Bauru e grande região - Quinta-feira, 21 de fevereiro de 2019
máx. 31° / min. 21°
30/09/12 03:00 - Ser

Mendigos de Buda

Em São Paulo, retiro de rua zen-budista faz grupo de empresários, profissionais liberais e estudantes passar quatro dias dormindo sobre papelão e vivendo da boa vontade dos outros

O renomado mestre budista chega para a entrevista, em um hotel de São Paulo, e diz que prefere conversar lá fora. Não para ficar perto da natureza, e sim para fumar seu charuto. “Sou o ‹bad boy› do zen”, avisa Bernie Glassman.

Americano, engenheiro aeronáutico doutorado em matemática pela Universidade da Califórnia, Glassman é reconhecido mesmo por ter criado o budismo “socialmente engajado”. Fundou a ordem Zen Peacemakers e inventou os retiros de rua, como o que acaba de ocorrer em São Paulo. A prática remete ao próprio Buda, que levava monges num treino matinal de mendicância pela Índia.

Glassman, 73 anos, foge do estereótipo de líder espiritual. Não é só o charuto ou o look meio hippie. Ele criou e gere um negócio que fatura hoje US$ 7 milhões por ano.

A padaria Greyston foi aberta há 30 anos em Yonkers, Nova York, região com altos índices de violência. Só foi criada para dar empregos a uma população de sem-teto e usuários de drogas. Hoje, fornece para alguns dos melhores restaurantes e hotéis de Nova York.

“Nós não contratamos pessoas para fazer brownies; nós fazemos brownies para contratar pessoas”, diz o mestre.

O lucro mantém a fundação Greyston Mandala, que engloba projetos de habitação, saúde, creches etc. e atende 2.000 famílias/ano.

O trabalho social dele não para aí. Atua como “clown” em campos de refugiados e faz retiros nos antigos campos de concentração de Auschwitz-Birkenau, na Polônia.

A entrevista a seguir foi feita mês passado, quando Glassman esteve em São Paulo para dar palestras e ajudar a materializar o retiro de rua paulistano.

Reportagem - O senhor sempre quis mudar o mundo?
Bernie Glassman -
Nunca senti que queria mudar o mundo. Nasci num ambiente de socialismo judaico, a ação social sempre esteve arraigada até os ossos em mim. Eu me sinto atraído por situações que não entendo ou me dão medo. Respondo aos ingredientes que tenho diante de mim e preparo com eles a melhor refeição que posso.

Reportagem - Que tipo de aprendizado uma pessoa tira do retiro de rua?
Glassman
- A principal transformação é que, depois de fazer um retiro de rua, você não consegue mais baixar os olhos para as pessoas que vivem na rua. O nível de dignidade que passa a perceber em todos os seres humanos aumenta incrivelmente. Você também aprende a viver o momento.

Reportagem - Mas deve ser uma experiência depressiva e assustadora...
Glassman -
Muita gente tem medo, especialmente da sensação de não estar no controle, de não estar em um espaço bem conhecido. Mas nunca estamos realmente no controle. Quando a pessoa tem essa percepção e fica bem com isso, há o crescimento espiritual.

Reportagem - Qual o propósito de retiros em campos de concentração? Como é meditar em Auschwitz?
Glassman -
Lembrar dos que morreram ou passaram por coisas horríveis e do trauma dos que infligiram essas coisas horríveis aos outros e viveram e morreram com isso. Também há a experiência de estar com pessoas de diferentes culturas e compartilhar sensações e pensamentos. Os participantes incluem sobreviventes e seus parentes, parentes dos nazistas, gente de várias culturas e de muitos países. Enquanto meditamos, sentimos a presença de muitas almas nos acolhendo.

Reportagem - Como é o clima entre descendentes de vítimas e nazistas?
Glassman
- Há descendentes de vítimas que disseram que relutaram em ir, com medo de encontrar descendentes de nazistas. Há descendentes de nazistas que também relutaram, com medo de encontrar sobreviventes e descendentes de vítimas. No fim, há pessoas de ambos os lados que ficaram muito próximas nos retiros. Por meio do Zen Peacemakers, também promovemos esse tipo de diálogo entre judeus e palestinos.

Reportagem - Como teve a ideia de criar uma padaria para empregar sem-teto? Por que bolos em vez de parafusos ou roupas?
Glassman -
Eu queria um espaço de capacitação profissional para os estudantes de zen. Fiz uma lista de critérios que o projeto deveria atender: aceitar trabalhadores sem experiência, ter potencial para sustentar o centro zen, fazer produtos de alta qualidade e ser socialmente responsável. Não tínhamos experiência com padaria, mas vários dos nossos estudantes de zen eram maravilhosos cozinheiros e padeiros. Também havia a padaria de uma irmã do grupo zen em São Francisco disposta a nos treinar.

Reportagem - Vocês contratam gente que não conseguiria emprego de outra forma. Já tiveram problemas com excesso de faltas, uso de drogas, roubos?
Glassman -
Todos sabem que o salário é por produção. Se você produz mais, ganha mais. Isso é parte do treinamento zen, você aprende que um depende do outro, que estamos todos conectados. Mas é claro que já tivemos problemas, como qualquer empresa. Se for preciso, a pessoa é demitida.

Reportagem - O que é preciso para começar um negócio assim? Já que não se trata só de caridade, o que é necessário para dar certo?
Glassman
- Primeiro, é preciso capital inicial suficiente. Também precisará de um “campeão da visão”, alguém que continuará tocando o barco com energia pelos altos e baixos que vão surgir. Sempre haverá altos e baixos. A vida é como um oceano, feita de altos e baixos, de coisas boas e ruins. É como o nosso corpo: uma hora está bem, uma hora começa a decair.

Reportagem - Você crê que um dia a pobreza vá ser extinta do mundo?
Glassman -
Não, eu não acredito em utopias. Isso não significa que não existam objetivos a serem perseguidos, há coisas que precisam ser feitas.




publicidade
Projeto Cidade Promoções e Eventos
(SF) © Copyright 2019 Jornal da Cidade - Todos os direitos reservados - Atendimento (14) 3104-3104 - Bauru/SP