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07/05/19 07:00 - Opinião

São as pessoas que constroem um país, ministro

Walter Vicioni Gonçalves

Veiculado pela imprensa, causa-me espanto e indignação a manifestação recorrente do Ministro da Economia, Paulo Guedes, de abocanhar 30%, no mínimo, da contribuição compulsória do Sistema S. Estranho, e muito, que um ministro tão bem preparado se apresente com uma visão que descarta uma abordagem global dos problemas e suas interdependências.

Três questões essenciais merecem a nossa atenção: a abordagem fragmentária dos problemas da economia, das políticas públicas e dos Serviços Sociais e de Aprendizagem; o persistente baixo desempenho da educação brasileira; e a dificuldade de avaliar o referido Sistema S sem uma clara e contínua política educacional. A proposta de retirar 30% dos Serviços Sociais e de Aprendizagem para destiná-los a não sei o quê, dito genericamente para políticas públicas, é uma flagrante demonstração de desconhecimento da educação brasileira e da formação profissional no nosso país.

O Sistema S não é responsável por essa corrupção sem fim, com expectativas diárias de novas descobertas, novos processos e novas investigações. Um quadro trágico de saúde pública, com epidemias alastrando-se por cidades sem saneamento básico e sem atendimento hospitalar imediato a todos os cidadãos. Uma educação com resultados pífios. Uma falta de perspectiva de aumento de oferta de empregos. Uma economia que definha e se desestrutura em setores anteriormente dinâmicos.

Das instituições do Sistema S, conheço bem o Senai e o Sesi, neles atuei por 48 anos e, sem dúvida, o fazer dessas instituições não só confirma como reforça o que todos nós sabemos: que a construção de um país depende de sua capacidade de formar e utilizar os talentos e as capacidades de todas as pessoas que nele vivem, trabalham ou querem trabalhar. O Ministro do Governo Geisel, Arnaldo Prieto, repetia, não raras vezes, que a existência de recursos - naturais, tecnológicos, financeiros - têm muita importância, mas são as pessoas, com suas ideias e sua capacidade de dosar esses recursos diferentemente e com novos objetivos, o elemento dinâmico desse processo de construção. Não se trata de ingenuamente ignorar ou esconder as mazelas, mas o Senai, pioneiro do chamado Sistema S, foi, é, e sempre será, o mais bem-sucedido exemplo de política pública e, no meu modo de entender, o primeiro modelo de parceria público-privada.

Situado entre o Poder Público, que os criou e fiscaliza, e as entidades representativas das indústrias, que os administram, o Senai e o Sesi constituem legalmente entidades de direito privado, cumprindo uma relevante e significativa finalidade pública.

Dentre os Objetivos do Milênio, compromissos de ordem planetária aos quais Sesi e Senai estão articulados, os que mais dizem respeito à atuação das entidades são os que se referem à Educação Básica de Qualidade para Todos, à Qualidade de Vida e Respeito ao Meio Ambiente e a Todo Mundo Trabalhando pelo Desenvolvimento. Embora, de uma forma ou de outra, acabem ligados indiretamente aos demais objetivos, oferecer educação de qualidade aos trabalhadores da indústria e seus beneficiários, seja ela básica ou profissional, é a missão principal. Concomitante à educação, oferecem uma série de serviços que enriquecem o processo de formação do homem, tal como educação alimentar, serviços de saúde preventiva, atividades culturais e de lazer que compõem uma vida ativa e saudável. E, paralelamente, proporcionam serviços tecnológicos para apoiar a inovação e a produtividade do parque industrial brasileiro.

A rede Sesi-Senai oferece educação infantil, ensino fundamental e médio, este articulado à Educação Profissional, desse nível. Oferece também aprendizagem industrial, ensino técnico e tecnológico de nível superior e cursos de pós-graduação lato sensu. Todos esses serviços são integrados a uma série de atividades complementares, estimulando o aumento do capital cultural, social e criativo de seus milhões de beneficiários.

O que isso quer dizer? Que Sesi e Senai propiciam o fluxo completo de educação, em seu sentido amplo, além de ofertas de aprendizado ao longo de toda a vida, cuja modalidade intitulamos de educação continuada. Quer dizer, também, que o Sistema S não pode ser avaliado pelo volume de seu orçamento, mas pelo retorno da sua aplicação. Como em qualquer organização, pode haver desvios, mazelas e corrupções, que não devem ser tolerados, devem ser corrigidos e penalizados os responsáveis. Desta forma, a irracional proposta de confiscar 30% das instituições do Sistema S é um desatino capaz de produzir efeitos mais maléficos do que a situação atual. A substancial perda da capacidade financeira do Sistema S deverá acarretar, a curto e médio prazos, efeitos e impactos altamente nocivos e irreversíveis para a inclusão do Brasil numa nova ordem econômica e social. Um país se faz com pessoas. Transformando pessoas, efetivamente, transformamos o país.

É esse o foco privilegiado do Sesi e do Senai.

O autor é formado em pedagogia pelo Mackenzie, pós-graduado em Administração e Planejamento da Educação pelo Internacional Institute for Educacional Planning (IIPE-França) e especialista em Gestão de Qualidade (Unicamp).





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