Bauru e grande região

Bairros

Pelas quadras da Sete de Setembro

Data histórica, comemorada na última sexta-feira, é também endereço de diversas histórias em Bauru

por Ana Beatriz Garcia

09/09/2018 - 07h00

Fotos: Ana Beatriz Garcia
Em Bauru, a rua Sete de Setembro guarda histórias curiosas e diversas no Centro da cidade

Moisés Mondlane Moanza é angolano e mora na rua Sete de Setembro há 4 anos

A semana que começou com a triste notícia do incêndio no berço de grande parte da história do Brasil e do mundo, o Museu Nacional, no Rio de Janeiro, celebrou também os 196 anos de um capítulo importante dessa nossa história: a Independência da República. O grito de "Independência ou Morte" pôs fim à exploração colonial lusitana no dia 7 de setembro de 1822. Em Bauru, no entanto, esta data faz parte do dia a dia e da história de quem mora na rua batizada com este nome.

Carla Mondlane Moanza trança os cabelos da adolescente Yasmin Paula de Souza

Localizada na região central da cidade, as 14 quadras da rua em que é sete de setembro todos os dias é endereço de uma diversidade de temas que o JC nos Bairros foi conferir nesta edição, aproveitando a proximidade com a data.

E, afinal, o que se encontra na rua Sete de Setembro? Há lembranças de infância, casas que guardam histórias memoráveis, endereços de algumas religiões presentes na cidade, comércios e serviços, além de contos de famílias que vivem ali há alguns anos.

LIBERDADE

Na via em que se rememora a Independência do Brasil de Portugal, vive uma família que veio de Angola e sabe muito bem sobre a importância dessa conquista. "Nós vemos que o Brasil, mesmo com suas dificuldades políticas, ainda está muito à frente do nosso país, que conseguiu sua independência em 1975. Aqui, nós vemos que as pessoas vivem em maior liberdade, o que é bastante diferente do que o que a Angola passa, em regime ditatorial", comenta Moisés Mondlane Moanza, 30 anos, angolano que está em Bauru há 4 anos.

Com ele, mais quatro irmãos e um sobrinho moram na quadra 2 da rua Sete de Setembro. "Viemos todos para fazer faculdade no Brasil. No meu caso, fiz logística e trabalho com vendas, então não tenho previsão de onde vou morar nos próximos anos. Mas fizemos muitos amigos e sabemos que alguns escolhem o Brasil para se estabilizar. A ideia de muitos angolanos é vir para o Brasil, estudar e voltar para casa para ajudar o crescimento do nosso País", explica Moisés.

OPORTUNIDADES

Voltar para Angola é um dos desejos da irmã de Moisés, Carla Mondlane Moanza. Ela, que mora há mais tempo em Bauru, há 6 anos, formou-se em Administração na cidade. "Assim como os meus irmãos, vim para cá estudar. Ainda tenho vontade de voltar para nossa terra, mas por enquanto estou feliz aqui", afirma.

O que deixou Carla um pouco mais no Brasil foi a crise em seu País de origem. "Nosso pai nos mandava mesada e a crise na Angola fez com que ele parasse de nos mandar dinheiro. Então, comecei a trabalhar com as tranças, que sempre soube e gostei de fazer", diz enquanto trabalha no cabelo de uma cliente.

Na rua Sete de Setembro, a casa dela e dos irmãos se tornou um espaço para receber quem se interessa por trançar as madeixas. "Tranço cabelos das minhas amigas desde os meus 15 anos. Conheço bastante o cabelo afro e faço o trabalho com produtos vindos de Angola, é uma nova oportunidade de renda para mim", pontua.

Acompanhada da mãe, Yasmin Paula de Souza, 13 anos, aprova as tranças feitas por Carla. "Estou testando esse penteado. Viemos por indicação de uma amiga da minha mãe que disse que o trabalho dela era muito bom", finaliza.

