Bauru e grande região

Bairros

O dia e a noite na Praça Rui Barbosa

Ela já foi o principal ponto de encontro e de eventos e hoje abriga diferentes ‘tribos’ e assume perfis diversos nas manhãs, tardes e noites

por Marcele Tonelli

11/03/2018 - 07h00

Fotos: Samantha Ciuffa
Praça Rui Barbosa completa 104 anos em 12 abril de 2018
Marcele Tonelli
Há quatro anos, Marina Simões Souza frequenta a praça para ver a movimentação do Centro e aguardar o almoço no Bom Prato
Aceituno Jr.

Um dos principais marcos do desenvolvimento e da história de Bauru, a Praça Rui Barbosa completa 104 anos em 12 abril de 2018. Ao longo das últimas décadas, a praça, que já foi o principal palco de eventos oficiais da prefeitura e ponto de encontro de famílias, assumiu novos perfis. Hoje, o espaço reúne diferentes 'tribos' ao longo dos três períodos do dia.

O JC nos Bairros percorreu a praça, nos últimos dias, para saber quem são e de onde vêm os atuais frequentadores assíduos do espaço, nos turnos da manhã, tarde e noite. Eles falaram também sobre as suas impressões a respeito da praça, ou seja, o que melhorou e o que piorou no local, na opinião deles, ao longo dos últimos anos.

RODA DO TRUCO

É quase impossível atravessar a Praça Rui Barbosa e não reparar nas pequenas rodas de homens, a maioria idosos, reunidos com um baralho ao centro da praça, seja de manhã ou à tarde.

"É o nosso truco sagrado de todo dia. Tem também o pessoal da cacheta", responde Minoru Goto, de 74 anos, um dos mais experientes do grupo. Aposentado e morador do Mary Dota, ele conta que frequenta o local, das 12h às 17h, de segunda a sexta, como um atrativo logo após o almoço no Bom Prato, restaurante do Estado que serve refeições a 1 real, a algumas quadras dali. "Eu ficaria sozinho em casa. Aqui, eu tenho amizades e me divirto", pontua.

À ESPERA DO ALMOÇO

Também no período da manhã, não é difícil encontrar pessoas sentadas nos bancos conversando ou apenas olhando a movimentação ao redor da praça que estão apenas à espera do almoço no Bom Prato.

Marina Simões de Souza, de 77 anos, é uma delas. Também aposentada e moradora do Centro, ela diz que, há quatro anos, de segunda a sábado, frequenta a praça para aguardar o almoço. "Gosto de ver o pessoal jogando truco. Antigamente, vínhamos aqui aos finais de semana para footing (caminhar pelo local e flertar), mas tudo mudou. E a praça, hoje, está mal frequentada. Algumas poucas pessoas salvam", critica a idosa.

RELAX

Grupos de jovens sentados nas escadarias também não faltam na praça Rui Barbosa, principalmente à tarde.

Desempregadas, as amigas Nucely Piuvizan, 18 anos, moradora do Santa Edwirges, Amanda Juliano, 19 anos, e Alexssandra Cristina, 20 anos, ambas moradoras da Vila Falcão, frequentam o local para conversar e relaxar quando vão ao Centro.

"É um espaço que tem uma energia boa", comenta Alexssandra. "O poder público podia cuidar melhor daqui. Foi feita uma reforma recente e gastaram um dinheirão, mas nada mudou", critica a jovem.

Fotos: Samantha Ciuffa
“Eu ficaria sozinho em casa. Aqui, eu tenho amizades e me divirto”, diz o aposentado Minoru Goto
Amanda Juliane, Alexssandra Cristina e Nucely Piuvizan vão ao Centro e se encontram à tarde na praça para conversar e relaxar

RELIGIOSOS À NOITE

Aceituno Jr.
Luiza Córdoba e Andrez Vergara com os filhos Johan (menor) e Jean Paul: família frequenta praça para ir à igreja à noite

Ao longo de todo o dia é possível observar movimentação de pessoas que entram e saem da Catedral do Divino Espírito Santo. Mas com o anoitecer e o esvaziamento da praça, a presença dos fiéis se torna ainda mais marcante. Moradora da Vila Souto, a família do equatoriano Andrez Vergara, de 34 anos, e da colombiana Luiza Córdoba, de 26 anos, que está há 4 anos no Brasil, frequenta a igreja várias vezes na semana para ir à missa e participar da catequese. "Nos sentimos acolhidos e bem aqui. O pessoal da igreja nos ajuda. Estamos nos adaptando", resume Andrez. Sobre a praça, eles a elogiam com ressalvas. "É bonita, mas temos medo de ficar andando por aqui, parece perigoso, mal cuidado, falta iluminação", acrescenta Luiza.

