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06/07/19 07:00 - Opinião

Falta química na política

Adilson Roberto Gonçalves

Quando minha musa Fernanda Torres escreveu na Folha de S. Paulo uma ácida crônica sobre a contaminação química, a partir de um filme de Tarkóvski, cujos detalhes omito, adveio a vontade de discorrer sobre a importância dessa bela ciência na política.

A obra cinematográfica adentra pelas questões da informação que se esconde e a que se mostra: os que a dominam decidem o que a sociedade deve saber para manter seu suposto equilíbrio.

A política deveria, portanto, caminhar para um equilíbrio; na ciência esse equilíbrio é sempre dinâmico, em constante mutação, mas com resultado energético estabilizado. Quisera mais poetas e mais cientistas dominassem a arte da política, para nos tirar desse ambiente contaminado.

Isso vai ao encontro - ou reencontro - de estabelecer uma agenda social para o país, abandonada nos últimos anos e que vinha sendo construída ao longo de décadas. Os 25 anos do Plano Real, lançado por Itamar Franco, presidente olvidado em avaliações nesses últimos dias, coincidem com o início dessa jornada de entender que a sociedade é feita pelo conjunto e não por fragmentos.

A deputada federal Tabata Amaral tem feito reflexões interessantes e importantes naquele mesmo jornal, clamando por uma saída para a democracia, mas seu conteúdo é basicamente a estrutura do resgate social que os governos petistas procuraram adotar em sua política.

Porém, inclusão pressupõe a presença do diferente e isso foi refutado por parcela significativa da população - a chamada classe média -, que não tolerou o ex-pobre ocupando os mesmos espaços físicos. Também pela química sabemos que quanto mais puro é o produto, mais sujo ficou o ambiente ao redor. O discurso da igualdade parece ser aceito somente do plano teórico.

Há, no entanto, duas principais barreiras que não podem ser negligenciadas: a) parte dos projetos da agenda social cabe exclusivamente como iniciativa do Executivo e, mesmo com protagonismo do Legislativo, esses projetos correm o risco de serem vetados por questões constitucionais; e b) a pauta dos Poderes se estabelece pelo próprio poder, ou seja, se Rodrigo Maia quer agora votar a reforma da Previdência é porque está de olho na sucessão presidencial e não no avanço social do país.

Já Hélio Schwartsman, outro colunista de considerações balizadas, aborda a questão como embate moral, quando, na verdade, é econômica, referindo-se à presença forte de assuntos religiosos nos políticos.

Os preceitos bíblicos e de outros livros ditos sagrados não foram desenvolvidos como base de nossa humanidade e, sim, como suporte para a manutenção financeira de um conjunto enorme de clérigos, indo de padres a pastores, de rabinos a ulemás, sem distinção, que se beneficiam da fé - ou dúvida - alheia para não ter outra atividade física ou intelectual que não seja a de perpetuar a própria crença. E com isso, desde resignação passiva eleitoral até guerras seculares são mantidas com o mesmo livrinho e seus análogos. Ou seja, assunto que deveria ser exclusivamente de ordem pessoal e de foro íntimo passa a determinar políticas públicas. A falta que o conhecimento nos faz. #IniCiencias

O autor é pesquisador na Unesp-Rio Claro, adilson.goncalves@unesp.br





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