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30/11/18 07:00 - Opinião

Somos o futuro do passado

Maria da Glória De Rosa

Como seria sensacional se todas as coisas que aprendemos ficassem gravadas para sempre em nossa memória. Mas, é muito mais o que se perde do que o que se fixa. Tantos livros lidos, tantas ideias interessantes colhidas nas lições dos professores, nos conselhos dos pais, nas conferências ouvidas! O que restou disso tudo em termos percentuais? Pouca coisa. Ficasse tudo armazenado na memória, no coração, na inteligência, nos sentimentos, que grandes seres humanos não seríamos? Acrescente-se a isso mais uma provocação: nem tudo que aprendemos é posto em prática, transforma-se em ação. Quantas vezes agimos contrariamente ao que nos foi ensinado em casa, na escola, na igreja. Inconscientemente, comportamo-nos mal, fazemos coisas em desacordo com o que a vida devagar nos ensinou. Movidos por uma força irracional, praticamos inconveniências, atos contrários ao aprendido. Além disso, ainda, muitas vezes, torcemos os fatos de tal maneira, a ponto de colocarmos nossos pontos de vista em lugar da verdade. Principalmente se esse desvirtuamento trouxer-nos benefícios.

Nada melhor do que o momento político que o Brasil atravessa para ilustrar nosso pensamento. Rememorando o que lemos e ouvimos, ficou-nos a lição de que todo poder político é um "poder de dominação". Implica autoridade e subordinação, mas é necessário admitir-se também que é normal a ameaça constante à autoridade e o fato de que nenhuma subordinação é completa. Sob esse aspecto - de lutas em torno do poder --, estabelece-se que: assim como para a ética os conceitos fundamentais são o bem e o mal, para a estética, o belo e o feio, para a esfera do político figuram as categorias de correligionário e adversário. Até aqui, tudo bem. A partir desse ponto, porém, é preciso considerar a ameaça do caráter, pendores, inclinações de cada um. Dentro dessa ótica, os termos correligionários e adversários podem ganhar significados diferentes para os membros do grupo.

Os partidos deveriam existir como "corretores", atraindo as pessoas para um terreno em que possam entender-se para a aplicação de uma política comum. É aí que mora o perigo. Partidos que se organizam para representar-se e defender interesses de grupos consideráveis, acabam por transformar-se em perigosas comunidades de interesse privado, quer por vícios originários de caráter, quer por pressões de organizações parasitárias que se formam para conquista do poder, mais para explorá-lo em proveito de seus membros do que para agir como instrumento de aspirações públicas. É sempre o que ocorre quando, em uma determinada sociedade, falta à democracia política o substrato social, econômico e cultural: ou se organizam ou acabam por transformar-se em bandos montados somente para fins eleitorais e praticamente incapazes de agir movidos por impulsos de interesse coletivo. Os partidos podem, sim, "degenerar" e apresentar-se sob uma forma patológica ou anormal. Aí já não são mais partidos, mas "facções" com seus propósitos particulares, sem programas superiores e por seus meios ilegais e ilegítimos para chegar ao poder ou para manter-se nele por décadas. Eles passam a constituir aquilo que muitos sociólogos chamam de caldo de cultura para o germe que dará nascimento ao partido revolucionário - fascista, comunista etc.

Foi isso que ocorreu no Brasil destes últimos anos, quando o partido dominante entrou em desequilíbrio, em decomposição - um dos sintomas da crise da democracia. São ocasiões propícias ao aparecimento dos regimes de força, com a consequente supressão de direitos da população como poder de voto ou censura dos meios de comunicação. A preponderância dos interesses particularistas ou de grupos levam os partidos a "parasitar", a tirar proveito de alguma coisa, a explorar a administração pública, em lugar de servi-la, desprestigiando-se a si mesmos.

O que fomos ontem se reflete no hoje. E tudo que acontece na vida de um país ou mesmo de um ser humano com certeza repercutirá no futuro. Nesses tempos bicudos, que marcaram as eleições recentemente realizadas em nosso país, pudemos sentir alguns reflexos das ideias expendidas neste texto. Primeiro, o domínio de um partido que, pretendendo "morar" no poder, acabou desvirtuando-se e decepcionando a muitos. Segundo, essa noção do interesse geral - obnubilada pelos inquilinos pretensamente permanentes de uma casa que não lhes pertencia -- revelou-se aos olhos da nação como uma qualidade adquirida pela formação moral e intelectual, apanágio de poucos e que não deve jamais ser desconsiderada. E algumas dessas noções experimentadas pela consciência do povo, nas horas em que a pátria estava em perigo, produziram uma coincidência do interesse particular com o geral, gerando a ilusão de um só pensamento: a melhoria da totalidade da nação. Foi simplesmente isso que aconteceu nesta última eleição.

A autora é pedagoga, jornalista, advogada, professora doutora aposentada da Unesp - [email protected]





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