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09/02/19 07:00 - Opinião

Dez anos sem Jurandyr Bueno Filho

José Roberto Martins Segalla

Conheci Jurandyr 57 anos atrás. Ele era filho de uma irmã da minha avó, portanto, primo da minha mãe. Nós não tínhamos nenhum relacionamento. Naquela época, a distância que separava um jovem de 20 anos de idade (ele) e outro de 13 (eu) era igual à distância da Terra à Lua. Ele cursava arquitetura em São Paulo e eu o ginásio em Bauru. Nós sequer nos conhecíamos.

Certo dia ele, estando de férias, acompanhou sua mãe a uma visita à minha avó, que estava morando na casa dos meus pais. Ao chegarem na nossa casa, após apresentações, ele viu que minha mãe possuía um acordeão e então pediu-o emprestado por alguns momentos. Já com o acordeão no colo, contou que no caminho que fizeram (naquela época se andava à pé) ouviu uma pessoa tocando acordeão e ficou encantado com a música, que nunca ouvira. Então, pôs-se a "tirar" a música no acordeão. Após algumas poucas tentativas para reproduzir aquilo que apenas ouvira, ecoou pela casa uma música maravilhosa, muito bem tocada. Ele sorriu feliz. Conseguira.

Foi assim que conheci Jurandyr.

Os anos foram passando, ele concluiu a faculdade e veio trabalhar em Bauru e eu passei a cursar a Faculdade de Engenharia. Nossas vidas novamente se aproximaram, pois a engenharia e a arquitetura possuem inúmeras afinidades e estão sempre se encontrando nos serviços que produzem.

Tornamo-nos amigos.

Acompanhei sua trajetória como o gênio da prancheta em Bauru. Seus projetos, lindos no papel, tornavam-se ainda mais bonitos quando concretizados em aço e concreto. Um homem de visão única (brilhante empresário e melhor ainda administrador público) chamado Alcides Franciscato deu-lhe asas e com elas Jurandyr voou.

Decolou da prancheta e foi colocando obras pela cidade toda. Para descansar dessa trabalheira, fazia projetos residenciais, comerciais, empresariais pelo Estado inteiro, ganhando respeito e admiração também muito longe de Bauru.

Homem sensível, de cultura refinada, grangeou amigos no jet set de São Paulo e do Rio de Janeiro. Tornou-se íntimo de grandes atores e atrizes, além de músicos famosos e autores teatrais de respeito.

Religioso e amigo de religiosos, projetou uma igreja (Santuário do Sagrado Coração) em Bauru que, à semelhança do que Niemayer fez na Pampulha, em BH, e em Brasília, entrou para os anais da arquitetura nacional no verbete "igrejas".

Quando estava preparado para iniciar uma nova etapa em sua vida, dedicando seu saber e sua competência para qualificar o Poder Legislativo local e, quem sabe, ajudar a tirar do papel alguns dos projetos de desenvolvimento da cidade que ainda não havia conseguido materializar (como a Av. Nações Norte e o parque nela previsto e que hoje leva seu nome), a vida pregou a ele e a nós uma peça.

Havia, certamente, uma vaga no departamento de arquitetura do céu, e Deus se apressou em convocá-lo para ocupá-la, antes que um menos habilidoso, menos competente, menos qualificado se apresentasse.

O céu ganhou. Bauru perdeu.

O autor é advogado, engenheiro e presidente da Câmara Municipal de Bauru - [email protected]





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