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10/08/18 07:00 - Opinião

Punir para absolver

Roberto Magalhães

Não confie na voz que acusa, mesmo que essa voz seja a sua e o acusado, você mesmo. Sob o peso da culpa, é normal a autoacusação. Tudo pode, porém, ser apenas um jogo tramado, um faz de conta. Por incrível que pareça, tal acusação não se destina a condená-lo, mas a absolvê-lo. O cérebro, assim como o coração, tem razões que a própria razão desconhece.

Num poema narrativo, Bertold Brecht evidencia essa duplicidade de vozes interiores: a que manda fazer e a que condena o que foi feito. Diz o poema que numa viagem tranquila, em carro confortável, surge, ao cair da noite, a imagem de um homem rústico que, com gesto humilde, pede carona. O narrador motorista bem poderia levá-lo, mas a voz interior reprova a ideia, melhor seguir sozinho. Depois, essa decisão não escapará da condenação: "Tínhamos avançado já boa distância, um dia de viagem talvez, quando subitamente fiquei chocado com essa voz minha, com este comportamento meu e todo este mundo".

Uma voz manda fazer, a outra condena o feito. A voz julgadora, a nossa voz ética, censura o que de errado fazemos e por isso nos condena. É o suficiente para que, depois de algum sofrimento, nossa consciência seja aliviada. O jogo tramado é este: o fato de nos condenarmos recoloca em cena o homem bom que achamos ser. Pronto, é o necessário para nos absolver. É como o jogo inteligente das mãos: uma escreve o que não devia; a outra não se demora em apagá-lo. Em verdade, aquilo que fazemos jamais poderá ser inteiramente apagado, mas o simples reconhecimento do mal praticado já é forma de esmaecer o risco do giz. Nada diferente da velha historia de que uma mão precisa lavar a outra.

Passado algum tempo, imaginemos outro pedido de carona. Quem pode garantir que, agora, o motorista adotará comportamento diferente? Estará ele realmente convertido ou repetirá o mesmo ato egoísta de recusa? Não são poucas as vezes em que fincamos a certeza de que, na próxima vez, faremos tudo diferente; depois, acabamos repetindo exatamente o que condenamos. Em relação a essa duplicidade de vozes, Eduardo Giannetti, em Autoengano, faz interessante observação. Essas vozes "podem ser, perfeitamente, aspectos complementares e inseparáveis - dois lados - da mesma voz: a voz boa enquanto a oportunidade de fazer o bem é confortavelmente abstrata e a voz má nos momentos em que ela é incomodamente concreta". O que penso agora, estando longe da maçã, bem diferente poderá ser quando dela estiver próximo. É uma questão de fome e de distância.

Se a ocasião faz o ladrão, longe dela o santo se faz. À distância é sempre fácil nos vermos virtuosos e nos pensarmos solidários. Mais fácil ainda é o outro condenar. Agora, quando a tentação se põe à nossa frente e nela caímos, haveremos sim de nos condenar. Faz parte do jogo, a estratégia é exatamente esta: precisamos nos punir para que possamos nos absolver. Nosso cérebro, apaixonado por nós mesmos, sabe arquitetar, ainda que por linhas tortas, jeitinhos de nos proteger. E, como muito nos ama, por nós tudo é capaz de fazer.

O autor é professor de redação e autor de obras didáticas e ficcionais - [email protected]





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