Construções que guardam histórias

Na rua Sete de Setembro, localizada em região antiga da cidade, casas 'contam' um pouco do passado 

Arquivo Pessoal
Pai de Pelé, Dondinho, e Nicanor Garutti em frente à casa onde atualmente funciona o Conselho Metropolitano de Bauru da Sociedade São Vicente de Paulo

Em uma breve volta pela rua Sete de Setembro, região antiga da cidade de Bauru, percebe-se que algumas casas e comércios contam histórias do passado. Lá pela quadra 4, um local chama a atenção. Já não é mais uma casa, pois foi demolida, mas ali, conta-se que foi o endereço dos pais do ídolo do futebol brasileiro, o Pelé.

Fotos: Ana Beatriz Garcia
Adriano Aparecido Simini conta sobre a vizinhança com a 'casa do Pelé''

Atualmente, local onde era casa dos pais do rei do futebol é terreno com entulhos

“O que toda a vizinhança sabe é que o Pelé nunca morou nessa casa, apesar de ser lembrada como ‘Casa do Pelé’. Os pais dele moraram por um tempo aqui, quando ele já estava no Santos e até a primeira Copa do Mundo em que ele jogou, seus pais ouviram pelo rádio, dessa casa”, conta Adriano Aparecido

Simini, de 39 anos, que, há 15 anos, trabalha na casa vizinha ao endereço, no Conselho Metropolitano de Bauru da Sociedade São Vicente de Paulo.

Adriano conta que essas informações chegaram até ele por conta de vicentinos antigos que frequentam a sede e por conta, principalmente, do dono da casa onde funciona o escritório.

“Nicanor Garutti era dono daqui e amigo de Pelé e da família dele. Ele era uma pessoa sozinha, sem irmãos e também não se casou. Anos antes de falecer, ele decidiu que deixaria a casa e seus pertences à Sociedade São Vicente de Paulo. As histórias que conhecemos são dos amigos dele, mais antigos na sociedade”, comenta Adriano.

Trabalhando neste endereço, Adriano conta que acompanhou a degradação da chamada ‘Casa do Pelé’ ao longo dos anos. “Era uma judiação. Víamos um vandalismo grande, um entra e sai suspeito e sabíamos que a história daquela casa estava se perdendo”, comenta.

DEMOLIDA

Conforme o JC noticiou na época, em 2015, o imóvel foi demolido após uma ação de usucapião na Justiça para solicitar que a residência fosse reconhecida oficialmente como propriedade do ex-jogador, de sua mãe e de três irmãos. Com a regularização, a casa foi vendida para um empresário da Capital. “A família não tinha mais interesse em manter este imóvel, que era o único que ela ainda tinha em Bauru. Todos os proprietários estão fora daqui e ficou complicado, para eles, continuar administrando a casa, a distância”, comentou a advogada da família do rei do futebol, Ana Carolina Borges, à época.

Também naquele ano, o jornalista e historiador Luciano Dias Pires reiterou que o rei do futebol nunca morou na chamada “Casa do Pelé”. “Ele morou na rua Rubens Arruda, em uma casa que, hoje, não existe mais. Só quando começou a ganhar dinheiro, já jogando no Santos, é que conseguiu comprar a casa da Sete de Setembro de presente para os pais”, disse. “Ele passou, portanto, apenas alguns finais de semana lá dentro”, emenda, destacando que, anos depois, o ex-jogador adquiriu ainda outra residência, mais espaçosa, localizada na quadra 15 da rua Quinze de Novembro.

Em família

Ana Beatriz Garcia
Isabela Loria, Philipe Augusto Luz, Valquíria Vallotti, Réryta Valotti e Eunice Vallotti em café da tarde no brechó da família

Um pouco à frente, na quadra 5, mais histórias e mais família. Em um brechó aberto há quatro meses, uma família se reunia para um café da tarde quando a reportagem chegou, na última semana. Lá, Valquíria Vallotti, 53 anos e a sobrinha, Réryta Valotti, 35 anos, recebiam os parentes Philipe Augusto Luz, 26 anos, Isabela Loria, 23 anos, e Eunice Vallotti, de 65 anos. 

