Bauru e grande região

Bairros

Apesar do apelo das novas tecnologias, Movimento Escoteiro atrai e se reinventa

Em Bauru, dois grupos escoteiros oferecem atividades ao ar livre aliadas a valores importantes na formação de crianças e adolescentes

por Ana Beatriz Garcia

24/03/2019 - 07h00

Fotos: Malavolta Jr.
O escotismo é um movimento mundial, educacional e de voluntariado, que tem por objetivo fazer crianças e jovens desenvolverem o caráter e estimularem suas potencialidades

A sede do Grupo Escoteiro Guia Lopes está localizada no bairro Higienópolis, em Bauru

Fotos: Reprodução
O Grupo Escoteiro Tiradentes está localizado no Jardim Europa, em Bauru

Em tempos em que muito se discute sobre o uso de tablets, smartfones e jogos eletrônicos por crianças e adolescentes, dois tradicionais grupos do Movimento Escoteiro em Bauru têm resistido aos avanços da tecnologia e se adequado a essas novidades, sem deixar de promover o contato com a natureza e os valores fomentados há mais de 100 anos. Ao todo, 270 pessoas, entre crianças, adolescentes e adultos, compõem o movimento em Bauru, sendo 110 no Grupo Guia Lopes, no Higienópolis, e 160 no Tiradentes, no Jardim Europa.

O escotismo é um movimento mundial, educacional e voluntariado fundado, em 1907, pelo Lorde Robert Stephenson Smyth Baden-Powell, que tem por objetivo fazer crianças e jovens desenvolverem o caráter e estimularem suas potencialidades físicas, intelectuais, sociais, afetivas e espirituais, como cidadãos responsáveis, participantes e úteis na sociedade.

"Nos últimos tempos, o movimento está se reinventando. Estamos nos atualizando frente às novas tecnologias. De repente, o que fazíamos há 26 anos, fazemos de formas adaptadas para os dias de hoje e para a realidade deles", afirma a presidente do Grupo Escoteiro Tiradentes, Maria Lúcia Badin Marques, de 53 anos, escoteira há 26.

A presidente ainda destaca que uma boa programação ajuda a chamar novas crianças e adolescentes para o movimento. "Dentro das nossas atividades, nós buscamos que elas sejam atraentes e variadas para chamar os jovens e as crianças. Por isso que os adultos, dentro do movimento, também precisam do compromisso de criarem uma boa programação para atraí-los", diz.

ADAPTAÇÕES

Malavolta Jr.
Vivian da Silva Lopes, presidente do Grupo Escoteiro Guia Lopes

Presidente do Grupo Escoteiro Guia Lopes, Vivian da Silva Lopes, de 32 anos, entrou no movimento, em 1994, aos 8 anos, e conta como o escotismo vem se adaptando ao mundo digital.

"Hoje, nós temos atividades que são feitas pela Internet. Por exemplo, em outubro, tem o Joti (Jamboree On The Internet), em que o Brasil inteiro se conecta nessa atividade. Eles têm atividades para serem cumpridas ao ar livre, mas que devem ser postadas na Internet. Têm atividades pelas redes sociais, pelo WhatsApp, mas são ações culturais para que eles possam absorver conhecimento que diz respeito à progressão deles no movimento", diz Vivian.

"Temos algumas competências que os escoteiros precisam conquistar para conseguir um distintivo. Hoje, já existem especialidades relacionadas à Internet. São coisas que, antigamente, não se tinha", completa Maria Lúcia.

'SEM DEIXAR O CAMPO'

Vivian ainda afirma que dá para acompanhar o que está acontecendo no mundo dos jovens, sem deixar os princípios do movimento. "A gente teve que se reinventar para poder atrair o jovem, sem deixar o campo, as aventuras em cachoeiras, os acampamentos, as barracas. Eles também precisam disso para que possam se desconectar do mundo virtual e entender que o simples e o real também é legal", destaca. "A gente não compete com a tecnologia, porque são coisas diferentes. O videogame vai estar sempre lá, vai ter o momento para ele e as nossas atividades estarão proporcionando diversão e aprendizado em um ambiente diferente da casa deles", completa.

PARTICIPAÇÃO

Vivian ainda salienta que, há uns sete anos, houve uma queda acentuada na procura pelo grupo, mas que o número de membros vem sendo restabelecido. "Acredito que tenha sido um período em que as crianças passaram a encontrar as atividades ao ar livre em outros lugares. Mas sentimos que a procura está aumentando, novamente, nos últimos tempos. Atualmente, recebemos, por sábado, de 8 a 10 interessados em fazer parte do movimento", afirma.

