Bauru e grande região - Terça-feira, 23 de julho de 2019
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07/07/19 07:00 - Tribuna do Leitor

Fome de vida que vira pó

Leila Mary Motoki, professora de Língua Portuguesa da Prefeitura Municipal de Bauru e do CEEJA (antigo CEESUB)

Todas as noites, como habitual, saio do trabalho exausta, para dizer melhor, saio arrasada! Como alguns dos meus alunos diriam, "só o pó da rabiola" - não sei exatamente o que significa essa expressão, talvez por não entender qual a relação entre uma cauda da pipa em pó e meu cansaço arrebatador! Se bem que essa dificuldade de compreensão deve ser de muitos, visto que retiraram a tal rabiola da frase e a expressão é conhecida apenas como "Estou só o pó"!

Naquela noite não foi diferente, saí sentindo o meu corpo se desintegrando, tomada por dores, desânimo e, além de tudo, "morta de fome"!

Ah, se minha mãe ouvisse meus pensamentos logo iria dizer em tom esbravejador: "Não fale que está morta de fome! É pecado, pois você não sabe o que é morrer de fome?!" Lógico que sei, mas ela sempre tão dramática para criticar meus dramas! Certamente, acharia demais eu dizer que estava o pó e diria: "Não fale que está o pó, você não sabe o que é virar pó!?".

Para resolver o meu primeiro problema, uma cama quentinha e macia já bastava, mas e para aquela insistente fome? Tive que acessar minha criatividade. Após as 22h, na cidade de Bauru, o que poderia satisfazer meu apetite sem me exigir grandes esforços?

Conhecida como a Cidade do lanche, as noites de sextas-feiras de Bauru são iluminadas aos sons de seus diversos bares e badalações.

Vejo suas pizzarias, restaurantes mexicanos, árabes, japoneses e fast foods piscando para mim, tudo regado a enormes filas e aromas de frituras pelo ar. Bauru, também conhecida como a cidade sem limites, poderia ser resumida com seus apostos condensados em "A cidade dos lanches sem limites".

Apesar das diversas opções oferecidas pela noite bauruense, resolvo parar em uma padaria de supermercado mesmo! Lá seria um lugar ideal para quem não quer ser reconhecido e que deseje a praticidade de estacionar sem ter que explicar ao flanelinha que será rápido. E lá estava eu, ouvindo saxofone e passos em saltos altos, presenciando os desfiles de grifes e perfumes importados. Isso tudo em um supermercado mesmo, acreditem!

Peço meu salgado, aproveito a pouca fila para sair daquele lugar e poder saborear meu jantar ao volante. Drogar-se enquanto se dirige, um vício comum à vida urbana conturbada! Saio salivando, desejosa de mordidas grandes para tempos pequenos.

"Moça, tem algo para matar minha fome?", um senhor magro, envelhecido pelo tempo no anonimato, sentado à calçada, olhos baixos, com a voz rouca, dirige-se a mim.

Desajeitadamente olho para ele, expressando-me de maneira confusa, tomada pela surpresa e sorriso apertado, entrego-lhe o embrulho. Ele agradece, morde o lanche com voracidade enquanto recolhe seus pés para se sentir mais aquecido.

De repente, ali, naquele momento, sinto-me refeita, disposta, cheia de energia trazida pela vida que ainda pulsa e começo a reconhecer minha arte em reclamar de tudo. A minha fome cede lugar a uma vergonha sem limites. Volto para casa sem comida, só lembro disso quando ouço meu estômago reclamar, mas em vez de lamentar por ter que dormir com fome, elaboro um plano para mudar meu destino na próxima noite: "Sim, comprarei dois lanches!" E durmo.





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