Bauru e grande região - Quarta-feira, 17 de julho de 2019
máx. 22° / min. 10°
12/07/19 07:00 - Opinião

A paz queremos com fervor

Said Yusuf Abu Lawi

Não há coisa pior do que a ignorância, tenham certeza disso, caros leitores e leitoras! Muitos veem nosso país como sendo pacífico, neutro, diplomático e mediador no contexto mundial. Sim, é o que parece... do tipo Denorex, parece mais não é (os mais antigos como eu vão lembrar desse comercial)! Pois bem, vamos então conhecer os números e deixar a ignorância de lado.

O Brasil é o segundo maior produtor de armas leves, de pequeno porte, no Ocidente. Os números são alarmantes e foram produzidos pela pesquisa "Armas leves no Brasil: Produção, Comércio e Posse" ("Small Arms in Brazil: Production, Trade and Holdings". A pesquisa foi realizada em parceria pelo Instituto de Altos Estudos Internacionais em Genebra e as ONGs Small Arms Survey, Viva Rio e ISER (Instituto de Estudos da Religião). Em relação à produção e comércio, a fabricação desses armamentos cresceu progressivamente nos últimos 30 anos, principalmente durante o início da ditadura militar (entre 1974 e 1983). Hoje, a indústria movimenta aproximadamente US$ 100 milhões por ano e está concentrada em três principais fabricantes: Taurus, CBC e IMBEL.

O Brasil nos últimos anos, em quantidade, é maior exportador de armas curtas para os EUA, a maior parte desse volume pertence à Taurus. A CBC, por sua vez, tem o monopólio da produção e comércio de cartuchos no Brasil e a Imbel está mais voltada para mercado militar com a produção de fuzis de assalto. Vale destacar que as armas de fogo usadas pelo crime organizado brasileiro são, sobretudo de fabricação nacional. Já com relação a posse de armas leves a mesma pesquisa apurou que 57% das armas em circulação no país são ilegais. De acordo com o estudo, quem tem a posse da maior parte dessas armas são criminosos ou indivíduos que compram os artefatos no mercado informal para uso privado (http://www.ilanud.org.br).

Portanto, esse grupo de pesquisas, o Small Arms Survey, do Instituto de Estudos Internacionais de Genebra (Suíça) coloca o Brasil como um dos maiores fabricantes de armas de pequeno porte do mundo, ao lado de países como China, Rússia, Alemanha, Bélgica e Estados Unidos. Já no campo das armas de destruição em massa, a posição não é muito diferente. O Brasil não publica sua política de exportação de armas, ou seja, a sociedade civil não sabe como se controla a exportação de materiais bélicos. Trata-se de um ato administrativo de caráter sigiloso oriundo dos anos 1970. Entre 2011 e 2014, empresas brasileiras solicitaram 481 autorizações para realizar negociações preliminares para vender armas a outros governos. Dessas, apenas 35, ou 7,2%, foram negadas. Além de evidenciar critérios ambíguos, algumas autorizações constrangem o Brasil. O governo liberou empresas a negociarem até com inimigos de seus aliados. Por exemplo, em 2011 e 2012, o Brasil exportou US$ 89,9 milhões em produtos de defesa ao Paquistão, entre eles o míssil MAR-1, produzido pela Mectron, companhia comprada depois pelo Grupo Odebrecht. As duas partes firmaram contrato de 85 milhões de euros tendo o Banco do Brasil como avalista financeiro do negócio. O pedido foi feito em meio à tensão diplomática entre Índia e Paquistão. Ou seja, o Brasil, que é parceiro político da Índia nos Brics (integrado por Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul), vendeu material de defesa para o Paquistão, com quem disputa a região da Cachemira.

Outro caso que evidencia critérios ambíguos envolve o Oriente Médio. Em 2012, tropas israelenses lançaram uma ofensiva contra a Faixa de Gaza na qual 162 palestinos e seis israelenses morreram. Preocupado, o governo brasileiro emitiu nota ao Conselho de Segurança da ONU condenando a violência na região. Mas, um dia antes, o Itamaraty autorizara a AEQ, empresa que produz mísseis e propelentes químicos, a vendê-los a Israel. Entre 2011 e 2012, o Brasil exportou US$ 45,5 milhões em produtos de defesa a esse país. A África é um mercado promissor para produtos brasileiros. A Mauritânia vive um quadro de instabilidade com o Mali, vizinho. Parte da região é ocupada por terroristas, e contabiliza 65 mil refugiados mas isso não evitou que Brasil e Mauritânia ampliassem parceria em defesa. Avibras, CBC e Embraer receberam autorização para negociar armas com o governo do país africano. Outro comprador africano é Burkina Faso. Entre 2011 e 2014, o Itamaraty autorizou todos os pedidos de empresas brasileiras - de Avibras, Mectron, Condor e AEQ - a negociar com esse país. Entre 2010 e 2014, o Brasil exportou US$ 52 milhões em produtos de defesa para Burkina Faso, incluindo três aeronaves. A Nigéria, que vive uma guerra com o grupo terrorista Boko Haram, apontado como mais sanguinário do que o Estado Islâmico, é outra cliente. Entre 2011 e 2014, sete empresas receberam autorização para iniciar negociações com o governo do país. Na guerra Irã x Iraque (1980-1988) chegamos a "honrosa" posição de 4º maior exportador de armas de destruição em massa do mundo. Aliás, vendemos armas tanto para o Iraque quanto para o Irã, pasmem!

E agora que vocês, leitores e leitoras, conhecem um pouquinho da verdade, reflitam sobre se nosso Hino do Exército está ou não com sua letra desatualizada, pois assim, outrora, por diversas vezes cantei com muito orgulho: "A paz queremos com fervor... A guerra só nos causa dor".

O autor é doutor pela USP, mestre pela Unesp e jornalista profissional.





publicidade
As Mais Compartilhadas no Face
(SF) © Copyright 2019 Jornal da Cidade - Todos os direitos reservados - Atendimento (14) 3104-3104 - Bauru/SP