AGUARDANDO A MERCADORIA

Aceituno Jr.
Juliana Marcondes, da Vila Dutra, vai um vez na semana

Há ainda quem frequente a praça durante a noite, em dias de semana ou domingo, apenas para esperar ônibus de viagens. Há 25 anos, a costureira Juliana Marcondes, 42, moradora da Vila Dutra, vai ao local à noite para aguardar um ônibus que chega da Capital com sua mercadoria de costura. "Às vezes eu vou junto para São Paulo, mas dessa vez não deu", cita. "Tenho um pouco de medo de ficar aqui sozinha, o Centro era mais movimentado à noite antigamente", completa ela, olhando desconfiada para os lados.

Praça vira reduto de arte durante o dia

Artesãos, hippies, desenhista e outros fazem do espaço na área central de Bauru seu ganha-pão diário; até árvores ganharam rostos pintados

Marcele Tonelli
Valmir Rheinheimer comercializa artesanatos há duas décadas na Praça Rui Barbosa
Samantha Ciuffa
Há dois anos trabalhando diariamente na Rui Barbosa, Lúcia Helena Atanasi produz colares hippies
Marcele Tonelli
José Greifo Silva ganha a vida desenhando retratos na Praça Rui Barbosa

Não é preciso andar muito pela Praça Rui Barbosa para identificar que o local se transformou em uma espécie de reduto da arte durante o dia. Oriundos de Bauru ou de outras regiões do Estado, artesãos, hippies e até desenhista ganham a vida vendendo objetos de arte pelas imediações do espaço.

Descontente com o mercado de trabalho formal, a caiçara e hippie Lúcia Helena Atanasi, 38 anos, é dos exemplos. Ela conta que já trabalhou como balconista em padarias e restaurantes por Bauru, mas decidiu montar o próprio negócio em busca de liberdade. Há dois anos, Lúcia, conhecida como Lu, vende artesanatos na Praça Rui Barbosa, das 8h às 17h, de segunda a sábado.

"Era cansativo e eu não era valorizada no trabalho formal. Aqui, eu faço e vendo o que gosto", afirma a hippie. E é deste comércio que ela e o marido, que também vende óculos no local, sustentam uma filha de quatro anos. "Apesar de a freguesia não ser tão forte, a gente consegue levar até que bem a vida", contabiliza.

RETRATOS

É também por maior liberdade que José Greifo Silva, 47 anos, desenhista, aliás, rabiscador, como ele mesmo se intitula, busca na praça, há pouco mais de um ano, freguesia para seu dom em desenhar retratos.

Figura simples e tímida, entre as poucas palavras que trocou com a reportagem ele conta não gostar de ser chamado de artista. "Não gosto desta palavra. Neste momento, eu ganho a vida assim. Tem gente que gosta, mas não é todo dia que aparece alguém interessado", comenta.

Natural do Paraná, ele trabalhou por anos no mercado formal, mas decidiu trocar tudo pela vida atual. "Se eu acordar e não vir aqui (para a praça) sinto certo incomodo", pontua. Os retratos custam em média 20 reais e levam vinte minutos.

'SEGUNDA CASA'

Gaúcho, o artesão e ambulante Valmir David Rheinheimer, de 44 anos, figura conhecida por quem frequenta a praça, considera o local sua segunda casa. Há duas décadas com uma barraquinha de artesanatos e afins, ele conta que foi por lá que conheceu sua esposa e constituiu família. "Tenho três filhos e tiro a renda daqui, aos poucos, o negócio foi melhorando", frisa.

Das 8h às 18h no local todos os dias, exceto aos domingos, ele conhece o local como a palma da mão e diz que o perfil da praça mudou bastante nos últimos 15 anos. "Era um lugar mais gostoso, mais família e tinha mais vida. Parece que parou no tempo. Um espaço como esse deveria ter um playground para as crianças e atividades para a terceira idade", avalia.

Árvores com rosto chamam a atenção 

Os rostos pintados em algumas árvores centenárias dão à Praça Rui Barbosa mais "jeitão" ainda de reduto de arte. Em uma das intervenções, próxima aos banheiros, a pintura leva a assinatura de Sheila Bazalha, uma professora de artes da cidade. A reportagem tentou contato com ela, mas sem sucesso. Frequentadores do local dizem que Sheila costumava perambular pela praça, algumas vezes com pinceis, outras com violão.   

