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Apae: o valor de fazer o bem

Mais do que inclusiva e de prestação de serviço social, a entidade bauruense, aos 52 anos de vida, foca no dom de aproximar as pessoas

por Dulce Kernbeis

15/10/2017 - 07h00

Malavolta Jr
Visão geral do Instalações, onde é aplicada a fisioterapia específica de cada área
Professora Cinira Ribeiro com os alunos

Por definição, é fácil saber o que faz uma Apae: é uma entidade onde toda a comunidade se une para prevenir e tratar os portadores de alguma deficiência e promover o bem-estar e desenvolvimento deles.

A missão da entidade é promover e articular ações de defesa dos direitos, prevenção, prestação de serviços de qualidade, apoio à família direcionado à melhoria da qualidade de vida das pessoas com deficiência, necessidades educacionais especiais e em situação de vulnerabilidade, visando à inclusão social.

Mas não é só isso. No caso de Bauru, especialmente, a entidade que completou 52 anos de existência (foi fundada em janeiro de 1965)  está tão integrada à comunidade que vai além. É como se fosse uma grande família, não só entre seus membros, os amigos e voluntários e toda a comunidade. O alto-astral das ações da Apae contagia.

Construir trocas solidárias e comprometidas com a tarefa de produzir saúde e bem-estar, contagiando a todos com atitudes e ações humanizadoras, é mesmo uma constante. Basta frequentar eventos tradicionais como a Feira da Bondade, realizada no último final de semana pela 40ª vez e verificar in loco, no recinto Mello de Moraes, que se trata de uma festa da família. Mais do que praticar a caridade e angariar fundos, a diversão dos pequenos é priorizada. Para eles, é que boa parte das atrações está montada. E mais:  é o congraçamento das famílias que dá a tônica desse e de outros eventos para os quais a comunidade se mobiliza.

Um trinômio com perfil de excelência

Assistência social, saúde e educação compõem o tripé de serviços prestados pela entidade: sempre em busca de parceiros com os melhores tratamentos​

Fotos: Malavolta Jr.
Grupo de cuidadores no atendimento terapêutico, visto em atividade dentro do serviço de assistência social
Hidroterapia é uma das opções oferecidas

Quando se pensa em Apae, logo vem à mente a imagem da pessoa com a síndrome de down, com deficiência intelectual e um atendimento da infância ao envelhecimento a essa pessoa, através do voluntariado, sem fins lucrativos. Isso é verdadeiro.Tanto que um dos principais serviços prestados pela entidade é o chamado "teste do pezinho" que tem o objetivo de promover o diagnóstico e prevenção da síndrome (entre outras doenças).

Mas hoje em dia a Apae vai além: a instituição atende a todos os indivíduos portadores de necessidades especiais. E busca tratamentos terapêuticos além de auxilar no conhecimento e na prática pedagógica de meios que atendam as particularidades dessa população. Sendo assim, a instituição desempenha um papel significativo na atual conjuntura do país no que diz respeito a implantação de políticas desenvolvidas para incluir esses indivíduos em todas as esferas da sociedade.

Historicamente tem sido a Apae, juntamente com outras instituições similares, a brigar para que os diretos do  chamado portador seja preservado.

Para que isso aconteça, há um trinômio de ações sendo desenvolvidas. Compõem os três lados desse triângulo de um lado a assistência social, de outro a educação e na base a saúde.

NOVA FILOSOFIA

Com uma nova filosofia, a Apae prega que a missão não é cuidar da clientela, não há assistencialismo puro e simples e, sim a intenção é formar pessoas para a vida, tendo como parceria principal a família. Assim, prega-se que a pessoa com deficiência tenha a oportunidade de escolha e o direito de gerenciar sua vida desde as habilidades básicas de alimentação e autocuidado até a defesa de seus direitos como cidadão.

A autogestão inicia-se na família, a partir da construção de hábitos, novo valores e interação física e social com o ambiente em que o portador vive.

Residência Inclusiva dá novo significado

O programa de residência inclusiva da Associação dos Pais e Amigos dos Excepcionais (Apae) de Bauru tem mais de dez anos de atividade. O projeto atende especificamente jovens e adultos com deficiência física e intelectual, que, por algum motivo, perderam vínculos familiares e comunitários. Separados entre homens e mulheres, o objetivo de cada uma das casas é fazer com que os atendidos se sintam como em seus lares.

