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13/01/18 07:00 - Opinião

Terrorismo

Roberto Magalhães

Cuidar da saúde é fundamental. Depois de uma certa idade, então... À medida que as velinhas foram tomando conta do meu bolo, intensifiquei cuidados: geriatra, cardiologista, urologista, reumatologista... Outros "istas" também, porque muitos males não gostam de agenda. Os comprimidos diários reproduziram-se de tal forma que fui obrigado a colocá-los numa caixa bem maior, numa de sapato 44. Na tampa, colei os respectivos horários para que deles não se esquecesse a minha garganta. Pilates, caminhada diária e horário regrado de sono completam o meu projeto saúde. Quero viver muito. Muito mais do muito que vivi. Nada disso me garante, eu sei. Só Aquele, que, lá de cima, manipula nossos cordões, sabe a exata hora de as cortinas fecharem. Por enquanto, em cena bufa, continuo.

"Alô, é o professor Roberto? Tenho novidades. Não faremos mais avaliações por telefone. O senhor foi incluído no Programa Melhor Idade. Agora, farei as avaliações médicas mensalmente na sua residência." Era a Maria da Graça, a simpática enfermeira do meu plano de saúde, que parece muito preocupada comigo.

Na data agendada, eu a conheci. Era pessoalmente a simpatia que eu conhecia por telefone. Eu não pagaria nada, mais um benefício do convênio. Ela me avaliaria a pressão arterial, me furaria o dedo, faria perguntinhas rotineiras. Eu concordava com tudo, tranquilo e sorridente. Até que do nada, ela disse que me submeteria a alguns testes para detectar possível início de demências, dessas que costumam aparecer na "melhor idade". Citou algumas, terríveis. Meu coração disparou. O quê? Então, meu cérebro, já desmemoriado e confuso, seria testado? E se ele, o meu cérebro, que, no final das contas, sou eu mesmo, fosse reprovado? Terrorismo. Entrei em pânico.

"Professor, as perguntinhas são simplesinhas. Que dia da semana é hoje?" Cobrei do meu cérebro. O desgraçado não respondeu. Branco total. Entrei em parafuso. Pedi socorro celestial e o milagre se deu. Um jornal, dobrado sobre a mesa, cochichou-me: "primeiro de dezembro, sexta-feira". Era a cola salvadora. Depois, justifiquei a lerdeza. Estava em férias, nenhum compromisso, sabe como é... Os dias acabam sendo iguais, melhor que não anotasse nada no relatório. Quando ela se distraiu, coloquei o jornal na gaveta. Ufa!

O que mais ela poderia me perguntar? Numa velocidade de supercomputador, comecei a me programar. Relembrei meu nome completo, CPF, RG, nome do meu pai, da minha mãe, o braço esquerdo era o do relógio, eu era casado, o nome da minha esposa, o nome dos meus filhos, nervoso recontei os netos, batata com carne assada, o meu almoço, Madona, a minha cadela, era corintiano e tinha na ponta da língua a escalação (isso eu não erraria nunca!).

Para meu alívio, acertei as duas perguntinhas que não constavam da lista: a data do meu aniversário e quem era o presidente do País (para alguma coisa ele tem que servir). Depois, perguntou-me se eu tomava banho sozinho. Não gostei. Perguntinha sacana, ambígua. Tinha quedas frequentes? A casa tinha corrimãos? Tapetes perigosos? Adaptações no banheiro? Nunca me soube tão velho. Era um ancião centenário, desses medalhados em concurso de pé na estrada. Simpática merda nenhuma, Maria da Graça era terrorista do Estado Islâmico. Se ela explodisse, não me surpreenderia. Claro que não.

Depois, mandou-me desenhar um relógio com os números dentro. Mal educadamente, respondi que não conhecia relógio com números fora. Ela me disse que alguns pacientes, já apresentando sintomas demenciais, desenharam assim. Não gostei do meu desenho, mas cuidei de conferir se os números estavam do lado de dentro. Estavam.

Depois, ela me disse: "Ah, essa o professor vai tirar de letra: uma frase usando três substantivos. Pensei, com os meus botões gramaticais, agora me vingo. Afinal, passei a vida inteira escrevendo frases e ensinando os alunos a frasear. "Anota aí, professor, as palavrinhas: cachorro, poste e mesa." Desgraçada! O que eu faria com essa mesa? Cachorro e poste tudo bem, mas mesa... Era, sim, terrorista. Com suor e dor, consegui dar à luz essa preciosidade: "O cachorro que está sob a mesa mijou antes no poste." Frase idiota, mas foi o que deu pra fazer. Ufa! Despedimo-nos friamente. Ela agendou nova visita. Sabe quando? Nunca! Ainda hoje, cancelarei esse maldito plano de saúde. Coisa de louco, meu!

O autor é professor de redação e membro da Academia Bauruense de Letras - [email protected]





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