“Nós sempre moramos por essa região. Eu lembro de estudar aqui perto e cresci passando por essa rua. Meu pai tem um salão de cabeleireiro aqui em frente, também na Sete de Setembro. Então, essa rua é bem conhecida por nós”, afirma Philipe. O brechó gerido em família por Valquíria, Réryta e Edneia Vallotti, conta com 4 mil peças e muitas histórias.

“Nós tínhamos um brechó itinerante. Já passamos por muitos lugares da cidade, mas escolhemos esse ponto para nos fixar. Eu prefiro estar com a loja. É um ponto central e bom, com bastante movimento e as vendas vão bem”, finaliza Réryta.

Rua também é 'caminho de fé'

Além dos estabelecimentos comerciais e residenciais, a Sete de Setembro 
também conta com edificações das religiões espírita e católica, importantes na cidade

Samantha Ciuffa
Rua Sete de Setembro vista do alto da igreja de Santa Terezinha do Menino Jesus

Aceituno Jr.
Procissão de Corpus Christi, de grande relevância para a religião católica, passa pela rua Sete de Setembro

Entre comércios, clínicas, cartório e residências, a rua que relembra a Sete de Setembro também é endereço de fé, em Bauru. Construções quase centenárias são berços de algumas das religiões presentes na cidade: o Centro Espírita Amor e Caridade (Ceac) e a Igreja de Santa Terezinha do Menino Jesus.

Reprodução
A igreja de Santa Terezinha do Menino Jesus é uma construção do ano de 1934

"Em dezembro do ano que vem faremos 100 anos de Ceac. Em 1922, foi inaugurada a sede própria na rua Sete de Setembro, em uma casa que, com o passar dos anos, foi ganhando novos contornos e diversas atividades doutrinárias e de atendimento", comenta o presidente do Ceac, José Silvio Turini.

Além da sede estar localizada nesta rua há 19 anos, a principal festa da entidade é realizada por ali. "A Festa do Amor e da Caridade, a Festac, é o momento em que confraternizamos com toda a nossa comunidade. Somos em 1,2 mil voluntários em seis núcleos, mais a sede. É uma festa bastante grande aberta ao público", comenta.

Samantha Ciuffa
Igreja Santa Terezinha do Menino Jesus é uma das igrejas mais antigas de Bauru

Para isso, a quadra 8 da rua Sete de Setembro é fechada para receber os visitantes. "Nós fazemos a festa em nosso estacionamento que fica na outra calçada. Com o fechamento da rua, garantimos mais espaço para que vem prestigiar", comenta.

VIA DE PROCISSÃO

Assim como a religião espírita, a católica conta com uma de suas igrejas mais antigas no município localizada na quadra 9 da rua Sete de Setembro. "Essa construção é de 1934, mas só em 1952 a igreja foi reconhecida paróquia. Conta-se que essa rua era uma das extremidades da cidade e, hoje, é a região central", conta o pároco da paróquia de Santa Terezinha, padre Gustavo da Natividade.

Na festividade da santa padroeira, em 1 de outubro, a rua Sete de Setembro também dá espaço à quermesse da paróquia. "Fazemos uma festa nos dias que antecedem o dia de Santa Terezinha. A quermesse fica na praça da igreja e reúne pessoas de todos os bairros, por conta da localização", comenta.

Além disso, na procissão de Corpus Christi, a reunião entre todas as paróquias da cidade de Bauru se dá na igreja de Santa Terezinha e tem como ponto de partida a rua Sete de Setembro. "O tapete é confeccionado a partir de nossa paróquia, seguindo pela rua Sete de Setembro até a altura da Gustavo Maciel. De lá, o tapete segue até a Catedral", finaliza.

Samantha Ciuffa
Quadra 8 da rua Sete de Setembro, em frente ao Ceac, também é palco de festa