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10/03/19 07:00 - Tribuna do Leitor

Bolsonarismo: petismo com sinal invertido

Camila Alvarenga

Estupefaciente o conteúdo da missiva de Beatriz Campos (06/03/19). O Brasil afastou o PT, mas não o petismo, que sobrevive e ganha musculatura, desta vez com sinal invertido. Primeiramente antecipo nunca ter elegido presidentes da República, não sendo portanto "petista". Já viu, hoje em dia... Os incautos desta natureza sempre fazem essa insinuação com o intuito de desqualificar seus interlocutores quando não lhes assiste razão ou argumentos.

A senhora Beatriz fala em Lula como "deus" e em Deus-deus, mas ao que tudo indica Bolsonaro é seu deus pessoal, totem ou ídolo. Nada contra a idolatria, o que precisa ser analisado é a incoerência e vigarice intelectual.

Pois bem, "esquece" a missivista que o "L" vermelho da identidade visual do governo Lula trazia também o Azul, o Verde, o Amarelo, o Branco, o Preto e o vermelho, o que, penso eu, reflete as cores da nação (aquelas que assim convencionamos usar, simbolizando as riquezas naturais, como as florestas, o ouro, o céu estrelado, bem como aludir às Casas de Bragança e Habsburgo), bem como a diversidade étnica de nossa população.

Veja bem, Dona Beatriz, mantenho posição adversa a vários grupos políticos e partidos, inclusive ao PT, há 20 anos, porém sem vigarice intelectual, sem produzir, reproduzir ou fazer publicar fake news, seja neste diário, seja em outro meio.

Quanto a questionar a competência de políticos ou se manifestar contra alguns deles, não era a senhora mesmo (assim como milhares de outros) entusiasta de manifestações, de impeachment, de renovação? Tudo isso é absolutamente válido e legal; só não se compreende o porquê isso agora se tornou algo polêmico ou questionável, ainda mais quando em 60 dias um governo atinge patamar de trapalhadas e polêmicas recorde, dando a sensação de já se ter transcorrido uns 3 anos de mandato e não o de estar entrando apenas no 3º mês.

Se a senhora Beatriz acha laranjal coisa de somenos.... Isso é apenas petismo com sinal invertido.

Já tivemos apedeutas na política, mas no momento temos uma constelação deles, que no caso são os que são objeto destas críticas - e curiosamente justo a parte militar é a parcela sensata do atual governo, quem diria. A ala civil é justamente a aloprada. Nela inclusive se encontram incontidos não apenas ideológicos, mas também no sentido humano, gente impiedosa e sem compaixão, brutal, tosca, que ainda não compreendeu não ocorrer mais campanha e sim estar em fase de governo, onde decoro, compostura e diplomacia são o mote.

Não se está pegando no pé de ministros por serem de Bolsonaro; são alvos de questionamentos justos (ou petistamente se dirá que não?). Apenas número diminuto deles são alvos, por sua patente inevitabilidade. Veja se pegam no pé do ministro de minas e energia, no da infraestrutura, ou nos que atuam na GSI e Secretaria de Governo (que tem status de ministro). Não, pois são de perfil próximo aos de técnico, como Bolsonaro havia prometido. Os alvos são, vejam só, justamente os sobejamente ideologizados e que desprezam a lei em detrimento de, como se diz mesmo, ideologia.

Os que se pautam pelas recomendações republicanas de assessoria jurídica até agora não se queimaram; os que desprezam essas orientações em detrimento de declarações e ações eivadas de crenças pessoais e ideologias evidentemente se expõem ao malogro, às gafes, a ter de retroceder, assim como ao protesto e ao escárnio público.

Inexistem registro de um líder que tenha falado mais de sexo e sexualidade ou de suas ojerizas nesta área. Nem de filhos e ministros atravessando tanto a rua para escorregar propositalmente em casca de banana que veem do lado de lá. Não dá pra esperar que o papel de um governo se limite a confrontar gays e se dedique a atritar pessoas. Algum governante ou ministro se ocupou de ficar emulando pessoas, a estimular a turba contra cidadãos conhecidos ou anônimos?

No meu tempo de criança o receio era de as TVs cooptarem e escravizarem as pessoas, depois veio a internet com esse risco. Em pensar que hoje temos até um presidente patologicamente escravo disso.

Há taxa de juros, inflação, desemprego e reformas (a meta é ao menos a da previdência) e sem o foco destas pessoas nestas coisas (ao invés de ficarem twitando e brincando de hostilizar pessoas no celular) estas reformas sairão? Criticar o governo é justamente para o bem dele e uma forma dele se enxergar. Mas para isso as pessoas precisam antes enxergar a si mesmas - e aceitarem se despir de ódios e de embustes intelectuais, e compreenderem que para as reformas que se espera o comportamento que se deve buscar é necessário seguir justamente no sentido inverso ao que os filhos do presidente e de parcela de seu ministério (as alas do tripé: ideológico, cruzadista e gospel) tem se enveredado. Se alguém desejar razoáveis e reais frutos do governo é preciso entender que convém não agir desta forma, como petista com sinal invertido. As críticas são para bem. Assim não sai reforma.

 





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