Bauru e grande região

Bairros

A vida nas travessas de Bauru

Testemunhas do desenvolvimento da cidade, ruazinhas guardam histórias curiosas de moradores e são tidas como refúgio do vaivém agitado no meio urbano

por Marcele Tonelli

21/10/2018 - 07h00

Marcele Tonelli
Bauru tem 94 travessas registradas na Seplan; na foto, a travessa Constante Perroca, na Vila Perroca, imediações da alameda Dr. Octávio Pinheiro Brisolla

Ofuscadas muitas vezes por prédios e avenidas, as travessas passam quase despercebidas na rotina frenética em meio urbano. Em Bauru, existem, hoje, 94 ruazinhas de apenas uma quadra, principal característica das travessas, registradas na Secretaria Municipal de Planejamento. Elas estão espalhadas por toda a cidade e, além de serem testemunhas do desenvolvimento do município, guardam histórias curiosas. No Centro, por exemplo, a maioria das travessas é tida como um refúgio pelos moradores, que nelas se livram do vaivém agitado do trânsito.

Também caracterizadas pela ausência de pontos comerciais, algumas parecem abrigar a tranquilidade e a sensação de segurança de condomínios fechados, segundo relatam os moradores.

O JC nos Bairros traz algumas curiosidades da vida nas travessas de Bauru.

LIBERDADE

Fotos: Marcele Tonelli
A travessa liberdade fica localizada nas imediações da rua Quinze de Novembro, na altura do cruzamento com a rua Rio Branco, no Centro
“Não troco a vida na travessa por nada na cidade”, diz dona Odânia Queiroz
Moradoras da travessa Liberdade, Odânia Queiroz e Elis Cardoso passam tardes papeando na frente de casa

Mais aconchegante e até intimista do que uma rua comum, a travessa Liberdade, localizada nas imediações da rua Quinze de Novembro, na altura do cruzamento com a rua Rio Branco, é sinônimo de tranquilidade, amizade e até mesmo de liberdade propriamente dita. É o que dizem os moradores de lá.

Dona Odânia Queiroz, 88 anos, e dona Elis Santiago Cardoso, também 88, são vizinhas e possuem quase quatro décadas de amizade e de convivência na travessa Liberdade. Viúvas, atualmente, elas sempre se ajudaram como boas vizinhas e, agora, na melhor idade, se reúnem com frequência para chás e cafés ao longo das tardes.

"Meus filhos queriam que eu mudasse para um apartamento, mas não troco a travessa por nada. Aqui, eu tenho amizades e liberdade de ir e vir, porque tudo o que preciso é perto", comenta Odânia.

Em alguns dias da semana, elas se também se juntam com os demais vizinhos dos fundos da travessa para papear.

"É uma delícia morar aqui, é pacato e pertinho do Centro. É como morar em um condomínio fechado", reforça Elis. "Não me preocupo nem em combinar roupa, saio na rua com o que uso pra ficar em casa mesmo", completa a moradora.

SAUDOSISMO

E os vizinhos da travessa Liberdade já foram até mais unidos e alegres no passado, segundo elas.

"Lembro dos natais e festas juninas em que fechávamos a travessa", lembra Odânia.

"Foi acabando, porque muitas pessoas que moravam aqui ou morreram, ou mudaram. São poucos os moradores antigos", acrescenta dona Elis.

Com jeito de rua

A travessa é caracterizada por sua dimensão mais estreita do que a da rua. Enquanto a travessa possui largura de até 6 metros, a rua deve ter largura variável entre 8 e 14 metros.

Apesar da especificação, algumas travessas em Bauru mais se parecem com ruas. É o caso da travessa Boa Sorte, no Centro, que fica próxima ao Senai, e que tem até dois sentidos de fluxo do trânsito, e das travessas José Assad Cury e Haiti, estas duas últimas localizadas no bairro Terra Branca. Assim sendo, o que as diferenciam como travessa é o fato de possuírem apenas uma quadra.

