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07/07/19 07:00 - Tribuna do Leitor

Visita à velha senhora

José Carlos Brandão - membro da Academia Bauruense de Letras, que comemora seus 26 anos de vida neste 7 de julho

Eu tinha acabado de me mudar para Bauru quando foi fundada a Academia Bauruense de Letras, não tinha conhecido a grande Dona Celina, fundadora da Academia, a matrona de todos nós, responsável, mesmo de longe, pelo equilíbrio de nossa Casa. Fui convidado a visitá-la, com uma delegação de outros acadêmicos. A princípio declinei o convite - se eu nem a conhecia! Mas fui conhecê-la. Nem sabia que era uma visita histórica: a última homenagem que a nossa Academia prestava à sua mater.

À esquerda de uma grande sala, onde antes funcionava a Escola Progresso, que Dona Celina fundou e dirigiu enquanto pôde, na porta do meio, era o quarto daquela velha senhora, já com uma aura de mistério. Esperava encontrar apenas uma senhora idosa agonizando na sua cama de doente, mas encontrei um monumento vivo da cultura e da língua em nossa cidade de Bauru. Mal podia mover-se no seu leito, mal falava, mas tinha os olhos muito vivos, o espírito muito vivo.

Tomou de uma folha de papel, uma crônica antiga, ajeitou-se no travesseiro e leu, pausada, solenemente, acentuando cada palavra, respeitosamente. Era o respeito pela palavra escrita, de um escritor, quase de um sacerdote - sim, sacerdote - para quem a palavra é sagrada porque tem uma ligação com a divindade, com a Criação. Ficou marcado em meu espírito o ar de veneração da velha senhora, que agora não era apenas uma senhora idosa, mas a matrona que nos dirigia, orientava o nosso norte: a cultura da palavra, que não morre. A palavra é animada por um sopro interior, que permanece, no tempo ou até fora do tempo, com seu caráter intemporal.

Frequentei a casa da Dona Celina após a sua morte, agora transformada num centro de cultura, embora não organizado, oficializado como agora, com o seu nome. Vi performances, pequenas peças de teatro, li meus poemas para um pequeno público muito interessado. A sombra da Dona Celina estava presente, era como se ela pessoalmente nos desse as boas-vindas, era quase como se nos abençoasse. Em um espaço acolhedor no primeiro andar, numa pequena varanda, que dava para o quintal, que era como o quintal da nossa casa. Dona Celina era ainda a anfitriã da arte e da cultura em Bauru, e continua sendo - mais que anfitriã, mater, matrona das artes, da palavra falada e escrita, com sua carga de vida e paixão, que traz em si o passado e projeta-se para o futuro.

Em poucos minutos, pude compreender a força viva de Dona Celina, que a fragilidade do seu corpo prostrado no leito escondia. Ela tinha algo a mais dentro de si, que poucos homens ou mulheres têm. Talvez algo que chamamos de entusiasmo - essa palavra que indica que a pessoa é movida por um sopro de Deus: Dona Celina era movida por um sopro quase divino, que cria e recria o mundo com a palavra. Saímos dali marcados, como se tivéssemos a obrigação, quase o carisma, de continuar a sua obra - a Academia Bauruense de Letras.

Bauru precisa orgulhar-se de Dona Celina Lourdes Alves Neves, sua matrona das artes e da Academia Bauruense de Letras, símbolo da luta pela palavra. Uma cidade deve orgulhar-se do que tem de melhor - a criação da arte da palavra, que revela o que temos de mais humano em nós. A Academia Bauruense de Letras representa essa criação. É um monumento erguido pela Dona Celina para Bauru e, ao mesmo tempo, um monumento nosso em homenagem a Dona Celina.





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