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10/02/19 07:00 - Opinião

Premeditação de um crime mineral

Adilson Roberto Gonçalves

O crime mineral no Brasil é bastante orgânico. Brumadinho e Mariana são apenas seus expoentes, pois a exploração da pedra para se obter o ouro - que pode ser tanto o ferro como o alumínio - marcou nosso país desde a Colônia. Aqueles que lamentam os corpos soterrados são os mesmos que defendem o afrouxamento da legislação ambiental, o Estado mínimo, as privatizações sem controle e a ilusão do neoliberalismo. Nesse mar de lama, aplaquemos a angústia com os visionários poetas Drummond e Tom Jobim: quantas toneladas exportamos / de ferro? // é a lama, é a lama.

Além da responsabilização pelo crime de Brumadinho e da mitigação das tragédias pessoais evidentes, há que se considerar que a inspeção de barragens deve possuir uma dinâmica de procedimentos que se alterem com o tempo, ainda mais com as mudanças climáticas que influem diretamente no regime hídrico do solo e da atmosfera.

A acomodação de sedimentos na natureza foi estabelecida ao longo de milhares de anos e não se pode dizer em estabilidade de barragens com apenas meses ou anos de depósitos dos rejeitos minerais. Assim, não apenas política e sanidade devem permear as questões ambientais, como também ciência e tecnologia, fatores que, no entanto, estão sendo renegados.

A visível e tóxica lama de Brumadinho não é suficiente para condenações. Não possui a mesma convicção de outros ditames, não apareceu por delação premiada, nem tirou da competição candidatos à presidência. É apenas a escória de um sistema extrativista que dispensa pelo menos 40% da montanha de ferro. Vidas significam apenas alguns milhares de reais que serão doados - sim, esse é o termo usado pela empresa assassina - às famílias remanescentes em sua dor pelos ausentes e busca por sobreviventes.

Pelos relatos de alertas emitidos ao longo dos últimos meses sobre os riscos de rompimento daquela barragem de resíduos de mineração, conclui-se que a ação não foi apenas criminosa, mas também premeditada, devendo ser julgada com todos os agravantes correspondentes.

Sabemos que a impunidade para esses casos impera e a empresa já está se recuperando na Bolsa de Valores, o que é o que mais importa: privatizar os lucros, socializando os prejuízos. Repetindo, restam-nos as palavras e os gritos do poeta Drummond, em sua triste rima de ferro com berro. #IniCiencias.

O autor é químico, pesquisador da Unesp - Rio Claro. [email protected]





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