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05/12/18 07:00 - Opinião

A mula emocional que habita em nós

Luciano Olavo da Silva

Assim como a gasolina é a energia que move um carro, a emoção é a energia que nos move pela vida. Não por acaso, a etimologia da palavra nos indica o que ela significa: "emoção = mover para fora". Cada pequeno movimento físico ou psicológico que nos faz sair de nós mesmos para nos expressarmos no mundo tem sua gênese em uma emoção consciente ou inconsciente. Disso não podemos e certamente não queremos fugir, sob pena de nos transformarmos em autômatos.

Contudo, não podemos simplesmente atirar energia motora sobre um carro e esperar que ocorra algo útil. Haverá uma explosão ou um incêndio e, na melhor das hipóteses, o desperdício improdutivo da energia que espalhamos. A gasolina, para ser aproveitada de modo adequado, precisa antes ser mediada pelo motor, que a transforma em algo controlável, seguro e útil, permitindo que o veículo tenha movimento direcionado, não uma explosão autodestrutiva.

Nossos sentimentos, como força motora que são, também precisam ser mediados. A mediação é feita pela razão, que dá à energia emocional disciplina, direção e utilidade, permitindo que possamos nos mover pela vida com a segurança possível, sem fazer de nossas emoções um perigo para nós mesmos e todos em volta. Emoção sem controle racional é império de paixões destrutivas, de cegueiras passionais, de vícios e dos autoenganos com os quais nos sabotamos.

Razão e emoção não são habilidades antagônicas, mas necessariamente complementares. Quem exagera na emoção em detrimento da razão é um galão de combustível pronto para explodir, queimando tudo ao redor; que perde o contato com as emoções e exacerba o aprofundamento racional, provavelmente ingressará no imobilismo niilista ou nas psicopatias desumanizantes. Como disse Aristóteles, a virtude está no ponto médio entre os extremos. É triste, no entanto, perceber que o ponto médio tem se tornado cada vez mais raro, ao contrário do que se poderia esperar com a difusão de informações e liberdade de pensamento contemporâneos.

Preguiça, comodismo e estilo de vida apressado, bem como as doenças sociais do "coitadismo" e do "vitimismo", nos afastam da razão, da leitura de qualidade, da análise criteriosa dos fatos, do cálculo finalístico e da ponderação ética fundamentada. Então, na ânsia por preenchermos o vazio de conteúdo e aliviarmos a culpa pela omissão, buscamos nas redes sociais os breves comentários dos sofistas da moda, que nada mais desejam além de dizer o que todos esperam ouvir, pois assim tornam-se populares e bons vendedores de si mesmos. Também buscamos os "posts", com suas técnicas de marketing digital que abusam dos apelos emocionais nas "frases lacradoras" ou nas notícias falsas que, tal como os sofistas, ganham dimensão pelo simples fato de difundirem as mentiras que todos desejam. Tudo não passa de lucrativa exploração dos vaidosos sentimentos alheios.

É assim que o combustível emocional das pessoas, apartado da razão, transmuta-se em bombas incendiárias que ocasionalmente explodem, por exemplo, na forma de um menor delinquente linchado ou no apoiamento irresponsável ao criminoso corrupto que gerou o delinquente; na forma do imoralismo inconsequente e desagregador denunciado há tempos por Durkheim ou na forma de censura autoritária e enquadramento da arte; na forma de alinhamento com uma economia nitidamente improdutiva, retrógrada e historicamente incapaz de gerar bem comum ou alinhando-se com um modo de produção que tem o lucro como fim em si mesmo, não como uma ferramenta para promover riqueza e felicidade geral. Não há equilíbrio.

O simbolismo mitológico do centauro que somos, metade homem (razão), metade animal (emoção), está desaparecendo. O quadrúpede está dominando a figura e, a continuar assim, em pouco tempo desaparecerá a metade racional que segura o arco com o qual nos defendemos. Seremos todos animais de trabalho pastando nos campos dos senhores que alimentam nossas emoções e, despojados do exercício racional, aguardaremos com a paciência de uma mula empacada que o mundo seja consertado a golpes de fofurices.

O autor é Analista Judiciário, Bacharel em Direito, Especialista em Direito Eleitoral, Licenciado em Filosofia.





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