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10/03/19 07:00 - Opinião

O chuveirinho de ouro

Zarcillo Barbosa

Quem não sabia, ficou sabendo. Ou, pelo menos, enriqueceu o repertório com mais um americanismo - "golden shower" - introduzido ao linguajar do brasileiro. Soube também, pesquisando na internet, que urinar sobre um parceiro, em busca de prazer sexual, deixou de ser uma patologia há quase uma década. Os psiquiatras se debruçaram sobre a questão e retiraram a urofilia e a coprofilia do rol das desordens mentais. São meros fetiches. Para acontecerem, é preciso consentimento do parceiro. Diferente da pedofilia, do exibicionismo, voyeurismo, do frotteurismo - essa prática de se esfregar em pessoas desconhecidas no ônibus lotado. Estas, estão na lista das taras, porque feitas de maneira forçada.

A prudência nos aconselha a parar por aqui, para não estragar o domingo do leitor com essas escatologias. O mais interessante é a catarse política. O povo tem dúvidas sobre a sinceridade de toda essa comoção, causada pela mídia, por causa de um tuíte do presidente Bolsonaro. Há quem esteja pedindo impeachment, por falta de decoro, em desrespeito à liturgia do cargo, ou o que quer que isso signifique. A Lei 13.718, sancionada por José Dias Toffoli, quando no exercício da presidência, condena a divulgação de cenas de pornografia por qualquer meio de comunicação de massa, ou sistema de informática ou telemática. Pena de 1 a 5 anos de prisão. Seria um exagero enquadrar Bolsonaro.

A intenção do presidente teria sido a de condenar os abusos que mancham a reputação da nossa maior manifestação de cultura popular. A conotação pejorativa de "pornografia" deu lugar à denotação artística de "performance". Foi o jeito encontrado pela comunidade gay para também livrar os dois homens que celebravam o Carnaval de uma maneira muito própria, em cima de um ponto de ônibus. Eles apenas foram ao limite da criatividade. Fica, assim, conferido o status de arte para a masturbação anal e ao golden shower. Você escolhe se condena ou absolve, de acordo com suas convicções morais e intelectuais.

A verdade é que ninguém vê sentido na divulgação, pelo presidente da República, de um vídeo desse nível, que alimentou o imaginário do mundo inteiro e serviu de gozação contra os nossos baixos índices de civilização. O presidente Jair Bolsonaro deveria estar mais empenhado na reforma da Previdência, hoje a grande preocupação. A reprimenda serve também para o Zero2, filho do presidente. O pai considera Carluxo um gênio da comunicação. É ele que dirige a divulgação da figura do capitão como estadista, via redes sociais. A estratégia deve ser: falem mal, mas falem de mim.

A esse moço recomendaria a leitura de "As armas da persuasão", do psicólogo social Robert Citaldini (quem não leu, leia e quem já leu, leia outra vez). A obra é um manual de marketing traduzido em 40 idiomas. Em uma das primeiras lições, Citaldini ensina que "a natureza da má notícia contagia o mensageiro". Existe uma tendência humana natural a desgastar uma pessoa que traz informações desagradáveis ainda que ela não tenha causado a má notícia. A simples associação basta para estimular nossa aversão. O autor reproduz Aristóteles, passados 2.400 anos, quando reinventa os gatilhos mentais. Na verdade, estruturas que ativam decisões nos cérebros das pessoas. É uma estratégia de comunicação trabalhar para convencer a comunidade a aderir a ideias que, se realizadas, vão se consubstanciar em benefícios mútuos.

Pornografia em público, somente mostra que ainda existe gente que quer conferir algum sentido à sua pobre existência. Foi apenas mais um momento deprimente no triste cotidiano do brasileiro, eternamente à espera de líderes capazes de conduzi-lo a um futuro melhor.

Menos sofrível foi aquela outra tirada de Bolsonaro: "A democracia e a liberdade só existem quando as Forças Armadas querem". Foram necessários dois generais, cinco deputados e três senadores para explicar o que o presidente quis dizer. Ideias que precisam de muita explicação ou exegese, nem devem ser pronunciadas. As verdadeiras revoluções, foram feitas pelo povo contra os exércitos dos poderes estabelecidos. Começa pela Revolução Francesa, com os sem culotes enfrentando tiros e baionetas para tomar a Bastilha. Passa pela guerra americana pela independência; pela derrubada do czarismo, na Rússia; por Mao, na China e os barbudinhos, em Cuba. Todo poder emana do povo, diz o preâmbulo da nossa Constituição. Melhor colocou o general Augusto Heleno: "As Forças Armadas são guardiãs da democracia e da liberdade". Porque o povo assim as quer.

 





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