Bauru e grande região - Segunda-feira, 10 de dezembro de 2018
máx. 31° / min. 16°
07/12/18 07:00 - Opinião

Democracia é governo do povo?

Pedro Grava Zanotelli

Quando Abraham Lincoln disse que a democracia era "o governo do povo, pelo povo e para o povo" devia estar pensando na utopia de Platão, que imaginava um governo formado por sábios, com inteira ideia do bem, do belo e da justiça, escolhidos pelo povo para governá-lo, pensando nele. Na forma como é enunciada nas constituições dos países que dizem adotá-la e no pronunciamento dos políticos a democracia inspira ideias assim, mas na concretização de seus preceitos, as situações reais muitas vezes são a sua negação. E não é outra a situação do Brasil neste momento.

Por mais que se diga que nossas instituições democráticas estão firmes e por mais que o Ministério Público e a Polícia Federal venham caçando corruptos, o Congresso Nacional, a Presidência da República e parte do Supremo Tribunal Federal vêm fazendo tudo o que o povo não quer. E daí? Vamos resolver democraticamente, esperando que os eleitos pelo povo, como manda a democracia, assumam o poder e coloquem o trem nos trilhos. Mas muitos malfeitos serão irreparáveis e os falsos democratas, nas três esferas do poder, não aceitando a derrota, continuarão sabotando os legítimos interesses do povo e, estupidamente, dizendo falar em nome da democracia.

Surgida na Grécia antiga, essa forma de governo não prosperou na civilização ocidental, que se desenvolveu sob governos imperiais e monárquicos. Ressurgiu só nos Tempos Modernos após as revoluções americana (1776) e francesa (1789), principalmente desta última, com a declaração dos direitos do homem e do cidadão. Os súditos viraram cidadãos, com direito de escolher aqueles que deveriam governá-los. O seu aperfeiçoamento levou ao que hoje se chama 'Democracia Liberal', como forma ideal na Europa e nas Américas, varando dois séculos, com sucesso e paz em alguns lugares e perturbações de guerras de domínio e de ditaduras militares, autocráticas ou do proletariado. O período mais longo de continuidade é dos EUA.

Hoje é opinião geral que a democracia liberal está em crise. Respeitados pensadores atuais, como o espanhol Manuel Castells, vêm comentando esse fato como uma "ruptura da relação entre governantes e governados, resultante da desconfiança nas instituições, em quase todo o mundo, que deslegitima a representação política e nos deixa órfãos de um abrigo que nos proteja em nome do interesse comum". O ponto crucial é que a fidelidade democrática exige que os problemas sejam resolvidos 'democraticamente'. Isso é demorado, resultando em soluções fora do temo e com problemas colaterais. Veja como está sendo custoso o desvencilhamento da tragédia lulopetista.

Além da liberdade, outro princípio fundamental da democracia é a alternância de poder. Aqui vale aquela afirmativa: "há bens que vêm para males". O bem é a renovação de ideias, a oportunidade a novos talentos, a recarga de energia do sistema e o mal é a guerra de interesses, que transforma os adversários de campanhas eleitorais em opositores com todas as características de inimigos da nova administração. Os novos administradores, como começamos a viver mais uma vez, precisam enfrentar as dificuldades próprias do início da nova gestão e mais os problemas de sabotagem dos vencidos. A oposição não aceita que o novo governo é para todos e que se ele fracassar os prejudicados serão todos e não somente os que votaram nele.

Outra ideia democrática que suscita reflexão é a de que o povo é soberano. Está bem, é soberano, mas isso não garante um bom governo. A história mostra mais erro que acerto nas escolhas dos governantes. Quem não conhece aquele ditado: "Cada povo tem o governo que merece"? E que soberania é essa em que, quando se escolhe mal, sente-se indefesa diante de situações afrontosas como essa de garantir aumento de salário para os mais bem pagos do país, quando mais da metade dos estados diz que não poderá pagar o 13º salário porque ainda nem terminaram de pagar as parcelas dos anos anteriores? Que soberania é essa em que presidente da República e ministros do STF querem dar indulto aos criminosos por corrupção, culpados pelo sofrimento de milhões de brasileiros, porque roubaram o dinheiro da saúde, da segurança, dos transportes e dos benefícios sociais? Que soberania é essa que para garanti-la teriam que ser usados meios violentos, impróprios da democracia? Pois bem, vamos recuperar a esperança, frustrada tantas vezes, e esperar que o novo governo comece uma nova era.

O autor é ex-presidente da Ordem dos Velhos Jornalistas de Bauru.





publicidade
Projeto Cidade Promoções e Eventos
(SF) © Copyright 2018 Jornal da Cidade - Todos os direitos reservados - Atendimento (14) 3104-3104 - Bauru/SP