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09/11/18 07:00 - Opinião

Modelo de uma vitrine só

Alexandre Benegas

Nos cabelos em ordem, nos penteados exatos, a imagem limpa, lisa e condensada. No perfume borrifado, flagrante fragrância da higiene comportada. A roupa, alinhada à cor da costumeira elegância. O sobrenome, um pedigree como atestado de poder. Nesse universo de colecionadores de espelhos, de guardadores de imagens, há muito pavão - que pena! - sob bico de águia. Por isso, aos que trazem a alma vaidosamente vestida, o Orgulho, em espetáculos de si mesmo, sorri entre os pecados capitais com expressiva relevância.

Segundo o filósofo São Tomás de Aquino, o pecado isoladamente fora estudado, por ser o mais nocivo. Do latim 'superbia' e 'vanitas', a transgressão divina, preocupada com a imagem, ganhou sinônimo de vaidade. Inúmeras foram as alusões ao conceito. Shakespeare, na obra Coriolano, destaca: "Que acontece, marotos rezingueiros, que de tanto coçar a pobre crosta da vaidade vos transformais em sarna?" Em Eclesiastes, encontramos: "Vaidade, Tudo é vaidade. Que proveito tem o homem, de todo o seu trabalho, que faz debaixo do sol? Uma geração vai, e outra vem; mas a terra para sempre permanece. Nasce o sol, e o sol se põe, e apressa-se e volta ao seu lugar de onde nasceu. Todas as coisas são trabalhosas; o homem não o pode exprimir; os olhos não se fartam de ver, nem ouvidos se enchem de ouvir. O que foi, isso é o que há de ser; e o que se fez, isso se fará; de modo que nada há de novo debaixo do sol."

Viver é ser visto, visto que ver é viver. A vaidade do mundo é parecer para todo o mundo quão importante e interessante somos, ainda que toda felicidade exibida seja ou esteja falaciosa. A vaidade da vida moderna é vitrinizar sucesso, a superioridade de uma classe social sobre a outra. Aparentar é preciso. Nesta convivência cosmética, neste relacionamento líquido inexistem exibições de doenças, cólicas, desordens intestinais e disfunção erétil. Pudera! No espelho de Narciso, envelhecedora é a moldura, jamais a imagem. Desta forma, oportuniza-se a criação do Homem Fugaz, envaidecido na fotografia da vaidade. Um indivíduo individuado. Um anti-Hamlet, convicto na tese do aparecer ou não aparecer, de postar ou não postar eis a questão. Nesta busca pela satisfação incondicional, substitui-se o mérito pela fama, teatralizando aos outros quão dilatada é nossa autoestima. Também impensável falhar. Impossível entristecer-se. Antigamente, o fracasso, a queda eram passaportes seguros para o crescimento do caráter, para a consolidação da fé. Aprendia-se a levantar com as quedas. Agora, inadmissível cair. Humilhante seria para vaidade do empreendedorismo 'coach'.

E neste ir sem vir de brevidades, a vaidade catalogou nova forma de convivência. No lugar de consertar roupas, sapatos e relacionamentos, trocamo-los. Substituímos a dor do desgaste emocional pela vaidade da novidade triunfal. Até porque o outro, sendo nosso espelho, reflete sincera imagem, legítimo reflexo da nossa intolerância, das nossas imperfeições. Portanto, mais cômodo julgar a vaidade de outros. A nossa, ofensiva é. Também, o que antes era considerado pecado, hoje tornou-se, um fomento motivacional à autoestima, ou melhor, uma instituição, uma marca, um rico vício da miséria humana, uma confiança irrestrita do nosso próprio verbo à desculpa. Uma verdade da nossa social mentira.

Por tudo isso, aos que ainda ostentam na convivência para conviver em ostentação, esquecem-se de que circular os empréstimos de Deus, no que nos foram creditados em abundância, renova o nosso caminho. Utensílio inútil em nosso lar é utilidade em casa alheia. Dessa forma, retirar da prateleira gêneros alimentícios, que descansam esquecidos para a distribuição fraterna aos estômagos atormentados. Revisitar o guarda-roupa, dando liberdade aos cabides cansados das roupas que não nos vestem mais. Estender os pares de sapatos aos pés descalços em derredor. Eliminar da mobília objetos excedentes, mumificados, que repousam inutilmente em nossa casa. Transformar em propriedade alheia livros virgens, adormecidos sob a companhia da poeira. Espetáculos, sem plateia, capazes de renovar os semelhantes por aquilo que és.





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