Bauru e grande região

Bairros

Orelhões devem 'se reinventar'

Sob o risco de extinção, tal qual os conhecemos, os aparelhos estão com os dias contados, mas devem se modernizar em função do caráter social que exercem

por Dulce Kernbeis

12/10/2014 - 07h00

A psicóloga Suzana Baptista, frequentadora da Universidade Aberta à Terceira Idade (UATI) da USC , precisou ligar para sua casa enquanto frequentava um curso da instituição. De repente, deu-se conta de que seu celular estava completamente sem bateria.  Não teve dúvidas, recorreu ao velho e bom orelhão instalado no pátio da universidade e ligou a cobrar. 

 

Suzana  faz parte da exceção que confirma a regra: ninguém mais usa orelhões no Brasil. Ninguém, não. Apenas 4% da população brasileira das grandes cidades utiliza os orelhões com alguma regularidade. Os números são de 2013. E mais: pelos últimos levantamentos realizados pelo órgão regulador da telefonia no País, a Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel), essa regularidade é de apenas duas chamadas por mês.  Dados também do início de 2013. 

 

Como já estamos no final de 2014, é certo que esse número tenha mudado para um  índice menor de utilização. 

 

Bauru segue norma

 

Em Bauru, a empresa que opera os orelhões, a Telefônica Vivo, informa que existem 198,7 mil orelhões em todo o Estado de São Paulo, 1.694 deles em Bauru. A densidade de telefones públicos na cidade e no Estado é de 4 aparelhos por 1.000 habitantes, conforme a determinação de norma especial da Anatel.

 

Não faltam orelhões em Bauru especialmente na área central. Num percurso de cerca de meio quilômetro, entre as quadras 9 e 5 da avenida Rodrigues Alves, a reportagem do JC contabilizou pelo menos 11 deles.

 

O detalhe: mesmo em horário de rush, saída do trabalho, entre 18h e 19h, o que se via era um grande público usando celulares, e os orelhões, quando muito, servindo de apoio e abrigo para a ventania que aconteceu em vários dias da semana passada.

 

Inimigo ‘invisível’: o vândalo

 

 Em recente evento no Rio de Janeiro, o presidente da Anatel, João Batista de Rezende, afirmou que, apesar de parecer uma tecnologia obsoleta, os telefones instalados nas ruas ainda atendem muitos habitantes de diferentes cidades do País.

 

Para muitas comunidades é o único meio de comunicação, especialmente nas áreas mais remotas, com acesso difícil.  E para a tranquilidade dos moradores, é sempre bom ter um orelhão próximo.

 

 É o caso do Recanto Maricel, em Bauru. Um local cheio de chácaras, que existe há mais de 20 anos margeando a rodovia Marechal Rondon, na região sudeste da cidade, onde moram mais de 200 pessoas. Trabalhadores do local dependem de dois orelhões instalados logo no início do condomínio. E moradores, também em caso de emergência. Não querem depender só de telefones fixos ou celulares.

 

Mas não raras vezes os vândalos, especialmente jovens que se utilizam das chácaras (muitas de aluguel) para festas, são os que “bebem e depredam tudo, pelo simples prazer de cometer o vandalismo”, lembra Valéria Cristina Barbosa, artesã e moradora da região. “Logo em seguida que o local foi loteado e viemos para cá, há cerca de 20 anos, já foi feita a reivindicação e os orelhões foram instalados. Mas depredação é o que não falta”. Mas Valéria enfatiza que os aparelhos são rapidamente consertados. Em menos de uma semana, os dois últimos já estavam funcionando perfeitamente. Até a próxima ação de quem não pensa nos outros.

 

Modernidade: transmissão em wi-fi

 

Se o bairro em que você mora não é bem servido por sinal de internet wi-fi e você tem que chegar em casa, usar a sua banda larga para conseguir conectar seu notebook ou ipad, ou mesmo navegar com o uso de celulares, anime-se: há um plano na Anatel de dotar 300 mil orelhões de todo o País com internet. 

 

A promessa é que estejam prontos para teste até o final de 2016 ou início de 2017, sendo que em 2015 alguns aparelhos já estarão usando a nova tecnologia no Rio de Janeiro, como teste preliminar para as Olimpíadas. A tecnologia para dotar os orelhões de internet livre, em sistema wi-fi já existe. O problema é justamente o vandalismo. O que se discute é se os orelhões continuarão com o mesmo formato dos atuais ou se darão lugar a cabines mais seguras e até com locais para o público se sentar.

 

Operadoras 

 

É bom lembrar que as prestadoras podem adotar os orelhões como hotspots para a disseminação da cobertura de internet sem fio por wi-fi, de acordo com a legislação, e todas já oferecem o wi-fi como parte de seus portfólios para consumidores. Para entender melhor, basta lembrar daquela propaganda em que um casal entra na pizzaria só para usar a internet. Enquanto consulta o cardápio, usa a tecnologia. É o mesmo esquema que faz a pessoa entrar em um restaurante e pedir a senha do local (às vezes até é aberta) e usar a internet durante o período de consumo, certo?