A presidente do Guia Lopes também fala sobre a troca de aprendizados tecnológicos em relação às novas gerações e às mais velhas que fazem com que o movimento nunca morra. "Acredito que enquanto existirem pessoas interessadas em aplicar o Movimento Escoteiro, ele vai sobreviver", finaliza.

Um movimento para jovens, feito por jovens

Os escoteiros são expostos, desde muito novos, a atividades em grupo que demandam responsabilidade e respeito

Reprodução/Facebook
Grupo Escoteiro Tiradentes durante atividade em dia de reunião

Se quando você pensa em escoteiros só se lembra de acampamentos, barracas e nós, saiba que eles não fazem apenas isso. Além do uniforme e do lenço no pescoço, uma forma de reconhecê-los é por seus valores e pelas atividades que realizam. A União dos Escoteiros do Brasil define como um movimento para jovens, feito por jovens, que tem como principal engrenagem a vitalidade das crianças e adolescentes aliadas à experiência dos adultos voluntários.

"A gente fala que é um estilo de vida. Quando você entra para o movimento, você muda seu posicionamento em relação à você e àquilo que está a sua volta. O jovem, quando entra para o grupo, passa por uma transformação. Ou ele está a fim de ser escoteiro, ou não consegue se adaptar. O movimento é feito por eles e para eles, o adulto está aqui para orientar e zelar, mas é tudo com eles", pontua a presidente do Grupo Escoteiro Guia Lopes, Vivian da Silva Lopes.

Reprodução
Maria Lúcia Badin Marques, presidente do Grupo Escoteiro Tiradentes

De acordo com a presidente do Grupo Escoteiro Tiradentes, Maria Lúcia Badin Marques, o Escotismo é um movimento educacional que, por meio de atividades variadas e atraentes, incentiva os jovens a assumirem seu próprio desenvolvimento, a se envolverem com a comunidade, formando líderes.

"O mais importante do movimento é a oportunidade que temos de complementar a educação que eles recebem em casa e, assim, formar bons cidadãos. Dentro de um espírito escoteiro, eles podem crescer juntos, dentro do movimento. Eles mesmos assumem o seu próprio desenvolvimento diante das mediações que nós fazemos para eles", afirma.

Segundo Vivian, todas as atividades são regidas e guiadas para que eles tirem lições de vida. "A criança e o jovem terão uma progressão pessoal, as atividades aplicadas fazem como que ele absorva, sem que até mesmo ele perceba, valores. E ele leva isso para a comunidade em que está inserido para fazer um mundo melhor", explica a presidente. "Tudo que desempenhamos com eles é para que interpretem como isso pode refletir na vida deles. Seja com uma lição de respeito a si mesmo, seja uma consciência de seu sedentarismo ou até do seu próprio caráter. Os principais valores de um escoteiro está ligado ao respeito mútuo e à honestidade, a palavra de um escoteiro tem muita verdade", completa.

Vivian ainda destaca que todos os ensinamentos não têm por finalidade um viés religioso, mas cívico. "Não somos ligados a nenhuma religião. É importante que cada um tenha a sua espiritualidade, mas aqui eles aprendem, sobretudo, sobre o respeito às diferenças", diz.

DIVISÕES

O Movimento Escoteiro é dividido por faixas etárias e cada uma tem seu respectivo nome: o Lobinho (de 6,5 a 11 anos incompletos), o Escoteiro (de 11 a 15 anos incompletos), o Sênior/Guia (de 15 a 18 incompletos) e o Pioneiro (de 18 a 21 anos incompletos).

A divisão é feita para que as atividades possam ser aplicadas de acordo com cada idade. O ramo Lobinho, por exemplo, é totalmente lúdico, baseado na história do Mogli - O Menino Lobo. O Sênior é baseado no desafio, pois é a fase em que os jovens querem ter os seus limites superados. Então, eles são expostos a essas situações, mas sempre sob a supervisão de um adulto, que é o escotista ou chefe.

DESAFIOS

Além das crianças e jovens que participam do movimento, pessoas com mais de 21 anos podem entrar como adulto voluntário, sem limite de idade.

"Temos dificuldades em ter membros adultos voluntários que apliquem as atividades para as crianças e jovens. Precisaríamos de mais pessoas interessadas em ajudar para podermos aceitar mais crianças no movimento", destaca Vivian.

