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17/10/10 03:00 - Esportes

Pelé de bem com Bauru

Em entrevista na Capital com a presença do JC, o Rei do Futebol revela detalhes inéditos de sua vida na cidade e demonstra simpatia e carinho por Bauru, onde viveu por 12 anos

Marcelo Ferrazoli com Ricardo Santana
Elucidando uma dúvida que paira no ar há décadas, Pelé, definitivamente, está de bem com Bauru. As provas de que o Atleta do Século, e também Rei do Futebol, não se esquece da cidade em que passou parte de sua infância foram dadas anteontem, em uma entrevista de apresentação do Projeto Esportivo Lúdico Escolar, na Capital paulista, com a presença do JC. Pelo menos 35 anos depois de sua última visita oficial ao município – foi em 1975 para receber o título de Cidadão Bauruense – e perto de completar 70 anos – que serão comemorados no próximo sábado, 23 de outubro –, Pelé deu demonstrações claras de que tem, sim, a cidade Coração de São Paulo em pelo menos “um” de seus “três corações” (ele nasceu em Três Corações, em Minas Gerais). E, enquanto Pelé, em São Paulo, revelava detalhes inéditos de sua vida por aqui, em Bauru historiadores e amigos contavam detalhes dos 12 anos (1944 a 1956) vividos pelo Rei na cidade



Desde que cheguei a Bauru, há quase dez anos, por muitas e muitas vezes ouvi pessoas repetindo – e acreditando – que Pelé não gostava de Bauru, onde viveu com seus pais antes de “explodir” e tornar-se um fenômeno do esporte mundial. Os argumentos dos defensores dessa corrente popular, que se transformou em mais do que um tabu, talvez quase uma lenda por aqui, eram de que o Rei adotou o “nunca” para Bauru: nunca a mencionou em suas inúmeras entrevistas, nunca se lembrou dela, nunca mais a visitou após deixá-la para se transferir ao Santos e, resumindo tudo isso, nunca lhe deu a devida importância.



Pois de agora em diante os “seguidores” e “multiplicadores” dessa corrente terão vários motivos para refletirem sobre o assunto e, certamente, mudarem de opinião. Confira a seguir os depoimentos históricos do Rei do Futebol sobre sua ligação com a cidade:







A importância de Bauru



“Nasci em Três Corações, mas minha infância toda foi em Bauru, onde já expliquei o negócio da escola, do surgimento do nome Pelé. E o Aniel (Aniel Chaves, delegado de polícia aposentado), hoje ele é chefe de polícia lá (em Bauru) sempre esteve comigo. Realmente, (Bauru) foi uma coisa muito importante pra mim. Depois teve o Baquinho, que foi um time que o Waldemar de Brito treinou, fez uma excelente equipe que nós viemos jogar em São Paulo, onde me levou para o Santos, com 14 para 15 anos. Realmente Bauru foi toda a minha base de criança, base de jovem, até os 15 anos, 14 anos, quando fui para Santos.”







De primeira, Bauru



Presente ao evento, e com o pensamento – ou seria dúvida? – em mente se o Rei falaria algo sobre Bauru, Pelé me surpreendeu e me deixou atônito logo “de cara”, assim como fazia com os zagueiros adversários, que não cansava de “entortá-los”. Para aqueles que achavam que Pelé nunca falava de Bauru em suas andanças pelo Brasil e mundo afora, o Rei simplesmente iniciou, de primeira, sua participação na coletiva com os jornalistas contando detalhes de sua infância na cidade, como as “peladas” disputadas nas ruas, que não contavam com a aprovação de seu pai, Dondinho.



“Em Bauru, tinha que vender jornal (na época, a molecada vendia os jornais de São Paulo que chegavam a Bauru por trem) e amendoim para comprar uma camisa. Fazíamos jogos na esquina da rua 7 de Setembro com a Rubens Arruda. Os meninos que moravam ali faziam os campinhos e os campeonatos. E eu me lembro, logo que cheguei em Bauru, que meu pai falou: ‘Não tem nada de começar a fazer esses joguinhos não, você vai ter de ir para a escola senão não vai jogar. Fui para o grupo escolar Ernesto Monte, que foi o primeiro grupo que fui estudar, no primeiro ano”, recordou Pelé.









