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06/06/19 07:00 - Opinião

Cortar ou não os juros básicos?

Reinaldo Cafeo

Cortar ou não os juros básicos da economia brasileira é o debate atual. De um lado os operadores do mercado entendendo que há espaço sim para que a taxa Selic caia ao menos 0,25 ponto percentual, reduzindo dos atuais 6,5% para 6,25% ao ano e, de outro lado, o Banco Central, através de seu presidente, Roberto Campos Neto, cauteloso, que entende que ainda não é o momento para tomar esta decisão.

Fica mais fácil entender o embate se analisarmos os desafios atuais da economia brasileira. A primeira variável a ser analisada é a inflação. É imperativo que os preços, na média, se mantenham controlados e estão. Com estoques elevados e com baixo desempenho econômico, mesmo com oscilações no dólar, não há motivos para imaginar que a inflação crescerá, sendo que o indicativo é até apresente deflação. Desta maneira esta variável permite redução nos juros.

A outra variável a ser analisada é o crescimento econômico. O primeiro trimestre trouxe queda no Produto Interno Bruto de 0,2% se comparado com o trimestre anterior. O Brasil anda para trás e juros menores podem estimular o consumo das famílias, se não as endividadas, ao menos as que possuem sobras de recursos, pois tendo menor remuneração para seu dinheiro, estariam propensas a consumir.

Ocorrendo maior estímulo na economia via queda de juros, abre-se espaço para começar a reduzir o desemprego, outra variável a ser considerada na análise dos juros no Brasil.

Com tantos argumentos favoráveis à queda dos juros, por que então o Banco Central resiste? Como colocado, pela cautela. Isso indica que, mesmo com tudo apontando para que os preços se mantenham comportados, sempre poderá existir uma variável incontrolável, como por exemplo, tensões comerciais internacionais. Isso pode de alguma maneira, mexer no câmbio, elevar parte dos preços da economia, portanto, gerar inflação.

Devemos sempre lembrar que o Brasil possui um dos mercados mais concentrados do mundo, ou seja, setores importantes da economia são comandados por oligopólios. Neste particular reduzir os juros agora e ter que elevar em seguida pode gerar mais estragos na economia do que benefícios.

Outro aspecto a ser considerado é que não há nenhuma garantia, posto que os juros não são tabelados, que a queda na taxa básica chegue ao custo do dinheiro. É previsível somente que os juros de captação caiam, mas os juros na ponta, para o tomador de dinheiro, não há certeza alguma.

Para isso há explicações plausíveis: primeiramente a concentração bancária. O verdadeiro oligopólio do sistema bancário brasileiro não deixa que as coisas fluam livremente. De cada 10 operações com bancos, oito delas são realizadas com cinco instituições financeiras. A outra questão está ligada ao risco. Com mais de 62% das famílias brasileiras com algum tipo de dívida, tendo quase 30% de inadimplentes, com empresas sem capital de giro e operando no limite de endividamento, não há apetite destas Instituições. Falando o português claro: há dinheiro no sistema, falta disposição em emprestar.

Fica evidente que a análise do Banco Central vai na linha do baixo efeito prático que a queda dos juros básicos traria para a economia. Poderia, eu disse poderia, ter um efeito psicológico bom, e ainda um reflexo no tocante ao menor custo de rolagem da dívida pública, mas entendo que o receio de ter que voltar atrás ali na frente, fala mais alto neste momento.

Considerando que o indicativo é pela manutenção dos juros básicos em 6,5% ao ano, mexer no depósito compulsório, reduzindo seu patamar, e em seguida editar medidas microeconômicas que melhorem o ambiente de negócios, e trabalhar para dar velocidade na aprovação das reformas estruturais, notadamente as da previdência e a tributária, podem ser mais efetivas do reduzir os juros básicos neste momento.

Agora, uma coisa é certa: esperar somente pelas reformas é pouco. Praticamente um semestre foi perdido, portanto, o segundo semestre tem que compensar este marasmo em que a economia brasileira se encontra.

Se não mexer nos juros é preciso estimular a economia de outras formas. Mecanismos existem, é preciso colocar em prática.

O autor é economista, articulista do JC. Está no Youtube, no canal Planeta Economia.





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