Maria Lúcia acrescenta que a falta de voluntários cria listas de espera no grupo que preside. "Eu tenho um número muito grande de crianças e adolescentes que não podem entrar por conta da falta de voluntários. Daria para montar uma alcateia e uma tropa com as crianças que estão aguardando", diz.

Ela também acrescenta os desafios em relação aos pais. "Alguns pais não são participativos. Eles querem apenas deixar os filhos lá por esse período e ir buscar, mas não colaboram em demais atividades. Isso deixa a desejar", finaliza.

Como faz para ingressar no movimento?

Para quem se interessar em participar do movimento ou levar crianças e jovens para conhecer, basta ir a um encontro em um dos dois grupos escoteiros presentes na cidade. Os jovens podem participar por três reuniões para ver se eles se adaptam e querem permanecer no movimento, aí então é feita a inscrição.

O Grupo Escoteiro Guia Lopes faz as atividades regulares aos sábados, das 14h30 às 16h30. Para participar das reuniões, basta comparecer na sede, localizada na Rua Maceió, nº 4-5, aos sábados, a partir das 14h e fazer a inscrição. O Grupo Escoteiro Tiradentes, está localizado no Jardim América e tem reuniões das 14h30 às 17h. Para participar das reuniões basta ir à sede a partir das 14h30 e perguntar por Maria Amélia, que passará todos os detalhes do movimento aos interessados.

Você sabia?

Robert S. Smyth Baden-Powell foi o fundador do escotismo (os "Boy Scouts"), em 1907. Ele nasceu em 22 de fevereiro de 1857, em Londres, e faleceu em Nairobi, no Quénia, no dia 8 de janeiro de 1941. Chegou a ser um herói nacional pelo seu trabalho na defesa militar de Mafekling, na África do Sul, durante a guerra contra os "Boers", entre 1899 e 1902. 

Seu pai morreu quando ele tinha apenas 3 anos, deixando a sua mãe com sete filhos, dos quais o mais velho tinha entre 12 e 13 anos e o mais novo apenas 1 mês de vida. Robert viveu uma bela vida ao ar livre com seus quatro irmãos, excursionando e acampando com eles em muitos lugares da Inglaterra.

Amor e dedicação total ao Movimento Escoteiro

Crianças, jovens e adultos comentam suas motivações e pais confirmam benefícios na formação dos filhos​

Fotos: Malavolta Jr.
Catarina Cristovan e o filho Ricardo Del Rio Cristovan mostram o poncho com os distintivos que ele conquistou em atividades e acampamentos

As crianças, os jovens e os adultos se divertem e se apaixonam pelo Movimento Escoteiro. Os pais confiam, colaboram e até entram para o movimento com o passar do tempo. Responsabilidade e espírito de equipe são um dos atributos que eles destacam quando o assunto é o Movimento Escoteiro, além da grande paixão e dedicação.

“Eu entrei como lobinho e agora sou escoteiro. Fui incentivado pela minha mãe e acho que a gente aprende muito sobre responsabilidade e como cuidar uns dos outros. Eu gosto muito do movimento e me dedico bastante”, conta Ricardo Del Rio Cristovan, de 12 anos, do Grupo Guia Lopes. A mãe, Catarina Cristovan, 35 anos, foi escotista e começou no movimento com 9 anos. “Eu acho que eles aprendem muito a se virar sozinhos. Vejo que o meu filho tem mais responsabilidade do que muitas crianças na mesma idade que ele. Hoje, ele é monitor da patrulha, então, ele tem que se preocupar com o resto da turma dele”, afirma.

Além disso, Catarina destaca a mudança de postura do filho. “A educação e os valores que o escotismo passa, como amor à natureza e respeito às pessoas são muito importantes. Sobretudo, hoje em dia, em que as crianças estão fechadas dentro de seus apartamentos atrás de seus celulares, é muito bom para eles estarem aqui todo sábado aproveitando o que a natureza pode oferecer e a interação entres eles”, completa.