 

Isso estaria livre em cada um dos orelhões. A Anatel não descarta também o uso de orelhões como espaço de propaganda. E também está em questão a liberação dos locais para apresentação de material publicitário desde que a receita proveniente dessa atividade seja integralmente investida na manutenção dos terminais.

 

Assim, moradores de locais remotos teriam não apenas o telefone para fazer suas ligações de voz, mas poderiam acessar a internet e ainda veriam propagandas de empresas que ajudariam a manter os terminais funcionando.

 

Custo baixo? 

 

Também há outro componente a se considerar: quanto isso vai custar e como o consumidor irá pagar. Vale lembrar ainda que, de acordo com a Anatel, a receita líquida mensal por orelhão, estagnada desde 2005, caiu 80%, de R$ 44,60 para R$ 8,90 entre 2010 e 2012. Ou seja, todas as operadoras - em alguns Estados  há mais de uma autorizada a operar o sistema de orelhão -  estão  enfrentando déficit na manutenção do serviço. 

 

Todos os meses ocorrem atos de vandalismo, diz operadora

 

De fato, aqui em Bauru,  o que a empresa de telefonia Vivo sempre faz é repor os aparelhos que são avariados.  Embora não diga o quanto gasta com isso. 

 

“A empresa investe para que o serviço seja adequadamente prestado e, para a manutenção, possui sistema que detecta defeitos nos aparelhos e realiza vistorias periódicas da planta”, diz o gerente de canais regionais da empresa, Téo Gebrim. “A empresa esclarece ainda que, todos os meses, um volume expressivo de cúpulas, postes e aparelhos sofrem atos de vandalismo, exigindo medidas adicionais para que os orelhões estejam à disposição do público”, salienta.

 

Só que a assessoria da empresa não fala quanto gasta com essa reposição e nem quantos são os aparelhos avariados por dia. 

 

Na última semana, percorrendo a região do Higienópolis e Vila Cardia, a reportagem também constatou a existência de pelo menos oito aparelhos, quase todos próximos a escolas e grandes empresas. Praticamente todos em condições de uso, como os da rua Rodrigo Romeiro com Antonio dos Reis  e Almeida Brandão com rua Goiás. Mas na esquina da rua Maceió com a avenida Cruzeiro do Sul, bem próximo a três locais de bastante fluxo de pessoas, o orelhão estava lá: quebrado.

 

Ali fica a unidade do Sesc e ainda há um conjunto habitacional recém-inaugurado. Ou seja, muita gente trafega pela região, mas era justamente lá que o aparelho estava danificado.

 

Vale lembrar também que a empresa faz serviço de higienização dos aparelhos. Em vários deles encontramos uma placa indicando o dia em que foram limpos e higienizados. 

 

Serviços úteis

 

Reparos- Para solicitar reparos de orelhões, o usuário pode entrar em contato com a Central de Atendimento 103 15 (ligação gratuita) que funciona 24 horas nos sete dias da semana. 

 

Cartões - Para comprar cartões telefônicos deve-se dirigir a uma agência dos Correios ou acessar a interface da Vivo na internet e consultar o posto de venda mais próximo do aparelho que você quer usar.

 

A cobrar - Afora isso, pode-se usar o código 9090 + número do telefone local para ligar a cobrar e a chamada será paga por quem receber.

 

Telefones públicos: jovens desconhecem o funcionamento dos aparelhos

 

Os tempos modernos trouxeram uma curiosidade: há itens em nosso dia a dia que os mais jovens sabem que existem, mas provavelmente, jamais usaram. O orelhão é um desses itens. Caso de Mariana Pissolotto, 13 anos. 

 

Moradora do Santa Edwirges, ela garante que conhece o orelhão, porque próximo da escola dela tem um. Mas criada e escolada com celulares, nunca tentou usar. “Mas sei que se for preciso eu tenho que comprar cartão telefônico, porque já vi gente que fez isso”, diz ela.

 

Já sua mãe, Cristiana Pissolotto da Silva, microempresária, 33 anos, lembra com saudade do tempo em que usava os orelhões. “Agora aqui no bairro só tem um, mas quando eu era mocinha tinha muitos e usava para valer, a gente não tinha outra opção”, diz, saudosista, lembrando até que havia filas para usar o aparelho. 

 

Mas hoje ela também fala com felicidade do direito adquirido, tem telefone fixo que serve à residência e ao comércio (ela tem uma loja de roupas) e todo mundo tem celular na família. O marido, ela e a filha. Só não tem o filho menor, que ainda tem 9 anos.

 

O problema dela hoje não é enfrentar filas para usar o aparelho, e sim não perder o celular. “Eu vivo esquecendo e perdendo”, conta, com ar de quem já não sabe mais o que é usar um orelhão.

 

Também Gabriela Nadeu, atendente de uma loja de serviços digitais que funciona dentro da USC, desconhece o uso de orelhões. E atesta que passa pelo menos oito horas por dia na universidade e dificilmente vê algum aluno usando os aparelhos. “Na verdade, quando a bateria acaba e a pessoa está com o carregador, vem aqui pedir para usar a loja para carregar. Ou então o que eu vejo muito é um aluno emprestando o aparelho do outro”, diz.

