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12/10/18 07:00 - Opinião

Crianças do mundo

Cinthya Nunes

Mais um dia das crianças e lá vou eu comprar presentes para sobrinhos e afilhado. Com idades entre 11 e 6 anos, ainda estão naquela fase em que preferem ganhar brinquedos. Admito que tenho dificuldades em escolher o que comprar, já que se não faltam opções em termos de variedade, os valores não são exatamente atrativos.

Esse ano não foi diferente. Fiquei bastante tempo escolhendo o que daria para cada um e entre bonecas e jogos, encontrei uma releitura de um brinquedo da minha infância: O Genius. Uma de minhas amigas tinha um deles em casa e era sempre um evento quando ela nos deixava brincar. Passei muitos anos desejando ter um e agora, em que posso compra-lo, não tenho tempo para isso.

É inegável que as crianças de hoje tem milhões de opções de presentes, mas é claro que para isso é preciso que tenham quem os possa comprar. Infelizmente, no entanto, muitas crianças sequer tem quem olhe por elas, quem se importe de fato. Enquanto para algumas o dilema seja ganhar ou não o que se gosta, para outras a questão é muito mais complexa e mais dolorosa.

A realidade de uma imensa quantidade de crianças envolve abandono, descaso, pobreza extrema e até mesmo maus tratos. Esse triste contexto nem de longe é exclusivo do Brasil, embora para essas bandas muito se veja disso também.

A desigualdade social tem marcas mais sólidas e profundas quando se anuncia entre as crianças. Inexplicável o sentimento de impotência diante de crianças privadas de quase tudo, material e emocionalmente.

Olho para meus sobrinhos, cercados de tantos brinquedos, muitos deles pouquíssimo usados e constato que nem de longe é isso que faz dessas crianças seres humanos privilegiados, mas sim o fato de crescerem amparados pelo amor de família, por terem a quem pedir ajuda, amparo.

Outros tantos não tem a mesma sorte e vivem de migalhas de afeto, se tanto. Ainda que seja muito gostoso ganhar presentes, que seja recompensador ver o sorriso dos pequenos enquanto desembrulham mais um brinquedo, é desalentador pensar que o dia das crianças basicamente se resume a consumir, esvaziado de maiores significados.

Acredito que é passada a hora de olharmos para o futuro que projetamos, considerando a forma como tratamos as crianças, essencialmente as menos favorecidas.

Quando passo por uma criança ou por um adolescente que perambula pelas ruas, sem alento, reflito qual o meu papel nisso tudo e o quanto, de um jeito ou de outro, não estou me omitindo criminosamente. Perdida nesses pensamentos, retorno a minha infância e sou de novo a menina encantada com o jogo de luzes do Genius. Tudo era uma questão de acertar as cores e como elas se repetiam.

Tudo era mais simples, mais fácil. Bastava ser criança e aquele era meu dia. Agora, sou adulta e nem um dia me pertence completamente, eis que os divido com a impotência do pouco que faça pelo outro, pelas crianças do mundo.

A autora é advogada, jornalista e professora universitária: [email protected]





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