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02/12/18 07:00 - Tribuna do Leitor

50 anos depois: Elvis, Luther King e o sonho.

Oscar Neto

03 de dezembro de 1968: o relógio marcava 21h e naquele instante ia ao ar a coroação de retorno artístico definitivo de um dos mais importantes artistas americanos - e não apenas isso, mas um dos mais importantes catalizadores culturais que o mundo vira.

Dez anos antes havia revolucionado a música popular. Indiferente às cartilhas condicionantes vigentes, aos ufanismos de uma sociedade conservadora, e indisposta em seu supremacismo branco anglo-saxão, fecharia as cortinas do macarthismo e do conservadorismo, dando início ao espírito que simbolizaria as décadas seguintes, que mudaria a música, o mundo e consequentemente até o modo de tratar o próximo.

Em sua derradeira aparição televisiva antes de partir para o exílio de 10 anos entre o serviço militar nas bases da Otan e a rotina de 3 dezenas de filmes que agora finalmente estava encerrando, escolhera como última interpretação, mensagem e conforto ao público uma canção gospel que sua mãe estimava, Peace In The Valey. Para este registro de retorno não seria diferente. Algo especial seria incisivamente escolhido, mesmo contra as orientações do Coronel, seu empresário.

Muitas coisas haviam mudado neste tempo todo, entretanto as resistências, as atitudes de reação às políticas de integração social e racial dos Kennedy ainda persistiam, postura ainda mais presente no Sul, sobretudo no Alabama, onde se destacou o governador populista George Wallace, notório em razão de suas declarações e bandeiras agressivas, indelicadas e politicamente incorretas, as quais seus entusiastas justificavam como "mera força de expressão" - não eram. Tal projeção o levaria a status mitológico, folclórico, ao mesmo tempo que o tornaria alvo do clima que instilava: sobreviveria anos depois a um atentado a tiros que lhe tiraria para sempre a mobilidade das pernas, mas não a brutalidade das palavras e de ações - estas ao menos por um tempo... Todo interesse em diminuição de mazelas, aumento de liberdade sexual ou de expressão de solidariedade a grupos ou entes vulneráveis, toda postulação acerca de acolhimento aos indigentes da vida, aos refugiados da Terra ou de direitos humanos lhe eram taxativa e convictamente absolutas "expressões de comunismo". Declararia: "o presidente (John F. Kennedy) quer que nós entreguemos este estado a Martin Luther King e seu grupo de pró-comunistas que instituíram essas manifestações", se referindo ao ministro protestante, incansável apologista da não-violência e de amor ao próximo e defensor de que esta é a mensagem do Evangelho, assim como líder do movimento de reconhecimento de que, apesar de avanços, muito ainda havia por se fazer para haver verdadeira irmandade entre os americanos.

Convicto de tal, para seu evento televisivo de retorno, a escolha de Elvis para música de encerramento cairia justamente sobre a mensagem-base deste tenaz pastor batista, cujo covarde assassinato, assim como o de Bob Kennedy, naquele mesmo ano, lhe havia arrancado lágrimas. Estava decidido: a mensagem de não-violência do "eu tenho um sonho" de King seria referenciada ao público naquela noite especial, na canção If I Can Dream.

"Se eu posso sonhar com uma terra melhor, onde todos os meus irmãos caminham de mãos dadas[...]; deve haver paz e compreensão algum dia; Ventos fortes da promessa que soprarão longe a dúvida e o medo". E estes ventos soprariam ao próprio Wallace, levando para longe o medo do outro, do diferente, o medo de seu próximo: ao final dos anos 70 se tornaria um "born-again christian", um nascido de novo, tocado pelas mesmas palavras que haviam não só tocado, mas movido o reverendo King, que no passado hostilizara. Corajosas declarações públicas de seu arrependimento seriam apresentadas por Wallace, que passaria a contar com a consideração até mesmo pelas minorias que hostilizara. Em suas quebrantadas palavras passava agora a buscar "o amor e o perdão" - compreendera que estas são as duas palavras-chaves da mensagem de Jesus, apresentadas no Evangelho e também por King à minorias, à maiorias, a brancos e negros.

Uma grande escolha de Elvis - e que agora, 50 anos depois, continua a soprar, pois palavras vivas. Que esta mensagem sopre, ainda hoje e por muito tempo, pois eu tenho um sonho: "Eu tenho um sonho de que um dia, esta nação se erguerá e viverá o verdadeiro significado de seus princípios" (Martin Luther King Jr).

 





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