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08/02/19 07:00 - Opinião

Barragens de terra merecem respeito

Jorge Alberto Soares

O Brasil tem hoje quase 200 barragens de mineração com potencial de dano classe B, considerado alto - mesma classificação da barragem 1 da mineradora Vale no Córrego do Feijão, em Brumadinho (MG), que se rompeu no dia 25 de janeiro. Os dados são da Agência Nacional de Mineração (ANM).

No Brasil, as barragens são categorizadas cruzando a probabilidade de um rompimento ocorrer - ou seja, o risco - e o impacto que causarão nas comunidades próximas e no meio ambiente se o incidente de fato acontecer, o que é chamado de "dano potencial".

A classificação da classe de risco - A, B, C, D ou E - obedece a critérios como capacidade acima de 3 milhões de metros cúbicos, 15 metros ou mais de altura, resíduos perigosos e dano potencial médio ou alto. A Barragem 1 de Brumadinho, por exemplo, tinha 86 metros de altura e armazenava quase 12 milhões de metros cúbicos de rejeitos. Foi classificada na classe B.

Existem 2 barragens na lista da ANM com classificação A, acima de Brumadinho: são as barragens 1 e 2 da Mina Engenho, em Rio Acima (MG). Com rejeitos de exploração de ouro, elas são da empresa Mundo Mineração, que encerrou as atividades em 2011 e abandonou as estruturas. Se romperem, vão comprometer o abastecimento de água de Belo Horizonte

Eu trabalhei na década de 1960 construindo dezenas de pequenas barragens de terra em propriedades rurais nas regiões de Bauru, Assis, Tupã, Marília, Jaú, Lençóis Paulista e Santa Cruz do Rio Pardo. Tive sempre em mente, desde o início da profissão, que qualquer barragem de terra com altura superior a 10 metros merece respeito. E quando o seu rompimento pode causar desastres ambientais, destruição de prédios, pontes, estradas e morte de pessoas que estejam no caminho das águas - aí sim a coisa assume um altíssimo grau de responsabilidade, exigindo técnicas apuradas no planejamento e construção da barragem.

Uma coisa muito importante: garante-se a segurança de uma barragem de terra nas etapas de planejamento e construção apurada. Se houver erro nessas duas etapas, muito pouco se pode fazer para consertar erros após o término da construção.

É muito triste constatar que o Brasil, que tem os melhores especialistas mundiais em Mecânica de Solos, disciplina base na construção de barragens de terra, ostentando recordes mundiais de altura de barragens de terra construídas com 120 metros de altura e mais, assista a este espetáculo dantesco em Brumadinho.

Na época em que eu projetava e fiscalizava a construção de barragens de terra, na gestão do Engenheiro Luís Edmundo Coube como presidente do DAE, fui chamado ao seu gabinete e ele me disse que queria aumentar a altura da barragem de captação do DAE no rio Batalha, e queria que eu fizesse o projeto e fiscalizasse a construção.

Recusei a proposta e fiz-lhe ver que essa era uma empreitada de altíssimo risco e responsabilidade, posto que o rompimento dessa barragem mais alta iria deixar a população de Bauru sem suprimento de água, além de poder causar mortes e estragos incalculáveis a jusante.

Sugeri que ele contratasse a Companhia Hidrelétrica do Rio Pardo (CHERP), órgão de excelência na construção de barragens de terra em São Paulo, nessa época. Não sei o que aconteceu depois - o fato é que, felizmente, talvez eu tenha contribuído para evitar um desastre tipo "Brumadinho" em Bauru...

O autor é engenheiro-agrônomo.





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