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13/06/19 07:00 - Opinião

O pássaro no dedo

Roberto Magalhães

Como dói a porta que se fecha para sempre. Disso sabem muito bem os que muito se amaram. Neste exato momento, aqui, ali ou acolá, pelos motivos de sempre, bobos ou cruéis, muitas portas estão se fechando, desgraçadamente para sempre. O amor tanto morre aos poucos gotejando, como de repente, feito um estampido seco. O amor nunca foi o leão imbatível que alardeou ser, senão um pássaro no dedo. "Quem tem um pássaro pousado no dedo sabe que, a qualquer momento, ele pode voar", disse Rubem Alves.

Fico imaginando o terrível momento em que a porta está prestes a se fechar para sempre. Na boca, um amargo insuportável; nas pernas, uma anemia de músculos querendo cadeira; na cabeça, uma confusão de vozes e imagens, quase vertigem. Mesmo assim, tropeçando nas sílabas engasgadas, a boca consegue dizer: "seja feliz, quero o melhor para você". Frase verdadeira? Possivelmente sim, afinal existem separações maduras e resignadas. Outras são bem diferentes. A vontade é de gritar: "fica pelo amor de Deus, não faça isso comigo, seu lugar é aqui, junto de mim". Mas a boca trava e nada diz. No amor, existe um tempo certo de dizer, depois o silêncio deve tudo sepultar.

O amor acaba por muitas razões, inclusive a de que na vida tudo acaba. Mas acaba, sobretudo, pelas ofensas bumerangues que ferem de tal forma, não mais permitindo frase possível que o remendo possa costurar. Não tem volta dirão as chaves em cima da mesa. Não tem volta repetirão as malas no corredor. Não tem volta ecoarão os cabides em uníssono, esqueletos enfileirados no vazio do guarda-roupa.

O amor acaba, mas também continua. Ainda que a taxa de divórcio tenha crescido 140% no Brasil, entre 2004 a 2014, muitos casais têm evitado que a porta se feche para sempre. Nada mais odioso do que receita, mas certas evidências não devem ser ignoradas. Rubem Alves, com rara sensibilidade, falou do amor falando de tênis e de frescobol.

No jogo de tênis, o objetivo é derrotar o adversário. A bola deve ser endereçada com malícia no ponto fraco do oponente para que ele não possa devolvê-la. A vitória de um é a derrota do outro. Alguns casais fazem do amor uma longa partida de tênis. Todos os dias, um quer derrotar o outro. Esse prazer idiota faz com que vivam se agredindo até que a morte, como disse o Chico, um dia possa uni-los.

No jogo de frescobol, não existe o desejo de derrotar o parceiro. A bola é cuidadosamente lançada para que ele possa devolvê-la da mesma forma. O segredo é um ajudar o outro, carinho e cumplicidade. Por manterem gostosamente a bola no ar, os dois ganham sempre, não há perdedor.

O amor, como tudo na vida, é coisa afetivamente construída. Tanto assim o é que, mesmo antes de Cristo, o poeta latino Ovídio já havia escrito, em três volumes, a Arte de Amar ("De Arte Amandi"). Se amar é uma arte, evidentemente requer aprendizado, investimento, construção. Sem que se dê ao amor o cuidado cotidiano, a relação seca e morre.

A acomodação no amor é fatal, porta que se fecha para nunca mais abrir.

O autor é professor de redação e autor de obras didáticas e ficcionais.





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