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10/01/19 07:00 - Opinião

Solidariedade em baixa, mas há esperança

Rafael Gioielli

A recente publicação do World Giving Index, pesquisa de âmbito global que cria uma espécie de índice para medir a generosidade no mundo, trouxe uma triste notícia para o Brasil. Em apenas um ano, dentre 146 países, despencamos da posição de número 75 para a 122. Ou seja, se antes estávamos apenas atrás de pouco mais da metade dos países pesquisados, na edição publicada agora, com dados colhidos em 2017, estamos definitivamente entre os 20% menos generosos.

É importante dizer que esta pesquisa é realizada desde 2009 pelo renomado Instituto Gallup e nessa edição entrevistou mais de 150 mil pessoas em todos os países participantes. Estatisticamente, os dados cobrem 95% da população mundial, que hoje é de 5,2 bilhões de pessoas. Já o questionário é simples e direto. Apenas pergunta ao entrevistado se no último mês ofereceu ajuda a um desconhecido; fez contribuição financeira para uma organização da sociedade civil; e/ou doou tempo como voluntário para uma organização. A Charities Aid Foundation (CAF), realizadora do estudo, acredita que a publicação dos dados tem um grande potencial para suscitar o debate sobre generosidade e destravar mais recursos para a solução de nossos dilemas sociais.

Os dados mostram que globalmente há uma elevação nos níveis de ajuda a desconhecidos e nas ações voluntárias, comportamentos que haviam recuado na última edição. Porém, mantém-se uma tendência de queda nas doações de recursos financeiros para organizações. Outro fator relevante é que as diferenças entre os níveis de solidariedade nas diferentes regiões diminuem.

No Brasil, no entanto, o resultado pareceu estar na contramão. Nossa melhor marca fica na ajuda a desconhecidos. 43% dos brasileiros relataram esta prática no ano passado, contra 54% em 2016. Quando o assunto é doação financeira, o resultado foi de 14% contra 21% em 2016. O voluntariado caiu de 20% em 2016 para 13% em 2017. Olhando numa retrospectiva de dois anos, nossa maior queda é na doação de recursos financeiros que recuou quase pela metade.

Interpretar estes dados não é algo simples. Mas a alta volatilidade do índice no Brasil reforça algo que já falamos por aqui: a cultura de doação em nosso País ainda não se consolidou e fica vulnerável a muitos fatores. Nos últimos dois anos, a crise econômica e a instabilidade política podem ter tirado dos brasileiros os recursos e a confiança necessária para exercer o altruísmo. Porém, ainda assim, quase metade de nossa população ajuda a desconhecidos. Talvez seja um comportamento mais assistencialista e pontual do que estruturado e transformador, entretanto, há uma semente a ser explorada.

Mas temos boas notícias também: enquanto ainda estávamos reverberando os dados divulgados pela CAF, um alento chegou de Brasília. O Senado aprovou, no dia 12/12, o Projeto de Lei que cria os fundos patrimoniais filantrópicos. O texto já tem a aprovação da Câmara dos Deputados e agora segue para a sanção presidencial. Quando estiver em vigor, a Lei trará maior estabilidade jurídica para a criação e funcionamento dos fundos patrimoniais, o que ampliará a oferta de recursos para financiamento das organizações sociais.

Quem sabe os avanços no marco legal também não ajudem a impulsionar a confiança do brasileiro para praticar mais a generosidade. Com mais recursos para o setor social, todos ganham.

O autor é gerente geral do Instituto Votorantim.





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