Pelé: a origem do apelido



Em seguida, continuando a falar sobre sua vida em Bauru, Pelé esclareceu a origem do seu apelido. “Eu tinha vindo de Três Corações, onde um goleiro que jogava num time junto com meu pai lá em Minas se chamava Bilé. Eu já tinha ido para a escola, porque meu pai dizia que se não fosse pra escola, não jogava no torneio de rua e, como os garotos não me conheciam direito, não pronunciavam Bilé e me chamavam de Pelé. Isso foi nos primeiros dias da escola, no primeiro ano ou do segundo, não me lembro muito bem, só me lembro que a professora era a dona Lourdes, que era brava pra caramba. Fui registrado como Edson na escola e eu estava orgulhoso por causa do Edson, pois meu pai pôs o nome por causa do Thomas Edson, que era uma figura importante por causa da energia (Thomas Edson inventou a lâmpada)”, contou. E acrescentou:



“Mas um garoto me chamou de Pelé e fui e briguei com ele. Peguei três dias de suspensão, chamaram meu pai e foi uma briga danada. Daí o grupo todo, todos os meninos, começaram a me chamar de Pelé, e aí não teve jeito mais de tirar o apelido. Depois é que você vai começando a imaginar que o que acontece, às vezes, na vida da gente não tem muita explicação. E assim vem acontecendo na minha vida. Muitas vezes as pessoas não sabem e nem a gente sabe por que você é encaminhado para certas coisas.”









Projeto Esportivo



Idealizado por Pelé, o Programa Esportivo Lúdico Escolar é um projeto voltado para a educação esportiva que pretende atingir alunos, professores, gestores e pais das escolas públicas e privadas de todas as regiões do Brasil.



Ele consiste em um programa de aulas direcionado ao aprendizado da atividade física e do esporte, além de enfatizar os benefícios da prática esportiva, mostrar as possibilidades profissionais relacionadas ao esporte e seu papel no convívio social e estimular comportamentos implícitos em seus princípios, como o respeito ao próximo, ao trabalho em equipe, a competitividade, o autocontrole, a disciplina e o companheirismo.



Todo o conteúdo foi desenvolvido com a supervisão de uma equipe multidisciplinar da Magma e da Rede de Ensino Desportivo (www.portalrede.com.br). O programa tem, ao todo, 12 temas diferentes, sendo que cada um aborda um aspecto do universo esportivo em dois módulos.









Confusão na data de nascimento



Questionado pelo repórter Helvidio Mattos, da ESPN, sobre os motivos de sua certidão de nascimento, no cartório de Três Corações, constar a data de 21 de outubro, e não 23 de outubro, como sua data de nascimento, a exemplo do que ocorre nas carteirinhas do Ameriquinha, do Baquinho e do Radium (foto abaixo), Pelé esclareceu o mistério: “Essa é uma das perguntas que faço pra minha mulher e fazia para o meu pai e o meu tio Jorge. Perguntava se eu tinha seis ou oito anos, pois ele era irmão da minha mãe que era de Três Corações. Até hoje ninguém consegue explicar porque nas minhas festas eu comemoro no dia 23 de outubro, mas desde que eu comecei a me entender por gente eu digo que nasci no dia 23 de outubro. Agora, segundo minha mãe, naquela época os registros e os cartórios não eram tão eficientes. Muitas vezes as crianças nasciam e se esperava um mês, dois meses para registrar. Por isso, talvez no registro o cartório fez a confusão, mas nasci realmente no dia 23. Minha mãe disse que estava lá, por isso...”









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Pelé ‘nasceu’ em Bauru







eterno Rei do Futebol, Pelé, completará 70 anos de vida no próximo sábado. A história de Pelé com Bauru é muito rica, ainda que ele tenha estourado para o futebol no Santos, onde chegou em 8 de agosto de 1956, com 15 anos. Durante 12 anos, Edson Arantes do Nascimento, o Pelé, foi alfabetizado e prosseguiu nos estudos, vendeu jornais, colou botas e maravilhou muita gente com a bola nos pés nos campos bauruenses.



O jornalista e diretor da revista Atenção, Luiz Carlos Cordeiro, cita que o próprio Pelé confessou sua relação especial com Bauru, em entrevista para sua publicação mensal: “O Edson nasceu em Três Corações. Mas o Pelé nasceu em Bauru”. As primeiras experiências de vida de Pelé foram em Bauru. Cordeiro ressalta que o garoto aprendeu aqui a ler e escrever, começou a jogar futebol, teve os primeiros amigos, a primeira namorada, jogou nos primeiros times de futebol, calçou a primeira chuteira e vestiu a primeira camisa de futebol.



