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15/03/19 07:00 - Opinião

O progresso é sustentável?

Paulo Cesar Razuk

Os combustíveis são compostos de hidrogênio e carbono e liberam energia ao se combinarem com o oxigênio do ar, formando água e dióxido de carbono (CO2). No combustível mais antigo, a madeira seca, tem-se dez átomos de carbono para um de hidrogênio. O carvão, que substituiu a madeira na Revolução Industrial, tem uma média de dois átomos de carbono para um de hidrogênio. No querosene, destilado do petróleo, essa razão se inverte: nele há um átomo de carbono para dois de hidrogênio. O gás natural compõe-se principalmente de metano (CH4), ou seja, nele essa proporção é de quatro átomos de hidrogênio para um de carbono.

Portanto, podemos concluir que na medida em que o mundo industrializado subiu pela escada da energia, desde a lenha até o carvão, depois do carvão ao petróleo e deste para o gás, a quantidade de carbono queimada para gerar uma unidade de energia (um giga Joule) caiu de trinta quilos em 1850 para quinze quilos hoje e isso porque ainda usamos lenha, carvão e petróleo. Parte dessa queda se deve ao uso mais extensivo das energias eólica e solar, mas principalmente, pela redução do uso do carvão e pelo maior consumo de gás. No entanto, como ninguém é dono da atmosfera, continuamos a jogar nela perto de 40 bilhões de toneladas de CO2 ao ano e mesmo que essa quantidade se estabilize, é elevada demais para nos afastar de consequências perigosas.

A emissão mundial de gases de efeito estufa é dominada pela indústria pesada (30%), pela construção civil (20%), transporte (15%), agricultura (15%) e termoelétricas (12%). A pecuária e a aviação, criminalizadas por muitos, aparecem quase no final dessa lista. Cito esses números para demonstrar que deixar de comer um bife ou viajar de avião é um sacrifício inútil. Para fazer algo significativo em prol do meio-ambiente precisaríamos abrir mão do aço, do cimento, do papel, dos fertilizantes, dos caminhões e carros, das roupas, da maioria dos alimentos, dos condicionadores de ar e até da termoeletricidade.

Para acompanhar a necessidade sempre crescente de energia, especialistas apontam que precisaríamos transformar uma área do tamanho da Alemanha a cada ano em usinas eólicas. Para atender as necessidades mundiais com fontes renováveis até 2050, seria preciso plantar turbinas eólicas e painéis solares em uma área equivalente ao novo mundo (as Américas do Norte, Sul e Central). Além do mais, o vento não é sempre constante, o sol se põe à noite e pode ser encoberto pelas nuvens, já as pessoas precisam de cada vez mais energia vinte e quatro horas por dia, vente ou não, faça sol ou chuva.

Infelizmente não existe caminho fácil para reduzir as emissões globais de carbono sem uma expansão da energia nuclear. É a única tecnologia de baixo carbono que temos hoje com capacidade de produzir grandes quantidades de energia elétrica. Ela é cara, tem seus problemas e seu uso vem se restringindo em países como os Estados Unidos, Alemanha e França. No entanto, em países como a China, Rússia, Índia e Indonésia, sedentos de energia, saturados de fumaça, livres de marcos regulatórios e melindres éticos e políticos, o uso da energia nuclear tem sido cada vez mais extensivo.

O uso da energia nuclear traz a baila muitas questões de ordem psicológica: o medo de envenenamento, a desconfiança, a facilidade em imaginar catástrofes. Não tenho o número de mortos nos sessenta anos da energia nuclear, decorrente dos desastres em Chernobyl (1986), em Three Mile Island (1979) e em Fukushima mais recentemente (2011), mas sem dúvida é significativamente menor que o grande número de pessoas que morre, dia após dia, por conta da poluição do ar causada pela queima de combustíveis fósseis e pela mineração dessas matérias-primas. Segundo um levantamento recente o gás natural mata 38 pessoas por ano e por quilowatt-hora de eletricidade gerada, a biomassa 63, o petróleo 243 e o carvão 387 e isso não aparece nas manchetes.

Se não for a energia nuclear, talvez no futuro, por enquanto bem distante, o uso do hidrogênio ou da fusão nuclear apareçam como alternativas. A verdade é uma só, se queremos evitar o pior não basta parar tornar a estufa cada vez menos espessa, precisamos desmontá-la. No momento, plantando árvores e depois, quem sabe, armazenando CO2 e passando bloqueador solar na estratosfera.

O autor é professor titular aposentado do Departamento de Engenharia Mecânica da Faculdade de Engenharia da Unesp-Bauru.





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