Fotos: Marcele Tonelli
Travessa Boa Sorte, no Centro de Bauru, tem a largura de uma rua normal
A travessa Haiti, no Terra Branca, também tem largura de rua
Travessa José Assad Cury também não tem largura de travessa, apesar de ser curta

Reduto de sossego em plena região central do município

Na travessa Célia, fachadas intimistas de casas antigas e tranquilidade de moradores, que chegam a ficar o dia todo com as portas e janelas da frente abertas chamam a atenção

Marcele Tonelli
Descanso em clima de fazenda: dona Elza Mangini, Gislaine Aparecida Cristianini, Giulia Cristinanini (na rede) e a poodle Suri, na varanda da frente da casa

Em meio ao agito das movimentadas ruas que circundam a avenida Duque de Caxias, uma das principais artérias de Bauru, está a travessa Célia. Uma ruazinha pacata composta por algumas casas com fachadas intimistas e um tanto quanto curiosas. Mas o que mais chama a atenção mesmo é a tranquilidade de alguns moradores de lá, que deixam as portas e janelas da frente das casas abertas o dia todo, mesmo morando na região central da cidade.

"Vivemos em clima de fazenda, aqui. Nossa casa é antiga e mantemos tudo aberto, porque a travessa é bem tranquila. Até acordamos com barulhos de passarinhos", comenta a psicóloga Gislaine Aparecida Cristianini, 50 anos, moradora da travessa.

No fim de tarde, quase todos os dias, ela descansa na varanda com a mãe Elza Mangini, de 77 anos, e a filha Giulia Cristianini Carrijo Guimarães, de 10 anos.

"Moramos por muitos anos em ruas movimentadas e ficávamos presas dentro de casa. Quando mudamos para cá voltamos a ter paz", reforça Gislaine.

Vizinha da família Cristianini, a dona de casa Sueli Costa Maurigi, 62 anos, conta que foi criada em sítio e que morou em outros endereços na cidade, mas foi na casa da travessa Célia que ela mais se adaptou.

"Eu não aguentava o barulho da rua, morei muito tempo na Gerson França. O sossego da travessa é incrível, até dormimos com a janela aberta, às vezes", cita Sueli.

Por outro lado, a moradora critica a falta de cuidado por parte do poder público com o local. Um terreno com mato alto e entulho de construção tem perturbado moradores da travessa por acumular escorpiões. "Já achei um na parede de casa. Parece até que, por ser travessa, a prefeitura cuida menos", critica Sueli. Grande população de gatos abandonados por lá também já foi alvo de reclamação dos vizinhos.

CALMARIA

Outra cena que reforça a calmaria da travessa Célia é observada logo no início do quarteirão: seo Luiz Carlos Ruiz, de 66 anos, descansa apoiado na janela da frente de sua casa, todos os dias e a qualquer hora, basta não chover.

Morador do local há 12 anos, ele diz que mantém sempre au janela aberta durante o dia e que nunca teve problemas com segurança.

"Gosto de ficar olhando a rua, mesmo sem movimento. De vez em quando, aparece algum vizinho para conversar", observa o morador.

Fotos: Marcele Tonelli
Sueli Costa Maurigi em momento de descanso com os netos Hudson Gabriel e Cauê Henrique Campos (ao centro) na varanda da casa
Fachada de casas na travessa Célia, no Centro, chamam a atenção: cores fortes e chamativas, grades e muros baixos
Luiz Carlos Alvez Ruiz mantém a janela de sua casa, voltada para a via, sempre aberta e aproveita para papear com vizinhos

Os sortudos da travessa Boa Sorte

Marcele Tonelli
Paulo Tellis com o filho Herick, a esposa Jaqueline e os irmãos Victor e Jamili; travessa é bem localizada e tão tranquila que as crianças chegam a brincar na calçada

Há dois anos, o professor de educação física Paulo Tellis, de 25 anos, diz ter tirado a sorte grande no aluguel de casas. Ele encontrou um imóvel em pleno Centro de Bauru, com valor baixo e localizado em uma travessa, longe do trânsito das ruas nas imediações.

"Meus irmãos brincam até na calçada de tão sossegada que é a travessa. E nem precisamos de carro morando aqui, porque tudo é perto, escolas, mercado, farmácia, meu trabalho...", cita o rapaz, que antes morava com a família na região periférica.

Encravada entre as ruas Treze de Maio e Virgílio Malta, quase de frente ao prédio do Senai, o caminho de paralelepípedo não é estreito igual aos demais.

Benefício que moradores de outras travessas têm como queixa frequente. Com o aperto da via, há dificuldade para estacionar ou manobrar veículos na entrada ou saída da garagem.