A relação Bauru-Pelé é reconhecida pela imprensa brasileira que, na última semana, veio à fonte buscar as histórias do Rei para edições comemorativas dos seus 70 anos. Uma das pessoas mais consultadas sobre Pelé em Bauru é o historiador e jornalista Luciano Dias Pires, editor do Bauru Ilustrado, publicação mensal do JC. Pires acompanhou a “carreira” de Pelé em Bauru. Ele afirma que não deixa de ser uma redundância falar que Pelé nasceu para o futebol em Bauru.



O historiador lembra que o pai de Pelé, seo Dondinho, quando atuava pelo Bauru Atlético Clube (BAC), muitas vezes, foi um carrasco do Noroeste marcando gols que deram grandes vitórias frente ao Alvirrubro. Pires acrescenta que Dondinho, pelo excelente futebol, era bem visto pela torcida noroestina. “Em sã consciência, jamais poderíamos negar a Pelé o título de maior jogador do mundo e a sua inesquecível passagem pelo futebol bauruense, inclusive pelo Noroeste”, frisa Pires.









Homenagem ao Rei



Após a conquista do Mundial de 1958 na Suécia, Pelé compareceu a Bauru em julho do mesmo ano, a convite do então prefeito Nicola Avallone Jr. O jogador foi recepcionado com muita festa pelo povo. Luciano Dias Pires relembra que Pelé e familiares chegaram de avião. No entanto, o craque nem chegou a pisar no solo e foi carregado pela população.



Ele faturou uma Romiseta. Em 1962, a Câmara Municipal aprovou a outorga a Pelé do título de “Cidadão Bauruense”. A grande homenagem foi em 1975, quando o jogador recebeu o prêmio no Legislativo bauruense. O Rei do Futebol, consagrado no Santos e na Seleção Brasileira, com três títulos mundiais, disse em um discurso de improviso: “Acabo de receber o título de cidadania bauruense. Agora, sim, posso morrer sossegado”.



Pires comenta que, no período da tarde, ocorreu um jogo no campo do BAC, relembrando a final do Campeonato Juvenil entre Baquinho e Caçula. O historiador explica que o Baquinho venceu a partida por 4 a 3, como o Rei do Futebol anotando três gols.











Noroeste queria Pelé



O Noroeste já estava na Divisão Especial e a cidade não comportava dois times profissionais naquela época. O BAC encerrou suas atividades do futebol profissional e dissolveu o time juvenil. O pai de Pelé, seo Dondinho, foi contratado como auxiliar-técnico do Noroeste e levou Pelé apenas para treinar com os amadores e profissionais do Vermelhinho, como era conhecido o Noroeste. Pelé disputou jogos amistosos com a camisa do Norusca. Em Ibitinga, o Noroeste venceu partida amistosa contra o Esporte Clube Rio Branco por 8 a 0, com Pelé marcando quatro gols.



Pires explica que o Alvirrubro tentou de todas as formas contratar Pelé. No entanto, seo Dondinho recusava as propostas na esperança de que o filho fosse jogar em uma grande equipe. Em uma das tentativas, desembarcou em Bauru Tim, do Bangu, equipe do Rio de Janeiro, com firmeza para levar o jogador. Pelé conta no livro “Eu sou Pelé”, escrito pelo autor de novelas Benedito Rui Barbosa, que ficou muito alegre. O Rei do Futebol explica que a pá de cal nas pretensões de Tim foi dada por sua mãe, dona Celeste.



Havia também a insistência de Waldemar Brito, que não morava mais em Bauru, de levar o menino para o Santos. Brito tinha amizades influentes na equipe da Baixada Santista, como o deputado federal Athiê Jorge Coury, que presidia o Santos (de 1945 até 1971), e Modesto Roma. A mãe de Pelé, dona Celeste, não aceitava que o menino deixasse a família para jogar em uma cidade distante. A insistência de Brito prevaleceu e Pelé, antes de completar 16 anos, abafou já no primeiro treino em Vila Belmiro. Assinou contrato e virou Rei do Futebol.









Dico, Pelé e Gasolina



Na infância, dona Celeste e os familiares chamavam o pequeno Edson pelo carinhoso apelido de Dico. Quando chegou ao Santos em 1956, os zagueiro Wilson começou a chamar o garoto desconhecido pelo apelido de Gasolina.