Aceituno Jr.
Árvore centenária com “rosto” pintado por artista ganha luz em tom verde à noite na Praça Rui Barbosa
Fotos: Samantha Ciuffa
Árvores centenárias ganharam cores e rostos com pinturas artísticas pelas mãos da artista Sheila Bazalha

Praça também tem louvor

Outra figura muito conhecida por quem frequenta a praça, principalmente pela manhã, é Maria Aparecida Silva, de 56 anos. Faxineira e moradora do Jardim Ouro Verde, nas horas vagas, ela passa horas cantando hinos evangélicos, sozinha, na Rui Barbosa. "Tem muita coisa ruim, gente perdida e aflita aqui, por isso venho louvar o senhor", conta a mulher, confessando que seu sonho é ser pastora. "Eu tenho sonhos com Jesus e ele me chama para ser profetisa, mas não tenho dinheiro para abrir uma igreja", pontua Maria, finalizando a curta conversa com a repórter e voltando a cantar.

Em tempo: outro evangélico, Varme de Oliveira, que morreu em janeiro de 2015 aos 77 anos, também era conhecido por frequentadores da praça. Por mais de uma década, ele pregou o evangelho sozinho no local.

Marcele Tonelli
Maria Ap. Silva, do Jardim Ouro Verde, sonha em ser pastora e passa horas cantando, sozinha, hinos evangélicos

‘Dogão’ da Rui Barbosa

Há também quem ganhe a vida na Praça Rui Barbosa vendendo alimentos. José Arnaldo da Silva, de 48 anos, por exemplo, mora no Colina Verde, mas passa, pelo menos, onze horas do seu dia na praça fazendo lanches, entre eles o famoso "dogão", cachorro quente. Com a renda, ele sustenta a esposa e filhos. "Tenho um apego pela praça porque estou há 25 anos aqui. Mas, atualmente, é um local que tem mais defeito do que qualidade. À noite é um lugar abandonado", observa Silva.

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José Arnaldo da Silva mora no Colina Verde, mas passa, pelo menos, onze horas do seu dia fazendo lanches na praça

‘Faltam segurança e opções de lazer’

Frequentadores criticam pouca segurança e falta de opções de lazer principalmente para crianças, jovens e idosos na Praça Rui Barbosa

Aceituno Jr.
Apenas metade das luzes dos postes funcionava na última segunda-feira (5) na Praça Rui Barbosa, o que gera a noção de abandono
Marcele Tonelli
Praça recebe patrulhamento diário com reforço de policiais da Atividade Delegada
Fotos: Aceituno Jr.
“Tem gente que não vem à missa aqui por medo”, diz o padre Marcos Pavan, pároco da Catedral do Divino Espírito Santo, localizada na praça
É comum pessoas sob efeito de álcool ou outros psicoativos entrarem na Catedral do Divino; registro na última segunda (5), minutos após a missa, flagra pessoa gritando para santa

A falta de opções de lazer para crianças, jovens e adultos, e a falta de segurança, principalmente à noite, na Praça Rui Barbosa é queixa comum entre frequentadores do espaço.

Na última semana, apenas metade das luzes da praça funcionava, o que gerava, inclusive, noção de abandono no período noturno. Fomos até lá.

Entre os relatos, está o de um homem de 83 anos, que pediu para não ser identificado por segurança, que contou ter sido tirado de um banco da praça por outros dois homens, que teriam escondido drogas no local, na semana passada. "Tive vontade de ligar para a polícia", relata. "É triste ver a praça assim, era um lugar tão lindo antigamente, todo final de semana tinha banda da PM e as crianças brincavam", reforça.

Pároco da Catedral do Divino Espírito Santo, o padre Marcos Pavan confirma a situação. "Tem gente que não vem à missa aqui por medo", cita. Ele confirma, inclusive, que o local já foi alvo de furto de fieis algumas vezes. "A praça sempre viveu essa diversidade e não podemos coibir o ir e vir, porque todos são irmãos. Há três anos contratamos segurança particular, mas, às vezes, acontece de alguém entrar e até de atrapalhar a missa. Eu alerto e peço calma", acrescenta Pavan.

PREJUDICA

Um taxista de 75 anos, que também pediu para não ser identificado, reitera o problema.