Por isso toda a fachada, apesar de estar localizada dentro da unidade, é desenhada para ser igual às demais casas da vizinhança. Além disso, dentro da própria residência todos os cômodos são decorados como uma casa comum (claro que respeitando as individualidade e com cuidados inerentes à idade, por exemplo, de seus moradores). Mas o programa dá muito certo: são pessoas que não tinham qualidade de vida e a sensação de estarem à margem da sociedade e, agora lá dentro, não mais.

Malavolta Jr.
Maria Tereza Moraes mostra seu quarto na residência inclusiva onde, além do seu cantinho, há o espaço comunitário (foto anterior) com as demais na sala de estar

Número de atendimento surpreende

Para manter os mais de 53 mil atendimentos anuais, para mais de 1.800 assistidos, são necessárias promoções, além da ajuda governamental

Fotos: Malavolta Jr
Setor de Reabilitação Física: Jabeli Rossi, fisioterapeuta, e Sueli de Fátima Delgadinho, paciente; abaixo, Erickson Alves da Silva, ortoprotesista, atua na oficina ortopédica

Ao fazer um balanço do quanto a entidade vem crescendo e realizando nos últimos anos, a presidente da entidade, Olga Bicudo Tognozzi, lembra que houve duas grandes conquistas em 2016. Uma delas foi através da oficina ortopédica quando se conseguiu aumentar a quantidade de órteses, próteses e meios auxiliares de locomoção para os usuários.

"Um destaque vai para a dispensação de próteses oculares, pois mesmo sendo um direito do cidadão, não estava tão acessível a toda população de Bauru e região,como está agora", lembra dona Olga. 

O laboratório do chamado Teste do Pezinho, que há alguns anos perdeu o convênio federal e esteve próximo de fechar as portas, é um destaque na entidade. Conseguiu se manter e, ainda foi expandido  ano passado. Isso porque fez parceria com a cidade Lins, expandindo assim a realização do exame ampliado de prevenção às deficiências.

Eventos, bingos, etc.

E como a entidade faz para se manter? Aqui não se trata de um triângulo e, sim, há a figura de um quadrado - não totalmente perfeito. De um lado está a participação de recursos da municipalidade "que graças a Deus não tem nos faltado, o município ajuda muito", de outro os recursos estaduais "que confesso o governo do estado faz, mas faz pela metade, bem menos do que deveria" e ações junto ao governo federal, especialmente na área da saúde. O quarto lado dessa equação é completado com as ações diretas junto à sociedade, como rifas, bingos, jantares e festas. Ou seja, o complemento vem da comunidade, essas ações representam 1/3 do que a entidade precisa para se manter. E quase sempre o ano é fechado no vermelho. Todo mundo se lembra que há alguns anos a entidade esteve próxima de fechar as portas. Deu a volta por cima, mas a conta ainda não fecha totalmente. Um exemplo? Cada assistido custa, per capita, R$ 3.719, anuais. E o que ela arrecada dá R$ 3.500,00. 

Os atendimentos de 2016

Psicologia- 6.882

Terapia Ocupacional - 2.560

Serviço Social - 8.466

Oficinas - 10.865

Atendimento domiciliar - 2.488

Orientação familiar -  3.400

Visitas domiciliares - 240 

Encaminhamentos - 28

Articulação com a rede - 2.125 

Refeições - 5.600

Grupos de gestão - 2.400

Atendimento de arte - 8.199 

TOTAL - 53.253 atendimentos

A conta não vai fechar

Para este 2017, a presidente já acha que a conta não fechar. Isso porque a Feira da Bondade deve deixar um rastro de R$ 100.000,00 a menos do que a entidade contava que fosse o lucro líquido. O balancete ainda não está fechado, mas já se sabe que este ano a festança teve bem menos público do que nos anos anteriores e mesmo quem foi consumiu menos. Dona Olga não acredita que seja a crise a responsável por isso. "Por que o ano passado estávamos em crise também, aliás, penso que a crise era até maior", justifica seu pensamento para dizer que foi a chuva de sábado que prejudicou o afluxo das famílias.

Como ela vai fazer para garantir os encargos sociais do final do ano e não fechar no vermelho? Já avisa os fornecedores da festa não esperem receber tudo de uma vez. "VAmos renegociar os prazos e valores para o pagamento".

A outra opção está em turbinar os eventos que ainda vão ocorrer até o final do ano. Assim, ela se diz sempre "esperançosa, confiante e até mesmo destemida" para enfrentar esse balanço negativo. "Outras ações virão e tenho certeza de que o público comparecerá, afinal, não podemos esquecer nunca que é por  uma causa muito nobre".