Mas como o menino Edson ganhou o apelido de Pelé. A explicação mais difundida é de que Pelé derivou de Bilé. Seo Dondinho foi jogar no Vasco da Gama, de São Lourenço, no Sul de Minal Gerais, em 1943. Na região era grande a fama do goleiro José Lino da Conceição Faustino, conhecido como Bilé, do Vasquinho. Todo garoto queria ser como o Bilé, do Vasco. O garoto Dico, com cerca de 3 anos, gostava de brincar de goleiro e, ao agarrar a bola, ouvia-se: “Defende Pelé”. A pronuncia do “P” saia com som de “B”. O Pelé vingou e será eterno.









Capital descobre Pelé



O garoto Pelé jogou na Capital pelo Baquinho em março de 1954. O jogo foi contra o juvenil do Flamengo de São Paulo, no estádio da Rua Javari. A partida era preliminar da disputa pela Segunda Divisão entre a Desportiva de Araraquara e o América de São José do Rio Preto.



O time de Pelé venceu por 12 a 1 com o menino fazendo cinco gols. Luciano Pires comenta que, pelo rádio, pôde perceber que a grande torcida presente na Javari se divertiu com o passeio de Pelé. Milton Camargo, da Rádio Tupi, falou na transmissão que havia “um menino, um centavo vestido de gente, que está fazendo jogadas sensacionais e, cada vez que pega na bola, a torcida fica em pé aplaudindo”. Anos depois, Pires era redator do Diário de São Paulo e da Rádio Tupi, e comentou com Camargo sua manifestação entusiasmado com a performance de Pelé, naquela partida na Javari. “Falei para ele que: ‘Nunca você pensou que estaria falando sobre o jogador que viria ser o maior de todos os tempos.”



Antes do jogo, Pelé protagonizou uma situação engraçada. A delegação do Baquinho chegou e adentrou ao estádio. Maravilhado com a Capital, o menino resolveu comprar amendoim antes de entrar. O jornalista Luiz Carlos Cordeiro relembra que ele foi barrado pelo porteiro que não acreditou que o garoto mirrado fosse jogador. Maninho e Salvador de Almeida foram resgatar o craque do time. “E os caras ainda falaram: ‘Pô, é o nosso principal jogador’. Ele entrou e fez cinco gols”, conta.









O amigo Aniel



Pelé tem muitos amigos em Bauru com os quais protagonizou muitas aventuras. Pelé e Aniel Chaves, 74 anos, cresceram juntos. Uma das várias atividades de Pelé para juntar dinheiro ocorria em um imóvel ao lado da casa de Aniel. O jogador de futebol Pelado, zagueiro do time de várzea América, costurava botas para a fábrica Americanas, localizada na rua Primeiro de Agosto. Aniel conta que Pelé trabalhava colando as botas. “Se não me engano, eram seis pares de cada vez que ele levava na bicicleta até a fábrica”, comenta. Aniel morava na então quadra 3 da avenida Duque de Caxias, posteriormente denominada José Aiello.



O primeiro time que Pelé jogou foi o Ameriquinha, em que atuava Aniel. No fundo da casa de Aniel, seu pai construiu os vestiários do time, onde os meninos se trocavam para jogar futebol. “O que eu gravo do Pelé é o sentimento nobre que ele teve. A amizade desinteressada”, destaca. Além do Ameriquinha, Pelé e Aniel jogaram juntos no Baquinho e no Radium.









O vidente Pelé



Para a tristeza dos torcedores brasileiros em 27 de julho de 1954 o Brasil foi eliminado do Mundial da Suíça ao perder para a Hungria por 4 a 2. Pelo rádio, Pelé e o amigo Maninho ouviram a desclassificação. Os meninos se encontraram após o jogo para ir ao treino do Baquinho e Pelé previu que iria ganhar títulos mundiais para o Brasil.



De acordo com o jornalista Luiz Carlos Cordeiro, Pelé falou para o companheiro que ainda jogaria em um time grande, iria jogar na Seleção Brasileira e ajudar o Brasil a ser campeão do mundo. “Aí, quatro anos depois, ele estava dando chapéu, fazendo gol na Suécia e dando título para o Brasil”, relembra. Essa passagem consta do livro de Cordeiro “Rei Pelé: De Bauru para o Mundo”, lançado em 1998, e que ganhará em breve uma nova publicação ampliada, lançada pela Editora Brasileira e com prefácio do cronista esportivo Orlando Duarte.















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