Marcele Tonelli
Silvio José Veronezi elogia a tranquilidade da travessa em que mora, ele passa horas podando o jardim da frente de sua casa

Travessa Haiti: ‘Eu cuido do meu jardim’

Silvio José Veronezi, 65 anos, não pensa em mudar de endereço. Morador da travessa Haiti, no Jardim Terra Branca, há 17 anos, ele conta que o lugar é o mais tranquilo que já morou ao longo da vida. "Passei por Lins e por Rio Claro, mas Bauru ganhou meu coração. E a vida na travessa é sossegada demais, se eu morasse em outra rua, com mais movimento, teria receio em sair de casa assim. Mas aqui, eu cuido do meu jardim", compara o morador, que possui amizade com quase todos os vizinhos do local.

Para ele, o único porém de morar na travessa está na dificuldade de quem é de fora da cidade encontrar o endereço com rapidez. "As visitas sempre se perdem", reforça.

Disputa de veículos por vaga de estacionamento chega às travessas​​​​​​​

Apesar da tranquilidade relatada por moradores, algumas travessas do Centro têm registrado fluxo anormal de carros à procura de vagas de estacionamento​​​​​​​

Fotos: Marcele Tonelli
Apesar do sossego relatado pelas moradores, travessa Liberdade também sente disputa de vagas para estacionamento durante o dia por não possuir áreas verde ou azul
Para regular o uso das vagas, travessa Leandro recebeu placas da zona azul
Luiz Amorim lembra que a travessa Leandro já foi mais tranquila, mas o desenvolvimento do Centro trouxe maior fluxo de trânsito até a travessa, que precisou ganhar sinalização de zona azul

Nos últimos anos, o desenvolvimento da cidade aliado ao fluxo crescente de veículos na região central têm feito com que algumas travessas percam uma de suas principais características, o baixo fluxo de veículos. Apesar de não registrarem trânsito, algumas ruazinhas têm sofrido com a disputa por vagas de estacionamento.

Na travessa Leandro, por exemplo, a Emdurb chegou a instalar placas de zona azul, recentemente, para regular o uso do espaço comum.

"O movimento aumentou muito e as famílias foram fechando as frentes das casas. A travessa não era assim antigamente", lembra Luiz Amorim, 85 anos. "Mas eu sou feliz aqui, a gente ainda tem tranquilidade, apesar do movimento maior", completa o aposentado que é morador do local desde 1961.

Dona Odânia Queiroz, 88, que reside na travessa da Liberdade, também confirma que a implantação da zona azul, não na travessa, mas nas ruas Quinze de Novembro, Agenor Meira e Rio Branco, nos últimos anos, trouxe mais movimento para a ruazinha.

"Durante o dia, as vagas são muito disputadas, porque aqui é o único lugar que não se paga para estacionar. Mas à noite e aos finais de semana tudo volta a ser tranquilo", avalia a moradora.

TRANQUILIDADE PERDIDA?

Já na travessa Constante Perroca, na Vila Perroca, a aposentada Marcelina Pereira, 78 anos, confirma que o maior movimento trouxe menos sossego para os moradores do local.

"Só saio de casa acompanhada. Depois que a travessa virou acesso importante para a alameda Octávio Pinheiro Brisolla, tudo mudou. Quase nenhum vizinho sai na rua para conversar. Passa muita gente estranha por aqui", comenta dona Marcelina.

Na última semana, na companhia da enteada Jane Santiago, 66 anos, ela tomou coragem para cortar os matos que cresciam na sarjeta de sua casa.

"Mesmo com o movimento maior, sinto saudades de morar nesta travessa. Hoje, moro em Campinas e lá eu fico realmente enclausurada em casa", compara Jane.

Fotos: Marcele Tonelli
Até a travessa Célia tem registrado fluxo de veículos à procura de vagas
Placas indicam proibição de estacionamento e pedem redução de velocidade na travessa Leandro, que registra fluxo de carros à procura de lugares para estacionamento
Marcelina Pereira aproveita a companhia da enteada Jane Santiago para tirar mato da calçada, na travessa Constante Perroca: movimento maior diminuiu a tranquilidade por lá
Travessa Leandro ganhou câmeras externas de vigilância em algumas residências nos últimos anos

SEM MOVIMENTO​​​​​​​

Em contraste com a realidade citada acima, travessas como a Narciso Beltrani, na Vila Perroca, e a travessa Zahie Assad Cury, no Jardim Terra Branca, esbanjam calmaria.

Algumas dessas vielas abrigam um silêncio levemente perturbador a visitantes pouco acostumados ao local e, principalmente, à ausência de trânsito.

Marcele Tonelli
Travessa Narciso Beltrani, na Vila Perroca e, ao lado, Travessa Zahie Assad Cury, no Terra Branca