta inquieto e destemido, capaz de ler e ver o infinito das coisas”, disse Emanoel Araújo, diretor do museu, à equipe de divulgação da mostra.

Amanhã, às 13h, na Galeria do Rock (rua 24 de Maio, Centro), será lançado o livro “Raul Seixas - Metamorfose Ambulante”, de Mario Lucena, Laura Hokan e Igor Zinza, com coordenação de Sylvio Passos, presidente do fã-clube de Raul.

O livro, segundo os autores, é “resultado de uma ampla pesquisa sobre os conceitos filosóficos que Raul Seixas usava em suas músicas e cultuava como o niilista do século 19, Arthur Schopenhauer; o hermético Crowley, do século 20, já na fase com Paulo Coelho; e Sartre”. Os autores analisam diversas canções da obra do baiano, como “Trem 103” (1968), “Mosca na Sopa” (1973) até “Nuit” (gravada em 1989, ano da sua morte). Mostra sua proposição da instalação de uma “sociedade kavernista (1971)” (nome de disco que Raulzito fez com Edy Star, Miriam Batucada e Sérgio Sampaio) até a sociedade alternativa de 1977, “um lugar mágico como o castelo de Hogwarts de Harry Porter”, assinalam os escritores.

“Vinte anos depois da sua morte, continuamos descobrindo Raul Seixas - ver, entender e compreender o homem por trás do Maluco Beleza”, disse o escritor Mario Lucena.

Raulzito também vai ao teatro. Às 21h, no Teatro Commune (rua da Consolação, 1218; 11-3476 0792; www.commune.com.br ), estréia o espetáculo “À Espera do Trem das 7”, escrito e encenado por Samuel Luna. Segundo o autor, a peça está estruturada em torno de 16 músicas do baiano, e descreve a sua trajetória artística de um ídolo “que se diluiu em seu próprio sucesso e acabou perdendo a briga para o alcoolismo, morrendo com somente 44 anos, sozinho em seu apartamento”.


____________________


Morte e depois

“A Panela do Diabo”, disco de Raul Seixas em parceria com Marcelo Nova, foi lançado pela Warner Music um dia após sua morte. Raul faleceu em 21 de agosto de 1989, aos 44 anos. Seu corpo foi encontrado às 8h, por sua empregada, Dalva. Ele foi vítima de parada cardíaca: seu alcoolismo, agravado pelo fato de ser diabético, e por não ter tomado insulina na noite anterior, causaram-lhe uma pancreatite aguda fulminante.

O LP “A Panela do Diabo” vendeu 150 mil cópias, o que rendeu a Raul um disco de ouro póstumo, entregue à família e também a Marcelo Nova.

Depois de sua morte, Raul permaneceu nas paradas de sucesso. Foram produzidos vários álbuns póstumos, como “O Baú do Raul” (1992), “Metamorfose Ambulante” (1993), “Documento” (1998), “Anarkilópolis” (2003) e “Raul Seixas - Série BIS Duplo” (2005). Sua penúltima mulher, Kika, já produziu um livro do cantor (“O Baú do Raul”), baseado em escritos dos diários de Raulzito desde os 6 anos até a sua morte.

Na próxima semana, chega às lojas “20 Anos sem Raul Seixas”, kit com um álbum de grandes sucessos e o DVD com o vídeo “Raul Seixas também é Documento”, lançado em VHS, em 98, com 30 minutos de clipes, apresentações em programas e shows, além de imagens de arquivo pessoal. A faixa inédita “Gospel”, censurada pela ditadura militar, é um dos destaques do especial.




publicidade
Projeto Cidade Promoções e Eventos
(SF) © Copyright 2018 Jornal da Cidade - Todos os direitos reservados - Atendimento (14) 3104-3104 - Bauru/SP