Malavolta Jr.
Grupo Escoteiro Guia Lopes Adalberto Macedo com o filho Eduardo Saes Macedo

Arquivo Pessoal
Joyce Cano Fuganti com o filho Carlos Henrique Cano Fuganti, a filha Amanda Cano Fuganti e a chefe Ana Elisa Berbert

Adalberto Macedo, de 53 anos, também foi escoteiro. Começou aos 7 anos, em ilha solteira, e depois de chegar em Bauru, tornou-se colaborador do movimento. “Depois que as crianças nasceram, apresentamos para eles o movimento e esperamos a identificação deles. Nada foi imposto, mas eles, de fato, gostaram e quiseram participar”, afirma. “Destaco o compromisso em relação ao grupo de trabalho, eles sempre aprendem a trabalhar em equipe, o que a gente não percebe muito entre os jovens de hoje, que estão cada vez mais individualistas. O grupo escoteiro promove a socialização do jovem”, completa. Os três filhos de Adalberto passaram pelo movimento. Hoje, o caçula Eduardo Saes Macedo, de 12 anos é quem faz parte do Grupo Guia Lopes.

Essa também é a visão de Joyce Cano Fuganti, de 40 anos, que tem dois filhos no Grupo Escoteiro Tiradentes. “Minha filha mais velha entrou aos sete anos, em Campo Grande, e continua, aqui em Bauru. Já meu caçula entrou aqui, aos seis anos e meio. Acredito que é um movimento que trabalha junto aos pais para se ensinar valores morais e o respeito. Isso é sentido, inclusive, na escola com melhores resultados”, afirma.

NOVAS AMIZADES

Malavolta Jr.
A lobinho Helen Luiza Pinheiro Leotério fala sobre fazer novas amizades

A pequena Helen Luiza Pinheiro Leotério, de 7 anos, nunca tinha tido contato com as atividades em campo e ao ar livre como são desenvolvidas no movimento e destaca o quanto essas atividades a deixam feliz. “É legal conhecer novos amigos, novos lobinhos, porque a gente se diverte demais aqui. Eu não era tão feliz antes de entrar no grupo, mas agora eu estou muito alegre. Eu gosto de tudo que a gente faz aqui, é tudo muito divertido”, diz.

A Sênior, Jullia Christina da Silva Arroteia, de 15 anos, está no grupo há 2 anos e salienta que foi muito importante conhecer novas pessoas. “Eu entrei para o movimento e ainda não sabia como as coisas funcionavam, mas quando conheci, comecei a me apaixonar e o escotismo virou parte de mim, não vivo mais sem. Antes eu era antissocial e não conversava muito com as pessoas, mas depois do grupo, eu comecei a interagir mais com as pessoas e a me divertir, como não me divertia. O que eu mais gosto é a união que temos e as coisas que aprendemos juntos”, salienta.

ESCOTISTAS

Após os 21 anos, todo adulto voluntário é chamado escotista e passa a colaborar para os trabalhos e atividades do grupo. É o caso de Luiz Alberto Peral, 67 anos, que atua há 30 anos como chefe de tropa no Grupo Escoteiro Guia Lopes. “Entrei aos 37 anos por conta dos meus filhos que começaram no movimento como lobinhos. Minha esposa começou e eu entrei em seguida. É gratificante, a gente não consegue se desligar. Eles são como filhos nossos, tem confiança na gente, os pais também confiam muito no que fazemos, mesmo nas atividades externas”, destaca.

Quem também tem grande amor pelo movimento e salienta que a experiência mudou sua vida é Nathaly Pavanella Oligário, de 25 anos. “Participo desde 2003, quando tinha 9 anos. Eu era uma criança introvertida, tímida e bastante dependente. O movimento mudou a minha vida, hoje, perdi a timidez, criei liderança e me libertei. Morei dois anos fora do País e sei que isso foi possível por conta dessa experiência. Sou apaixonada pelo movimento, 90% de quem eu sou devo ao grupo escoteiro. Mudou a minha vida”, finaliza.

Malavolta Jr.
Vanda Aparecida Consolmano fala sobre a Associação dos Amigos dos Escoteiros Chefe João Barbosa

Associação

Presidente da Associação dos Amigos dos Escoteiros Chefe João Barbosa, Vanda Aparecida Consolmano, de 50 anos, conta como os pais das crianças e jovens colaboram para a manutenção do Grupo Escoteiro Guia Lopes.

“Nós contamos com 15 pessoas que auxiliam em toda a parte burocrática da sede, com os eventos e com tudo que não diz respeito às atividades diretamente com as crianças. Dessa forma, podem se envolver e ajudar a manter o movimento”, afirma.

Malavolta Jr.
Jullia Christina da Silva Arroteia é Sênior no Grupo Escoteiro Guia Lopes

Arquivo Pessoal
Nathaly Pavanella Olegário fazendo sua promessa escoteira para escotistas

Malavolta Jr.
Luiz Alberto Peral é chefe de patrulha há 30 anos