"É meu local de trabalho, mas não tem nada de bom aqui. Droga e prostituição têm quase o dia todo. Isso tem prejudicado nosso serviço", reclama, dizendo que o problema teve início há oito anos. "Às vezes, a PM aparece e eles (usuários de droga) correm, mas é só os policiais saírem que eles voltam", acrescenta.

PREFEITURA

Sobre a manutenção do espaço, a Secretaria Municipal de Meio Ambiente (Semma) afirma que mantém três servidores fixos para serviços de jardinagem no local. A prefeitura diz ainda que, no final do ano passado, a praça passou por revitalização geral de paisagismo, com substituição de vários tipos de plantas, serviços de poda, levantamento de árvores, além da pintura da área e manutenção da iluminação.

Sobre a iluminação queimada, a prefeitura diz que "serão orçados os materiais necessários para fazer a recuperação da área".

Em relação às solicitações de mais lazer no local, a Semma e a Secretaria Municipal de Cultura informam que têm "interesse em executar novas ações e atividades para que o local seja ocupado como opção de atrativo". As pastas, conduto, não deram mais detalhes sobre o assunto.

PM

Já a respeito da segurança, o comandante da Base Centro da PM, capitão Bruno Mandaliti, afirma que a praça recebe patrulhamento diário com reforço de policiais da atividade delegada. "A Rocam e o Canil também fazem abordagens semanais por lá. A maioria é morador de rua. Eles são detidos por porte de entorpecentes, mas depois acabam liberados na delegacia. Ali, mais do que abordagem da PM, há necessidade de ação de abordagem social e de saúde pública", observa o capitão Mandaliti.

Marcele Tonelli
Cena comum em dias de calor: homem se refresca no chafariz da praça, na última terça-feira (6)

SUJEIRA NO PONTO

O taxista de 75 anos reclama ainda que a cobertura do ponto de táxi tem virado abrigo à noite e, às vezes, amanhece com urina e fezes. "Temos que trazer água e sabão de casa para lavar, porque a água do ponto foi cortada", cita. Sobre o assunto, o DAE informa que, desde novembro de 2016, o serviço foi cortado por falta de pagamento. "Ficaram acumuladas 15 contas não pagas que totalizam hoje R$ 537,85, em nome do Ponto de Táxi. Para solicitar a religação uma pessoa física responsável pelo local e deverá procurar o Poupatempo pagar as despesas e solicitar a religação", diz.

Samantha Ciuffa
Taxistas reclamam de água cortada dificulta lavar bancos do ponto de táxi que amanhecem, às vezes, com urina e fezes

Praça já teve lago e até jacaré e macacos

Arquivo Luciano Pires/Reprodução
Considerada a primeira praça do município, a Praça Rui Barbosa, em sua primeira configuração, tinha jardins luxuosos e lagos artificiais

Inaugurada em 12 de abril de 1914, a Praça Rui Barbosa era tida como espaço de lazer, frequentada por famílias e grupos de amigo. Considerada a primeira praça do município, ela tinha jardins luxuosos e lagos artificiais e a paisagem chegou a ser composta até por jacaré e macacos.

"Mas, antigamente, o público era dividido e a praça não era plural, democrática. Os negros costumavam circular pelo lado de fora e os brancos por dentro, apesar de não existir nada que dissesse ou definisse isso", lembra seo Luciano Pires, jornalista e memorialista.

Ela passou por várias reformas e, além de perder os animais, as árvores começaram a ser cortadas em 1939 e deixaram de ser protagonistas na década de 60.

Mas o cenário mudou completamente mesmo após reforma no início da década de 90, feita pelo arquiteto Jurandyr Bueno Filho, que se inspirou em praças europeias. A obra foi alvo de críticas em função da falta de árvores, mas ressaltou os marcos históricos, como o coreto, construído em 1913, a perobeira plantada no cinquentenário do município, e o espaço da primeira capela de Bauru, construída em 1894 e demolida em 1913, demarcado por mosaicos portugueses brancos, pouco à frente da Catedral.

Em tempo: um desentendimento político-religioso entre a prefeitura e o bispo de Botucatu e o ex-prefeito Manoel Bento da Cruz ordenou a demolição da capela, o que culminou com a excomunhão a cidade. Desentendimento que foi superado mais tarde.

Em 2015, o local foi alvo de reforma novamente para ampliação do espaço verde. A obra, que ficou meses fechada com tapumes foi duramente criticada por ter custado R$ 653 mil, e não ter mudado a "cara" do espaço. "Ao longo dos anos, a praça perdeu seu glamour, mas ficou mais plural", cita Pires.