Bauru e grande região - Sábado, 23 de março de 2019
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09/01/19 07:00 - Opinião

Amigas e alfinetes

Roberto Magalhães

Eram amigas. Unha e carne. Lúcia Helena chegaria em uma semana. Bom demais. Mas como sobreviver a sete dias de ansiedade? Amizade enraizada na adolescência, muitas confidências, cumplicidade, sentimento de irmandade. Lúcia Helena era, agora, famosa jornalista de rádio e tevê. Fazia coberturas de eventos nacionais e internacionais. Ocupadíssima, mas descobrindo buraco na agenda, roupa na mala, pé no avião: Ribeirão Preto. Hora de visitar Marcela. Coisa rápida, três ou quatro dias, o suficiente para matar a saudade e colocar a conversa em dia. Falariam de tudo e de todos, ririam muito, fofocariam até não mais poder, a língua já coçava.

Marcela, até então feliz com a chegada da amiga, voltou a sentir aquela fisgadinha doída de arrependimento. Por que, nessas visitas, ela alfinetava tanto Lúcia Helena com frases maldosas? Tinha sim inveja dela, reconhecia. Era bonita, jornalista em Brasília, amiga de deputados e de senadores... Frequentava noitadas espetaculares com homens poderosos, todos soltos na cidade em que tudo acontece por baixo do pano. Em Ribeirão, o que poderia sobrar para ela? Nada. Era cumprir o rotineiro papel de esposa e mãe. Chatice. Dessa vez, prometia-se, pouparia a amiga, seguraria os alfinetes.

Lucia Helena, por sua vez, tinha tudo, mas também, dolorida frustração: não ser mãe, não ter marido e essas coisas da vidinha miúda e pacata do interior. O sucesso profissional muito lhe dava, mas muito lhe tirava. Finalmente, Lucia Helena chegou. Beijos e abraços verdadeiros. Mais magra, mais bonita, mais jovem. Certamente, as noitadas de Brasília faziam toda a diferença. Ajeitada a mala, um espumante geladíssimo começou a molhar a conversa sem vírgulas e nenhum ponto. Lúcia Helena quis saber da família. E o maridão Álvaro? Trabalhando muito? E a Paulinha? E o Henriquinho? Continuava colecionando medalhas de judô?

Por ter assim perguntado, muito teve que ouvir. Marcela, esquecendo a promessa, disparou alfinetes. Falou do sucesso dos filhos na escola, no esporte, na música, crianças maravilhosas, só orgulho e alegrias. Do maridão, só elogios, perfeito.

- E você, amiga famosa, como está Brasília? Quero saber tudo, tintim por tintim, principalmente sobre as festas agitadíssimas, as noitadas "calientes". Como alfinetada é coisa que se devolve, Marcela muito teve que ouvir. Lúcia Helena pinçou detalhes picantes, hora de judiar da imaginação de Marcela.

Estavam assim se alfinetando, quando Álvaro chegou. Marcela foi logo se pendurando no pescoço do marido, forçando um beijo. Era alfinete também. O papo rolou alegre entre os três por alguns minutos. Depois, Marcela pediu licença, precisava ir à cozinha colocar a torta de palmito no forno.

Na volta, perdeu o chão. Lucia Helena e Álvaro estavam quase colados. Pareciam constrangidos, assustados. Um silêncio acusador pesou entre eles. A entrada repentina provocara um mal estar indisfarçável. Tudo muito rápido. O que, santo Deus, teria acontecido ali? O marido e a sua melhor amiga, absurdo!. Álvaro, pálido. Lucia Helena, nenhuma naturalidade. Teriam se beijado? Uma juntada? Os desgraçados teriam um caso? Nunca percebera nada. O punhal da dúvida cravou fundo.

Jamais poderia imaginar coisa assim. Jamais por quê? Tudo era possível, sim. A cena se encaixava perfeitamente na lógica das alfinetadas. Não eram amigas? Eram, unha e carne. Mas, entre carne e unha, é sempre possível um alicate inox. Uma não desejava o que era da outra? Desejava. O jogo não era esse? Era. Quantas vezes elas não haviam fofocado casos deliciosos de amigas com maridos de amigas? De perder a conta.

O sinal de alerta piscando. Daqui para frente, nenhum descuido. Vigilância total. De uma amiga nunca se pode descuidar. Estava de olho em Lúcia Helena. Nenhum detalhe escaparia. Torta de palmito, assando no forno, nunca mais. Compraria feita.

O autor é professor de redação e autor de obras didáticas e ficcionais.





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