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02/12/18 07:00 - Opinião

Corrupção, ineficiência e desperdício

Zarcillo Barbosa

Imagine-se num país onde a polícia invade o palácio do governador, logo pela manhã, com um mandado de prisão. O delegado que chefia a captura, em consideração à majestade do cargo do acusado, até permite que ele termine o café da manhã e dê adeus aos pãezinhos de queijo, antes de seguir escoltado para a prisão. Para nossa vergonha, esse país existe, chama-se Brasil. A cena que descrevemos é cada vez mais frequente. A única novidade, dessa vez, foi a prisão ter se efetuado no Palácio da Guanabara e o preso estar em pleno exercício do cargo de Governador do Estado.

"Operação Boca de Lobo". Bem a propósito. Trata-se da entrada da tubulação por onde se escoa a sujeira das ruas. Todos os governadores do Rio, eleitos de 1998 até a última eleição, estão ou foram presos: Anthony Garotinho, Rosinha Garotinho, Sergio Cabral e, agora, Luiz Fernando Pezão - para alegria dos humoristas.

Na Assembleia Legislativa do Rio, todos os presidentes da Casa, entre 1995 e 2017, ouviram voz de prisão: Sérgio Cabral, também ex-governador; Jorge Picciani e Paulo Melo. Ocorreu o mesmo com dez dos 70 deputados estaduais. No Tribunal de Contas do Estado, cinco dos seis conselheiros foram pelo mesmo caminho. De quebra, um procurador de Justiça também foi preso. Na delação premiada, Carlos Miranda, o "homem da mala" de Sérgio Cabral, entregou as fabulosas somas movimentadas em dinheiro vivo: coisa de R$ 40 milhões. Pezão participava do esquema com pagamentos mensais e com direito a 13º salário. O lado trágico é que o Rio se debate em grave crise fiscal, produzido pelo desregramento financeiro.

Nem de longe o povo brasileiro pode admitir que essa cultura criminosa contamine os novos donos do poder a partir do ano que vem. Em São Paulo, o cerco se aperta com novas delações que envolvem esquemas de caixa 2 para lastrear campanhas eleitorais, envolvendo cardeais tucanos da plumagem de José Serra e Geraldo Alckmin. Vamos aguardar. Quem deve, paga. É a lei. A observação vale também para a quase totalidade dos 5.570 municípios.

O futuro governo Jair Bolsonaro enche os brasileiros de esperança, com seu discurso imperativo sobre a necessidade de aplicação de práticas éticas e legais. Cercado de altas patentes militares da reserva, para auxiliá-lo, deixa claro suas boas intenções. Militares não são incorruptíveis, como o próximo presidente reconhece, mas, pelo menos, são mais difíceis de se corromper. A vida na caserna, o patriotismo sempre invocado na carreira, o conhecimento dos grotões pobres do país deve ter servido para forjar caracteres.

Muito já se falou sobre a diminuição do Estado, como única forma de livrar as três esferas da Federação, não só de dirigentes corruptos, mas também da ineficiência do sistema produtivo. Há também, a considerar, o desperdício, mau gerenciamento, baixa qualidade dos serviços, alto endividamento e falência financeira. Desses vícios, muitos entendem, somente nos livraremos com a minimização do Estado. Chamam a isto de neoliberalismo. Margareth Thatcher usou a receita, na Inglaterra, com sucesso. Aos governos caberiam somente as tarefas que os particulares não querem: defesa nacional, administração da Justiça, socorro às vítimas das catástrofes naturais e o combate a epidemias. Também não precisa ser tão mínimo assim. As autoridades, delegadas pelo voto, têm que dar conta das estradas, transportes públicos, hospitais, escolas, prédios administrativos. O dinheiro do contribuinte precisa ser devolvido ao coletivo, e aos carentes.

Ninguém poderá exigir de Bolsonaro que, em um mandato, consiga nos livrar dessa engenhoca atrasada em que se tornou a máquina pública. Será um trabalho para vários governos. A mudança terá que ser cultural. O primeiro momento exigirá determinação, para neutralizar o lobby forte dos servidores, remunerados muito acima da média de seus equivalentes no setor privado. Haverá reações à perda de aposentadorias integrais e da estabilidade no emprego sem avaliação de competência e produtividade. Na era da inteligência artificial, ainda temos ascensoristas e servidores de cafezinho ganhando mais de R$10 mil mensais. A elevação do teto de remuneração no setor público, passa de R$33,7 mil para mais de R$39 mil, com o reajuste dado aos ministros do Supremo. A inflação está em menos de 4,5% ao ano. Um escárnio para 12,5 milhões de trabalhadores que amargam o desemprego.

Não há soluções rápidas e muito menos fáceis. Os novos governantes terão que adotar uma nova maneira de encarar a coisa pública e a lógica do setor estatal. Vai demorar a surtir efeitos. O importante é começar.





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