 

Em tempo: encontrar cartões para comprar também não é tarefa das mais fáceis. É algo que está caindo em desuso também. Orlando Pavan, dono da principal banca de revistas e jornais da cidade, na quadra 6 da rua Primeiro de Agosto, confessa que deixou de trabalhar com cartões telefônicos há cerca de um ano. “Não havia saída, ninguém usa telefone público mais.”

 

História do orelhão é emblemática

 

Os mais novos não sabem, ao menos quem ainda não chegou aos 20, 25 anos. Mas quem tem mais idade do que isso usou, pelo menos uma vez na vida, esse acessório público. Ele foi por duas décadas o grande revolucionador das comunicações telefônicas. Além disso, foi um caso clássico de sucesso no design nacional. 

 

Se hoje, na maioria dos casos o orelhão é um empecilho a mais a obstruir as calçadas e atrapalhar o trânsito de pedestres, é bom que se conte que no início dos anos 70 o que havia eram cabines cilíndricas, muito maiores, semelhantes às cabines vermelhas dos filmes clássicos que retratam a Inglaterra.

 

Também é bom que se diga que os telefones públicos antigamente ficavam em postos telefônicos ou em bares, cafés, padarias. Isso no tempo em que as ligações eram realizadas com a ajuda de  uma telefonista.

 

Ideia oval

 

Em 1971 foram instaladas em São Paulo cabines circulares de vidro e acrílico. Era um trambolhão no meio das calçadas. E ainda utilizadas inadequadamente. Viravam até banheiros públicos. 

 

Assim, a arquiteta e chefe da Engenharia de Prédios da CTB - Companhia Telefônica Brasileira, Chu Ming, percebeu que a empresa buscava uma alternativa para substituir as cabines cilíndricas. Foi assim que ela deu início a um projeto em que um abrigo oval em fibra de vidro era acoplado a um suporte de metal. Ideal para atender à necessidade da empresa.

 

E a melhor acústica foi conseguida com o novo formato do aparelho, o oval. Surgiram, assim, os famosos orelhões.

 

Caiu a ficha

 

Quando a tecnologia evoluiu e se conseguiu que as ligações não mais passassem pelas telefonistas, houve também a invenção da ficha.  Em casa a gente discava (sim, os telefones eram à base de disco, daí o termo discar) os números e pagava pelo consumo no final do mês.

 

No fone público as ligações  tinham que ser pré-pagas, certo? Então funcionavam à base de pequenas fichas metálicas. O funcionamento era simples, colocava-se a ficha numa ranhura e esta ficava “presa”. Se a ligação fosse completada, a ficha caía no compartimento interno do orelhão e durante até 3 minutos você poderia falar à vontade; caso a ligação não fosse completada, a ficha caía em outro compartimento e era devolvida ao cidadão. Simples assim. Veja a foto da ficha de 1994. Daí surge a metáfora - “a ficha caiu”... para mostrar que a ligação está completada, se entende algo que estava confuso antes.

 

Personagem de Jô Soares

 

As filas e o orelhão que faziam parte do folclore do brasileiro fizeram o humorista Jô Soares criar um dos seus personagens mais inesquecíveis: o Zé da Galera. Criado pelo diretor Max Nunes, ele era um torcedor fanático da seleção e ligava para o técnico para dar palpites na escalação do time. Na época, a grande polêmica envolvendo a seleção era o esquema tático de Telê, que abria mão dos jogadores que atuavam nas pontas direita e esquerda em prol de uma marcação especial no meio-campo. Por causa deste esquema, Zé costumava gritar, inconformado, o famoso bordão: “bota ponta, Telê”.

 

Cartões telefônicos 

 

Nos anos 2000, graças aos engenheiros - todos brasileiros, do Centro de Pesquisa e Desenvolvimento de antiga Telebrás -, a existência de fichas começou a mudar.  E justamente para eliminar as fraudes das fichas.  Desenvolveram o sistema de cartão telefônico de plástico que aos poucos foi ganhando o mundo, substituindo as fichas de metal. Nos cartões telefônicos existe uma lâmina de alumínio que contém dezenas de fios da grossura de um fio de cabelo, cada um correspondendo a uma unidade de crédito. Funcionando como fusíveis, eles se rompem toda vez que passa por eles uma corrente, eliminando um crédito do cartão. Ao colocar o cartão no telefone, um dispositivo chamado leitor magnético verifica se os fios estão queimados ou não. Na foto ao lado, série de cartões em homenagem ao ex-piloto de Fórmula 1 Ayrton Senna.

 

Filas quilométricas

 

Na década de 90 era comum haver filas quilométricas para usar os aparelhos e o número de orelhões era insuficiente à demanda. Também havia aparelhos que eram instalados em lojas, bares, salões de cabeleireiros para fidelizar o cliente. Todos com fichas. É bom lembrar que o sistema permitia fraudes: utilizando-se de uma linha amarrada nas fichas, as pessoas conseguiam ligar e retirar a ficha como se a ligação não tivesse sido completada (ela não caía no compartimento correto). Com isso, o usuário podia fazer nova ligação